terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Koščej, Qáyin, Quaresma e outros pensamentos

Por Draco Stellamare



Vanitas

Embora os mortos possam eventualmente ter uma clara ideia de como foi sua transição para o além-túmulo, eu cheguei à conclusão de que só é capaz de entender a morte aquele que é imortal. Pode parecer contraditório, e da maioria dos pontos de vista certamente é, mas tenho boas razões para concluir isso, e deixarei a cargo do leitor pensar o que quiser a esse respeito. Ao contrário do que pode parecer quando falamos de alguém que tem o péssimo hábito de debater suas convicções, eu não desejo colonizar o pensamento alheio.

Existe um ser no universo mitológico eslavo chamado Koščej (Кощей), ou dentro do que seria uma transliteração (talvez) aceitável, Koshchey. Ele é conhecido por ser imortal, devido ao fato de sua “alma” estar guardada no buraco de uma agulha que está dentro de um ovo negro na barriga de uma pata, que está dentro de uma lebre, que está dentro de uma bolsa de couro, que está dentro de uma caixa de ferro, ouro ou pedras preciosas, que por fim está enterrada aos pés de um grande carvalho que se ergue na ilha de Buyan, no meio do oceano. Somente navegando até a ilha, desenterrando a caixa, abrindo-a e abrindo a bolsa, matando a lebre e retirando de dentro da barriga da pata o ovo, para então dele extrair a agulha onde se esconde a “alma” é que Koščej poderia ser assassinado. Essa história tem muitas implicações folclóricas e obviamente Koščej não é indestrutível, porém ouvir a menção a ele me fez rememorar que a parte de nós que é verdadeiramente eterna é incapaz de morrer, porque faz parte da Quintessência e se encontra muito além da agência do Tempo e seu costume mórbido de fazer as coisas definharem e morrerem – para assim se transformarem em outras coisas, igualmente efêmeras.



Koshchey - Viktor Vasnetsov (1926)

O Sagrado Coração, o Espírito Imortal ou qualquer outro nome que se queira dar, é infinito, imperturbável e incompreensível em termos racionais – por isso o ato de tornar o seu coração um coração crístico na trajetória de “santificação” cristã é descrito como um ato de amor ao invés de razão, e, para alguns, um trabalho de intelecto. Contudo, o Espírito Imortal experimenta a realidade manifesta através de outras formas do ser, através de alma, corpos,    e diferentes níveis de manifestação, cada qual com sua parcela de consciência própria que tem menos haver com aquilo que entendemos como a nossa mente consciente do que gostaríamos. Essa própria mente consciente, ou ao menos noventa e nove por cento dela, é fruto de nossas partes manifestas, falíveis e mortais. Pressupor que a trajetória de nosso nível ordinário de percepção para a visão da vida eterna seja linear e sem rupturas e reorganizações bruscas no “eu” é uma grande inocência. Confortável inocência, que como todas as coisas ingênuas raramente se aproxima da verdade.

É para a construção de uma integração que faça sentido entre o “eu” ordinário e o Espírito Imortal que existem os caminhos iniciáticos, e dentre eles a ovelha negra chamada bruxaria, esse caminho que oscila entre opostos abrasivos e muitas vezes desconfortáveis. Forja de caráter, o iniciado malhado como ferro, caminhos do dia e da noite, da direita e da esquerda etc e tal. Sem essas oscilações é fácil esquecer que existe um limite entre o “eu” profano e o Espírito Verdadeiro. Esquecer que esse limite precisa ser rompido com cautela para que ambos se tornem uma só coisa, e aí sim, pela sabedoria que o dito Espírito já possui, o “eu” lazarento da vida comum possa se enobrecer ao ponto de estar ciente do que é a Eternidade e tomar parte nela. Na bruxaria há diversas coisas que nos lembram desse incômodo limite – dessa Vagina Cósmica que pode tanto parir novos deuses imortais quanto por a dose de Espírito que nos habita em reciclagem enquanto descarta nosso “eu” como um aborto – mas nem sempre estamos atentos a elas. E uma dessas coisas que nos relembra existe com muito destaque nas bruxarias tradicionais que usufruem de amálgamas com o catolicismo folclórico: a Quaresma.

Esse período é declarado pela Igreja Católica como um período de resguardo espiritual e reflexão, que representa os quarenta dias em que Cristo esteve no deserto e foi tentado. É também a preparação para a Semana Santa e para a Páscoa, festa da Ressurreição. Já na bruxaria seus significados tendem a ser um pouco mais sombrios. Enquanto escrevo isso, numa terça-feira de Carnaval, a Quarta-Feira de Cinzas bate à porta no calendário dizendo que o é chegado o tempo, e observo os ramos que serão queimados em oferta.

A Quaresma começa amanhã, mas já faço amplas reflexões sobre algumas coisas. De fato, esse ano tem sido de ressurgência após os fogos da transformação. Vemos os laços que se reafirmaram nos últimos tempos sendo mantidos nas horas cruciais, e os que se soltaram seguindo rumo a amarrações outras (tomara que boas, para os bons). A festa da carne alimenta os deuses e demônios e seguimos em sinuosas vias, entre a necessidade de resguardos respeitosos – em reverência aos sacrifícios e costumes que se faziam no passado e ao que se faz hoje, entre espíritos e encarnados – e o fazer do que deve ser feito, por vezes da meia-noite às 3h da manhã.

