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terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Koščej, Qáyin, Quaresma e outros pensamentos

Por Draco Stellamare



Vanitas

Embora os mortos possam eventualmente ter uma clara ideia de como foi sua transição para o além-túmulo, eu cheguei à conclusão de que só é capaz de entender a morte aquele que é imortal. Pode parecer contraditório, e da maioria dos pontos de vista certamente é, mas tenho boas razões para concluir isso, e deixarei a cargo do leitor pensar o que quiser a esse respeito. Ao contrário do que pode parecer quando falamos de alguém que tem o péssimo hábito de debater suas convicções, eu não desejo colonizar o pensamento alheio.

quinta-feira, 14 de dezembro de 2023

Stregoneria Liventina in Terra Brasilis: Um olhar sobre a minha tradição

 Por Draco Stellamare

              Tenho escrito muitas coisas desde que comecei este blog, da a bruxaria alemã nos Estados Unidos até diversas nuances da stregoneria italiana, que como já devem saber é mais plural do que se possa imaginar. Contudo, não escrevi até hoje sobre a minha própria tradição e como ela funciona, e percebo que isso gera expectativas em alguns dos meus leitores. Vocês têm culto aos deuses pagãos? Você tem um coven? Como posso me iniciar na sua tradição? Entre outras, são perguntas que aparecem de vez em quando por meio das redes sociais sempre que eu mostro alguma coisa que pertença a nossas práticas. Essa postagem é uma tardia explicação sobre a tradição que mantenho, suas origens, como ela chegou até aqui e para onde eu acredito que ela esteja caminhando. Não vou revelar coisas que considero íntimas, excessivamente polêmicas ou secretas, e nem vou me alongar demais nas explicações. Mas espero que gostem mesmo assim e que algumas ansiedades sejam diminuídas através desse vislumbre da minha história que eu vos ofereço.



              Minha tradição – assim como a maior parte das tradições semelhantes que já tive o prazer de conhecer – é no todo um conjunto orgânico de diversos laços tradicionais. O que quero dizer com isso é que existem diversas práticas mágicas, conhecimentos, mitos e ancestralidades que se cruzaram no decorrer das suas transmissões de uma geração à outra. A sabedoria para lançar ou exorcizar o malocchio é um laço que é transmitido de uma pessoa à outra de forma linear, tal como a sabedoria para conjurar os mortos, a sabedoria para curar o “mau-jeito” etc. São diferentes linhagens, que ora convergem, ora se separam, e que têm origens que podem ser até mesmo longínquas umas das outras, considerando os ramos de nossa árvore ancestral. Algumas provêm dos meus antepassados que vieram do sul da Itália, outras estão fortemente enraizadas no nordeste italiano, e outras ainda foram adquiridas aqui, em solo brasileiro. Mas existe um fio condutor que eu compreendo como a principal de todas essas transmissões ancestrais, ao redor do qual todas as demais práticas se acomodam, e é esse o legame (laço) que eu pretendo abordar como a fonte e o denominador comum de nossa stregoneria.

quarta-feira, 28 de outubro de 2020

Quando a verdade se torna mentira

Texto originalmente publicado via Facebook

Um negócio que me chama atenção – e também me entristece – é a fanfarronice polarizada com relação a essa figura mitológica, quase próxima de uma fábula ou de uma lenda urbana, que é a tal da "bruxaria hereditária".

É uma fanfarronice em duas vias, diga-se de passagem.

quarta-feira, 12 de agosto de 2020

NEMORALIA: O antigo festival de Diana e sua transformação na Festa da Assunção de Maria

 

   O senso comum da bruxaria moderna, infelizmente, acredita numa ruptura total e absoluta das práticas pagãs com o advento da hegemonia do cristianismo romano. Ruptura esta, por sua vez, que culminaria na perda total das práticas mágicas do mundo politeísta, as quais só teriam ressurgimento possível com a Wicca de Gardner e outras vertentes neopagãs que vieram a florescer após o século XIX, entretanto, as tradições folclóricas e ancestrais demonstram – e são amparadas pela pesquisa acadêmica – que este não é o caso. O processo europeu de transição entre o politeísmo e o monoteísmo cristão foi, em muitos locais, um processo carregado de nuances, de readaptações e da ressignificação de práticas que se mantiveram preservadas, se não em magnitude e esplendor, ao menos em pragmatismo e essência, sob uma roupagem cristianizada.

 Um destes exemplos – e que é o meu favorito, tanto por estar intimamente ligado à história de meus antepassados quanto por dizer respeito à minha principal divindade de culto – é o festival de Diana Nemorensis (Diana Trivia) e sua subsequente transformação nas festas católicas de Santo Hipólito e da Assunção da Virgem Maria.


c. 1720, Autor desconhecido.

Diana e seu cão - Autor desconhecido, c.1720.

segunda-feira, 22 de junho de 2020

Sobre Fé e Crença


Fé não é a mesma coisa que crença.

Pode parecer estranho afirmar isso sendo que a maior parte das pessoas utiliza estas duas palavras como sinônimos, mas sob o meu ponto de vista elas representam coisas muito distintas.

A palavra “fé” vem de fides no latim e significa confiança, mesma raiz de “fiducia”. O ato da fé é um ato, portanto, de confiança. Já a palavra “crença” vem de credentia, no sentido de acreditar, dar crédito a alguém ou alguma coisa. E por mais que confiar e dar crédito tenham o mesmo sentido em determinados contextos, entendo que confiar é ligeiramente diferente de acreditar no que tange os mundos invisíveis da espiritualidade.