terça-feira, 5 de maio de 2026

O Arregaço Cognitivo de nossos Tempos

 Por Draco Stellamare



Vanitas contemporânea, propositalmente feita por IA.

Sou uma pessoa com dois grandes polos de vida pública. O primeiro é o trabalho de autor de artigos e livros – aliado à ponderada visibilidade que meu posto de Magister exige – que me faz em algum nível ser conhecido pelos leitores e membros mais atentos da comunidade ocultista. O segundo, por sua vez, é a minha atuação profissional no meio corporativo, onde encontro e dialogo com material escrito de diversos departamentos de grandes empresas. Em ambos os polos, venho enfrentando um assunto nauseante, incômodo, e verdadeiramente necessário de ser debatido. Trata-se de um fenômeno ocasionado pela acessibilidade crescente das tecnologias de Inteligência Artificial, e que resolvi chamar conforme o título desse texto de um verdadeiro arregaço cognitivo.

A originalidade e a transparência sempre foram conceitos plásticos, portanto, não é de se surpreender que com as facilidades de produção de conteúdo – para não dizer também roubo de propriedade intelectual – elas se tornem cada vez menos concretas.

Em épocas passadas, era usual atribuir a autoria de um grimório ou mesmo de livros abordando outros assuntos a grandes personalidades históricas, para aumentar o poder de convencimento da obra e até mesmo o seu valor comercial. Vemos isso na atribuição de autoria das Chaves de Salomão, do Livro de São Cipriano, do Quarto Livro de Agrippa e até no baralho chamado Petit Lenormand. Todas essas composições tiveram a autoria modelada de acordo com a necessidade de convencimento das pessoas, de vendas, ou ambas. Mas todas foram efetivamente produzidas por seres humanos com domínio do que faziam – ainda que inspiradas em determinados casos por algo sobre-humano.

Hoje, contudo, não é mais necessária disposição, talento, ou mesmo grande conhecimento de um assunto para produzir uma obra ou para gerar conteúdo sobre o tema. A disponibilidade de agentes de IA como o ChatGPT, o DeepSeek, Copilot e outros tantos, faz com que a rápida produção de conteúdo audiovisual, literário e até “artístico” esteja ao alcance de boa parte da população, sem limites relevantes.

Combinado aos “avanços” da economia global em que algoritmos e a construção de personas de sucesso nas redes sociais são os grandes fatores de resultado financeiro para vários setores, esse cenário gerou uma realidade complexa. Nesta realidade atual, cada vez mais pessoas tentam ganhar a vida através da internet, vendendo produtos, serviços, ou simplesmente lucrando no intermédio da divulgação de ideias e formação de opiniões. Por isso mesmo, cada vez mais pessoas recorrem às ferramentas de IA para lutar por espaço no mercado, gerando quantidades colossais de conteúdo sobre tudo que se possa imaginar.

Se antes para produzir posts informativos sobre algo era necessário – além do conhecimento do assunto – ter algum senso estético e habilidade de idealizar, escrever ou até ilustrar, hoje nada disso – nem o conhecimento básico do assunto – é um requisito. Na seara da comunidade ocultista isso é flagrante e alucinado. Uma avalanche de posts, stories e reels superaquece o feed, e a grande maioria tem os típicos e nauseantes traços das IAs...

“Tal coisa não é isso, é aquilo”, quinze vezes no mesmo texto.

“Porque não é só sobre tal coisa, é também sobre não sei o que”, perto da conclusão.

Itens enumerados em tópicos por linha:

“Pois é sobre isso.

E aquilo.

E aquilo outro.

E não sei o quê”.

Adjetivações excessivas, repetitivas, e frases inteiras que soam muito poéticas, mas, em fria análise semântica, não querem dizer absolutamente nada.

Em termos sinestésicos isso é, como eu disse, nauseante. Me faz querer abandonar a leitura tão logo percebo o padrãozinho se repetindo. Mas o pior de tudo está no conteúdo que é comunicado por trás dos fru-frus, metáforas vazias e listas simplificadas. Num primeiro caso, é o fato de que esse conteúdo se mostra nulo, no sentido de que as ideias realmente não existem – e o post é só uma ruminação de fragmentos de outras fontes, organizada pela IA para aparentar dizer alguma coisa sem efetivamente comunicar nada de substancial. Nada de relevante.

Outras vezes, o conteúdo até comunica algo concreto, porém errado.

Sei que nessa era de pós-verdade o certo e o errado são discutíveis e fatos são relativizados conforme a narrativa mais conveniente. Porém existe um limiar mínimo no discernimento humano no qual uma informação propagada passa a ser desinformação. No nível mais básico, é desinformação eu dizer a vocês que o céu é verde, que o Brasil foi colônia da França ou que o nazifascismo é um movimento político de esquerda. Dizer que “havia candomblé na África”, que “a wicca é a religião pré-histórica” e coisas do gênero caem exatamente na mesma categoria. É sobre esse nível de desinformação que falo, porém grande parte dela chega aos leitores de forma imperceptível por não estar em detalhes flagrantes ou notoriamente conhecidos. Chega como um veneno inoculado a doses curtas.

