Por Draco Stellamare
Embora os mortos possam eventualmente ter uma clara ideia de como foi sua transição para o além-túmulo, eu cheguei à conclusão de que só é capaz de entender a morte aquele que é imortal. Pode parecer contraditório, e da maioria dos pontos de vista certamente é, mas tenho boas razões para concluir isso, e deixarei a cargo do leitor pensar o que quiser a esse respeito. Ao contrário do que pode parecer quando falamos de alguém que tem o péssimo hábito de debater suas convicções, eu não desejo colonizar o pensamento alheio.
Existe um ser no universo
mitológico eslavo chamado Koščej (Кощей), ou dentro do que seria uma
transliteração (talvez) aceitável, Koshchey. Ele é conhecido por ser
imortal, devido ao fato de sua “alma” estar guardada no buraco de uma agulha
que está dentro de um ovo negro na barriga de uma pata, que está dentro de uma
lebre, que está dentro de uma bolsa de couro, que está dentro de uma caixa de
ferro, ouro ou pedras preciosas, que por fim está enterrada aos pés de um
grande carvalho que se ergue na ilha de Buyan, no meio do oceano. Somente
navegando até a ilha, desenterrando a caixa, abrindo-a e abrindo a bolsa,
matando a lebre e retirando de dentro da barriga da pata o ovo, para então dele
extrair a agulha onde se esconde a “alma” é que Koščej poderia ser assassinado.
Essa história tem muitas implicações folclóricas e obviamente Koščej não é
indestrutível, porém ouvir a menção a ele me fez rememorar que a parte de nós
que é verdadeiramente eterna é incapaz de morrer, porque faz parte da
Quintessência e se encontra muito além da agência do Tempo e seu costume
mórbido de fazer as coisas definharem e morrerem – para assim se transformarem
em outras coisas, igualmente efêmeras.
Koshchey - Viktor Vasnetsov (1926)
O Sagrado Coração, o Espírito
Imortal ou qualquer outro nome que se queira dar, é infinito, imperturbável e incompreensível
em termos racionais – por isso o ato de tornar o seu coração um coração crístico
na trajetória de “santificação” cristã é descrito como um ato de amor ao invés
de razão, e, para alguns, um trabalho de intelecto. Contudo, o Espírito
Imortal experimenta a realidade manifesta através de outras formas do ser,
através de alma, corpos, e diferentes
níveis de manifestação, cada qual com sua parcela de consciência própria que
tem menos haver com aquilo que entendemos como a nossa mente consciente do que
gostaríamos. Essa própria mente consciente, ou ao menos noventa e nove por
cento dela, é fruto de nossas partes manifestas, falíveis e mortais. Pressupor
que a trajetória de nosso nível ordinário de percepção para a visão da vida
eterna seja linear e sem rupturas e reorganizações bruscas no “eu” é uma grande
inocência. Confortável inocência, que como todas as coisas ingênuas raramente
se aproxima da verdade.
É para a construção de uma
integração que faça sentido entre o “eu” ordinário e o Espírito Imortal
que existem os caminhos iniciáticos, e dentre eles a ovelha negra chamada
bruxaria, esse caminho que oscila entre opostos abrasivos e muitas vezes
desconfortáveis. Forja de caráter, o iniciado malhado como ferro, caminhos do
dia e da noite, da direita e da esquerda etc e tal. Sem essas oscilações é fácil
esquecer que existe um limite entre o “eu” profano e o Espírito Verdadeiro.
Esquecer que esse limite precisa ser rompido com cautela para que ambos se
tornem uma só coisa, e aí sim, pela sabedoria que o dito Espírito já possui, o “eu”
lazarento da vida comum possa se enobrecer ao ponto de estar ciente do que é a
Eternidade e tomar parte nela. Na bruxaria há diversas coisas que nos lembram
desse incômodo limite – dessa Vagina Cósmica que pode tanto parir novos deuses
imortais quanto por a dose de Espírito que nos habita em reciclagem enquanto descarta
nosso “eu” como um aborto – mas nem sempre estamos atentos a elas. E uma dessas
coisas que nos relembra existe com muito destaque nas bruxarias tradicionais
que usufruem de amálgamas com o catolicismo folclórico: a Quaresma.
Esse período é declarado pela
Igreja Católica como um período de resguardo espiritual e reflexão, que
representa os quarenta dias em que Cristo esteve no deserto e foi tentado. É
também a preparação para a Semana Santa e para a Páscoa, festa da Ressurreição.
Já na bruxaria seus significados tendem a ser um pouco mais sombrios. Enquanto
escrevo isso, numa terça-feira de Carnaval, a Quarta-Feira de Cinzas bate à
porta no calendário dizendo que o é chegado o tempo, e observo os ramos que
serão queimados em oferta.
A Quaresma começa amanhã, mas
já faço amplas reflexões sobre algumas coisas. De fato, esse ano tem sido de
ressurgência após os fogos da transformação. Vemos os laços que se reafirmaram nos
últimos tempos sendo mantidos nas horas cruciais, e os que se soltaram seguindo
rumo a amarrações outras (tomara que boas, para os bons). A festa da carne
alimenta os deuses e demônios e seguimos em sinuosas vias, entre a necessidade
de resguardos respeitosos – em reverência aos sacrifícios e costumes que se faziam
no passado e ao que se faz hoje, entre espíritos e encarnados – e o fazer
do que deve ser feito, por vezes da meia-noite às 3h da manhã.
Os últimos tempos, tal como é o
esperado em previsões (e no que tange a mim como consequência de iniciações
recebidas e escolhas feitas) os últimos tempos foram agitados de uma forma construtiva,
mas abriram uma janela pela qual estive contemplando a mortalidade de todos nós.
