sexta-feira, 3 de abril de 2026

STRIX: A figura tradicional das bruxas primordiais e porque elas são perigosas

 Por Draco Stellamare



Il Barbagianni - Valentine Cameron Prinsep (1838-1904)

Começo a escrita deste texto proclamando o meu mais absoluto respeito e temor reverencial àquelas que são a primeira corporificação manifesta do útero do qual tudo surgiu, Senhoras dos pássaros e da noite, que se assentam sobre a copa da Figueira e assistem aos encontros e desencontros da vida terrena. Que minhas palavras escritas sejam condizentes com a dignidade daquelas que são proferidas pela minha boca, e daquelas que ecoam nos meus pensamentos, oriundas de meu coração.

Muito se fala sobre a palavra strix como a raiz mais provável da própria terminologia strega (bruxa, em italiano), e variantes como strie (friulana centro-oriental) e striga (em dialeto liventino). Contudo, noto que há pouca clareza sobre o significado dessa palavra e o que ela veio a designar a partir de sua evolução em diferentes tradições mediterrâneas. Parte dessa falta de clareza, partilhada por outras vertentes, induz os piores problemas que as pessoas conseguem para si mesmas quando cruzam o caminho da bruxaria e agem com despreparo, intencional ou acidental. A razão deste texto, escrito após eu ter de lidar mais vezes do que gostaria com a pacificação das “avós da criação” visando a saúde comunitária, é permitir que informações seguras e responsáveis cheguem a quem não deseja ser parte do problema.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Koščej, Qáyin, Quaresma e outros pensamentos

Por Draco Stellamare



Vanitas

Embora os mortos possam eventualmente ter uma clara ideia de como foi sua transição para o além-túmulo, eu cheguei à conclusão de que só é capaz de entender a morte aquele que é imortal. Pode parecer contraditório, e da maioria dos pontos de vista certamente é, mas tenho boas razões para concluir isso, e deixarei a cargo do leitor pensar o que quiser a esse respeito. Ao contrário do que pode parecer quando falamos de alguém que tem o péssimo hábito de debater suas convicções, eu não desejo colonizar o pensamento alheio.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

A ROSA E A ESTRELA: A relação do movimento Rosa-Cruz com a Tradição Stellamare

 Por Draco Stellamare

Este texto foi escrito originalmente como uma introdução a uma das seções de leituras passadas aos iniciados da CSM.

Esta versão pública foi devidamente editada com a retirada dos conteúdos internos.

 

Desenho de uma pessoa

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1. Virgem Maria no Hortus Conclusus – Atribuído a Matthias Grünewald (1480-1528)

 

O rosacrucianismo foi um movimento esotérico, místico e filosófico originado no início do século XVII na atual Alemanha, em um contexto social de tensões relacionadas à Reforma Protestante e a progressão das tendências que se condensariam no Iluminismo do século XVIII em diante. Muitas e diferentes vertentes desse movimento se desdobraram – na maioria das vezes sem relação direta com suas origens – nos séculos que se seguiram à sua exposição ao público, impactando outras organizações esotéricas do Ocidente, o ocultismo moderno e até mesmo algumas vertentes de bruxaria, como é o caso da nossa Tradição Stellamare que assimilou elementos do rosacrucianismo germano-austríaco e a própria Wicca Gardneriana, que foi forjada a partir das iniciações e vivências possibilitadas a Gerald Gardner no interior de uma irmandade rosa-cruz inglesa: a Crotona Fellowship. O presente texto tem a intenção de abordar o início desse movimento, sua essência e – mais especificamente – a cadeia de desdobramentos que leva esse esoterismo a se cruzar com a história da Tradição Stellamare e sua reorganização contemporânea.

terça-feira, 16 de dezembro de 2025

Os Significados Ocultos do Presépio nas Tradições Italianas

 Por Draco Stellamare



Presépio de minha casa neste ano, com as peças principais pintadas à mão.
Além deste participo da montagem de um que pertenceu à minha bisavó.

O presépio é uma das maiores representações religiosas da época de Natal, difundido no mundo todo. Levado como decoração por alguns, e por outros como um ato religioso, a ideia do presépio surgiu com São Francisco de Assis, que desejava elaborar uma reencenação do nascimento de Jesus. Com a ideia posta em prática, a encenação com atores reais em breve deu origem às reproduções em imagens esculpidas, primeiro nas casas dos nobres e mais abastados, e depois nas casas do povo em geral. Na cultura italiana e ítalo-diaspórica o presépio se mantém como um símbolo persistente de sazonalidade e devoção – um símbolo que, como outros símbolos religiosos, adquire significados subliminares nas tradições de bruxaria e magia folclórica da península e dos locais de diáspora. Neste texto vou discorrer brevemente sobre alguns desses significados dentro de meu conhecimento.