Os últimos tempos, tal como é o esperado em previsões (e no que tange a mim como consequência de iniciações recebidas e escolhas feitas) os últimos tempos foram agitados de uma forma construtiva, mas abriram uma janela pela qual estive contemplando a mortalidade de todos nós. É impossível não pensar, ante a tudo que se desvela em nós e nos outros conforme avança a vida, nos panos que cobrem as imagens durante o período quaresmal, partes do ato chamado velatio, na cruz na qual morreu o Nazareno e, em especial evidência pelos motivos desse texto, na Coroa de Espinhos. Especialmente para um iniciado, essa imagem exerce especial impacto.

Enquanto os véus roxos tampam o olhar dos santos, se aproxima a Sexta-Feira da Paixão em que o próprio Deus feito carne se submete à morte dessa mesma carne, apenas para relembrar seus seguidores que a parte eterna pode permanecer vivendo depois disso. Que é possível levar o “eu” coitado de nossa existência mundana para esse depois, é o que os cristãos chamam de boa-nova e o que talvez possamos chamar na bruxaria de algo como o objetivo último do caminho tradicional. Tal como escrevo no meu ensaio O Verdadeiro Evangelho das Bruxas, que em breve será publicado na antologia A Arte Inominada, quem coloca essa “boa-nova” a diante para as bruxas – ao menos na perspectiva mítica do Gênesis – é a serpente, que transmite a Eva, que juntos transmitem a Caim, e assim por diante.



A Morte, ou O Corvo - Paul Gustave Doré (1884)

É dito na tradição que Caim – em italiano Caino e originalmente Qáyin (קַיִן) – plantou o espinheiro que foi usado na confecção da Coroa de Cristo. Por tal feito, ele foi condenado pela Rainha do Céu a ficar todas as noites preso na Lua, atado a um arbusto do mesmo espinheiro que plantara, para sentir as dores dos espinhos cravados em sua carne. Nisso reside muito entendimento, e o aspecto principal dessa sabedoria é que precisamos do espinho tanto quanto precisamos da Rosa. Talvez mais. Pois se não fosse por Caim, como haveria de se cumprir a profecia do Cristo transpassado, e como haveria de se chegar à reunião das bruxas, além dos arbustos?

A Rosa Mystica – não por acaso um título da Madonna – só pode ser obtida ao atravessar os espinheiros que a cercam, e ao receber deles a quantidade de lacerações que a astúcia ou a ingenuidade da bruxa ditar. Nesse sentido, falo da necessidade do espinho me servindo das parábolas e metáforas que mencionei em meu texto sobre a Rosa-Cruz. Para chegarmos ao Eterno que está no epicentro de nós – a Rosa – temos de atravessar os Espinheiros da mortalidade, da dor, de todas as imposições que o Tempo coloca sobre as coisas vivas. Esse atravessar não é simplesmente viver a experiência, pois isso seria continuar rodando em círculos entre os espinheiros até evanescer, mas sim alçar uma transcendência a partir do real, atravessar a vida de modo a romper os limites entre o “eu” e o Espírito, é o que permite que a hora da morte seja um salto para o centro da roda, para a Rosa.

Não me lembro ao certo onde li as palavras “o verdadeiro iniciado se conhece na hora da morte”, mas concordo com elas. Mais do que devido aos meus estudos, concordo porque vi acontecer o salto diante dos meus olhos, e meus iniciados e aprendizes devem se recordar disto. Se o trabalho iniciático é um caminho que busca a deificação, a união com o Eterno, o que se espera de alguém que fez esse trabalho bem-feito é ter uma boa morte, não necessariamente pacífica ou indolor, e não necessariamente tardia, mas entregue e espiritualmente lúcida, no sentido da palavra lucidez que está mais próximo de Lucifer. É a morte que permita a continuidade do trabalho, até que já não seja mais possível morrer.

É aqui que dou o nó desse ponto. Só o Espírito Verdadeiro é Imortal.

Só a alma que se preenche de seu Amor, em apoteosis, efetivamente alcança esse centro e toma parte de tal Imortalidade – que para além de um sentido temporal, tem um sentido de propósito e unificação. Em menos palavras, só realmente transcende por completo a provação plantada por Caim a alma que se deifica.

Só ultrapassa totalmente a morte e, portanto, a compreende por inteiro, aquele que morre como mortal e renasce imortal, divino. Só entende a morte quem rompeu o limite entre o “eu” e o Espírito Imortal, e pode ver as coisas a partir do eixo da existência, do Axis Mundi. Quem não trabalha a ruptura deste limite, se não for agraciado pela dádiva dos que o fizeram, evanescerá e aí sim, em não-consciência absoluta, jamais conhecerá o que realmente é a Morte. Pois ela é uma Dama que a todos abraça na transição da carne para a Mansão dos Mortos, mas aqueles que se abandonam para encontrá-la uma segunda vez jamais saberão o que existe além.

Esse texto pode parecer nebuloso, contraditório ou simplesmente sem sentido, mas para quem viu coisas similares às que vi em minha vida, talvez algo dele ressoe e te convide a também destrinchar este memento mori ao longo do tempo de Quaresma, independentemente de qual seja sua linguagem religiosa preferida. Aprendi que a contemplação de pequenas coisas como uma flor podem ser caminhos para chegar a Deus, tal como a contemplação de grandes e terríveis coisas, como a Morte.

Das coisas que aprendi com quem teve uma boa morte, a mais preciosa é que não é necessário gerir grandes elocubrações para encontrar a Rosa e saber onde buscá-la.

Literalmente, basta olhar – de verdade – para o jardim.




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