É impossível não pensar, ante a tudo que se desvela em nós e nos outros conforme
avança a vida, nos panos que cobrem as imagens durante o período quaresmal, partes
do ato chamado velatio, na cruz na qual morreu o Nazareno e, em especial
evidência pelos motivos desse texto, na Coroa de Espinhos. Especialmente para
um iniciado, essa imagem exerce especial impacto.
Enquanto os véus roxos tampam o
olhar dos santos, se aproxima a Sexta-Feira da Paixão em que o próprio Deus
feito carne se submete à morte dessa mesma carne, apenas para relembrar seus
seguidores que a parte eterna pode permanecer vivendo depois disso. Que é
possível levar o “eu” coitado de nossa existência mundana para esse depois, é o
que os cristãos chamam de boa-nova e o que talvez possamos chamar na bruxaria
de algo como o objetivo último do caminho tradicional. Tal como escrevo no meu ensaio
O Verdadeiro Evangelho das Bruxas, que em breve será publicado na
antologia A Arte Inominada, quem coloca essa “boa-nova” a diante para as
bruxas – ao menos na perspectiva mítica do Gênesis – é a serpente, que
transmite a Eva, que juntos transmitem a Caim, e assim por diante.
A Morte, ou O Corvo - Paul Gustave Doré (1884)
É dito na tradição que Caim – em
italiano Caino e originalmente Qáyin (קַיִן) –
plantou o espinheiro que foi usado na confecção da Coroa de Cristo. Por tal
feito, ele foi condenado pela Rainha do Céu a ficar todas as noites preso na
Lua, atado a um arbusto do mesmo espinheiro que plantara, para sentir as dores dos
espinhos cravados em sua carne. Nisso reside muito entendimento, e o aspecto
principal dessa sabedoria é que precisamos do espinho tanto quanto precisamos
da Rosa. Talvez mais. Pois se não fosse por Caim, como haveria de se cumprir a
profecia do Cristo transpassado, e como haveria de se chegar à reunião das
bruxas, além dos arbustos?
A Rosa Mystica – não por
acaso um título da Madonna – só pode ser obtida ao atravessar os espinheiros
que a cercam, e ao receber deles a quantidade de lacerações que a astúcia ou a
ingenuidade da bruxa ditar. Nesse sentido, falo da necessidade do espinho me servindo
das parábolas e metáforas que mencionei em meu texto sobre a Rosa-Cruz. Para
chegarmos ao Eterno que está no epicentro de nós – a Rosa – temos de atravessar
os Espinheiros da mortalidade, da dor, de todas as imposições que o Tempo
coloca sobre as coisas vivas. Esse atravessar não é simplesmente viver a experiência,
pois isso seria continuar rodando em círculos entre os espinheiros até
evanescer, mas sim alçar uma transcendência a partir do real, atravessar a vida
de modo a romper os limites entre o “eu” e o Espírito, é o que permite que a
hora da morte seja um salto para o centro da roda, para a Rosa.
Não me lembro ao certo onde li
as palavras “o verdadeiro iniciado se conhece na hora da morte”, mas concordo
com elas. Mais do que devido aos meus estudos, concordo porque vi acontecer
o salto diante dos meus olhos, e meus iniciados e aprendizes devem se
recordar disto. Se o trabalho iniciático é um caminho que busca a deificação, a
união com o Eterno, o que se espera de alguém que fez esse trabalho bem-feito é
ter uma boa morte, não necessariamente pacífica ou indolor, e não
necessariamente tardia, mas entregue e espiritualmente lúcida, no sentido da
palavra lucidez que está mais próximo de Lucifer. É a morte que permita a
continuidade do trabalho, até que já não seja mais possível morrer.
É aqui que dou o nó desse
ponto. Só o Espírito Verdadeiro é Imortal.
Só a alma que se preenche de
seu Amor, em apoteosis, efetivamente alcança esse centro e toma parte de
tal Imortalidade – que para além de um sentido temporal, tem um sentido de
propósito e unificação. Em menos palavras, só realmente transcende por completo
a provação plantada por Caim a alma que se deifica.
Só ultrapassa totalmente a
morte e, portanto, a compreende por inteiro, aquele que morre como mortal e
renasce imortal, divino. Só entende a morte quem rompeu o limite entre o “eu” e
o Espírito Imortal, e pode ver as coisas a partir do eixo da existência, do Axis
Mundi. Quem não trabalha a ruptura deste limite, se não for agraciado pela
dádiva dos que o fizeram, evanescerá e aí sim, em não-consciência absoluta, jamais
conhecerá o que realmente é a Morte. Pois ela é uma Dama que a todos abraça na
transição da carne para a Mansão dos Mortos, mas aqueles que se abandonam para encontrá-la
uma segunda vez jamais saberão o que existe além.
Esse texto pode parecer
nebuloso, contraditório ou simplesmente sem sentido, mas para quem viu coisas
similares às que vi em minha vida, talvez algo dele ressoe e te convide a
também destrinchar este memento mori ao longo do tempo de Quaresma,
independentemente de qual seja sua linguagem religiosa preferida. Aprendi que a
contemplação de pequenas coisas como uma flor podem ser caminhos para chegar a
Deus, tal como a contemplação de grandes e terríveis coisas, como a Morte.
Das coisas que aprendi com quem
teve uma boa morte, a mais preciosa é que não é necessário gerir grandes
elocubrações para encontrar a Rosa e saber onde buscá-la.
Literalmente, basta olhar – de verdade
– para o jardim.
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