sexta-feira, 17 de outubro de 2025

A Formação da Tradição Axis Mundi Clan

Por Draco Stellamare a.k.a Šarkan

Assim como existem diferentes trajetórias na transmissão dos saberes e iniciações, há diferentes métodos de associação nas muitas bruxarias tradicionais contemporâneas. Uma das formas é a de Irmandade, um clã unido por votos e regras específicas, entremeadas ao seu feitiço fundador, e que normalmente permitem uma quantia maior de membros (quando somados os “internos” e os “externos”) do que a estrutura normalmente mais conhecida e comentada de Covine, Coven ou Congrega. Um dos exemplos de meu conhecimento – e participação – é a Axis Mundi Clan ou simplesmente Axis Mundi, dirigida por uma de minhas iniciadoras.




terça-feira, 14 de outubro de 2025

ALQUIMIA E INICIAÇÃO

Por Draco Stellamare

Este texto foi escrito originalmente para os membros da Congrega Stella Maris, e integra o conteúdo de estudos obrigatórios dos aprendizes.

Esta versão pública foi devidamente editada com a retirada dos conteúdos internos.

 

Desenho de um livro

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A alquimia é definida por muitos autores – sobretudo em âmbito historiográfico – como uma “proto-química”, em partes representando as ideias basilares que evoluíram para o entendimento da química moderna e em partes composta de teorias que hoje são consideradas ultrapassadas do ponto de vista científico. No entanto, falta ao olhar moderno – para além da compreensão de que toda arte se circunscreve às possibilidades de seu tempo – o entendimento de que muito além da parte materialista e laboratorial a alquimia é uma arte metafísica, psíquica e espiritual, num sentido iniciático. Os principais objetivos da alquimia eram a transformação do chumbo (e outros metais) em ouro, a criação do homunculus (o homem artificial) e a preparação da Pedra Filosofal, um insumo que possibilitaria o usuário a adquirir vida eterna, poder e cura para todas as mazelas. Tais objetivos considerados pelo cientista moderno como fantasias sobrepujadas possuem uma dimensão mistérica que continua muito relevante para os adeptos do esoterismo tradicional. Em nossa arte bruxa, os princípios alquímicos se relacionam estreitamente a diversas de nossas simbologias, ritos e mistérios. Sobretudo no curso do processo iniciático, considerando as influências e amálgamas do rosacrucianismo antigo e outros mistérios obscuros em nossa tradição, a sabedoria alquímica nos é relevante para compreender as fases pelas quais somos conduzidos no curso da trajetória espiritual que objetiva a deificação. Esse texto busca elucidar essa perspectiva.

sexta-feira, 25 de julho de 2025

CHRISTOPHORUS: De Lupercus e Hermanúbis ao santo cinocéfalo

Por Draco Stellamare, a.k.a Hercle Lupino

A narrativa mítica das tradições não nasce a partir do nada. Ela é o resultado de um longo processo de trocas, amálgamas, transliterações e traduções que ocorrem com os simbolismos mágico-religiosos ao longo da história. Um perfeito exemplo disso é a figura de São Cristóvão em sua representação cinocéfala (com cabeça de cão), amplamente perseguida nos últimos séculos, mas ainda sobrevivente no folclore e nas tradições de bruxaria europeias e diaspóricas. Essa figura, que corrobora diversos e complementares mistérios, relaciona-se a representações caninas, lupinas e cinocefálicas anteriores ao cristianismo, como as figuras do deus lobo italiota que originou o romano Lupercus – ora representado com cabeça de lobo, ora como fauno –, os cães da horda de Hécate ou Diana Trivia, e o sincrético Hermanúbis do Egito helenizado.



Os cultos do cão e do lobo na península itálica são muito antigos, e já eram praticados por vários dos povos que habitaram o local antes da expansão política romana, como os lígures e os sabinos. Inicialmente, a divindade loba (ancestral do cão) não era muito diferente da Mãe-Ursa dos povos do sul: caracterizava-se pelo totemismo e por sintetizar uma deidade clânica, cosmologicamente central na visão de mundo do povo que a cultuava, e dotada de características tanto primordiais quanto apotropaicas. Com as movimentações entre esses diferentes povos e a assunção de um modelo religioso politeísta curvado aos centros de poder político e social que surgiam, tais divindades clânicas e locais passam a ser inseridas numa cosmologia onde adquirem um papel secundário ou derivativo em relação aos deuses principais dos dominadores políticos. É assim, resumidamente, que a figura primordial e primitiva do deus lobo – tanto em aspecto masculino quanto feminino – se desdobra em Lupercus (um deus que passa a ser considerado filho de Marte em alguns contextos, ou uma face de Sabazios, Dis Pater, Februo ou Fauno em outros) e as figuras lupínicas matriarcais como a heroína Valeria Luperca e a própria Lupa Capitolina, que nutriu Romulo e Remo.