Às vezes isso vem por conta de desinformação de quem projetou o conteúdo (no caso o prompt). Outras vezes, a sucessiva produção de conteúdos pela IA, gerados a partir de mais conteúdo de IA, progressivamente, gera alucinações cada vez piores. A Inteligência Artificial pode “delirar”, criar o que não existe (como referências acadêmicas inventadas), recusar-se a assimilar o que é real, e tende (como um espelho posto na frente do outro) a replicar um discurso dirigido a ela de forma amplificada que progride até torná-lo cada vez mais descolado da realidade. Não à toa um experimento que colocou agentes de IA para interagir entre si em ambiente isolado terminou com os programas criando cultos extremistas e vomitando todo tipo de insanidade hostil e preconceituosa. Num sistema fechado a entropia é sempre maior, como diz a segunda lei da termodinâmica.

O uso das IAs tem feito com que a desinformação se propague em níveis assustadores, retroalimentando todo tipo de porcaria que desejaríamos que não ganhasse espaço em nossa sociedade. Ela é uma das sementes de tendências malignas que estão ressuscitando e ganhando espaço, como antivacina, terraplanismo, nazifascismo, redpill etc. Especificamente no “nicho ocultista”, a desinformação é a força motriz principal erosão do conhecimento coletivamente circulante em nossas comunidades. A partir da erosão desse conhecimento “comum”, podem prosperar as maiores aberrações possíveis – as tradições inventadas sem a menor preocupação em fingir coerência, os purismos racistas, as loucuras pós-modernas elevadas à máxima potência (como já se observa no TikTok) entre outras.

O que vemos é um mundo digital onde todo mundo produz conteúdo, onde a quantidade de conteúdo produzido sobre um determinado assunto é gigantesca e cresce exponencialmente, e onde a grande maioria dessa produção está se calçando em bases movediças, incertas ou no caso das alucinações de IA, delirantes.

E para além do microuniverso do feed do Instagram o problema também se enraíza no meio editorial.

Recentemente recebi um livro digital com temática de bruxaria que me chamou atenção por algumas de suas citações, compartilhadas por um amigo. Ao ler a “obra”, estranhei algumas atribuições feitas pelo autor ao texto de um grimório ítalo-francês que conheço como a palma de minha mão. Fui checar se essas citações não haviam sido retiradas de alguma versão expandida na contemporaneidade ou por alguma obra moderna que levasse o mesmo título, mas não. Eram citações irreais e que chegavam às raias do ridículo. Progredindo na leitura, identifiquei padrões do texto construído por IA e mais citações delirantes e desinformações. Tive de admitir, com amargor na boca, que perdi meu tempo lendo um livro gerado por IA, construído a partir de um conhecimento de base que era tão consistente quanto geleia.

O mais aterrorizante não foi a audácia do “autor” em vender como sua uma obra produzida daquele modo. Isso é esperado. A corrupção é inerente ao ser humano e onde tiver espaço de florescer, ela florescerá.

O que me deixou verdadeiramente assustado foi a quantidade mínima de leitores capazes de perceber a fraude, e o quanto as ideias alucinadas propostas por aquele conteúdo ecoaram longe, se tornando “verdades” para várias pessoas e desconstruindo indevidamente conhecimentos reais, concretos – e até manchando a honra de quem trabalhou no soerguimento de tais saberes no passado.

O problema não é exclusivo da seara da bruxaria e ocultismo, porque no outro polo de vida pública de minha rotina, o meio corporativo, a situação é igualmente deprimente. Desde contratos importantes, comunicados, materiais empresariais e até pareceres jurídicos estão surgindo maculados pelas inconsistências das IAs, e pelo seu jeitinho asqueroso de se expressar. De fato, elas estão substituindo muitas funções laborais, e tornando a rotina mais fácil. Mas a que custo?

Essa manhã tive um diálogo com o dono de uma empresa de projetos de engenharia. Ele me disse que ou o segmento se reinventa ou será “arregaçado” pela IA. Daí tirei o título deste artigo – o “arregaço” – pois me percebi antevendo a queda de prédios por um equívoco de um futuro agente de IA encarregado de elaborar projetos arquitetônicos. Será que o “chat” em questão irá dizer que quem apontar o erro “tem toda a razão”, e irá se comprometer em fazer melhor, depois que muitos corpos estiverem soterrados nos escombros?

A percepção, que se faz diagnóstico para o mundo como um todo, mas que neste texto direciono especificamente ao nosso meio, é a de que um verdadeiro “arregaço cognitivo” está ocorrendo. E digo “arregaço” com a má conotação do termo, ligada a confusão, destruição. Daquilo que se olha depois que a conturbação passa e se diz: “ficou arregaçado”.

Sem parâmetros tão visíveis do que é um conteúdo produzido de maneira responsável e o que é verborragia de IA, e motivadas pelas facilidades envolvidas a consumir conteúdos menores e mais rápidos, as pessoas estão fadando a si mesmas a ser parte do emburrecimento sistêmico da população. Estão cada vez mais abdicando de longas e profundas leituras, em prol de conteúdos rápidos, bonitos, e na maioria das vezes problemáticos. Em matéria de ocultismo e bruxaria, o que já era ruim tende a piorar, e muito, talvez num ponto difícil até de imaginar. Mais desinformação, em aumento progressivo, significa mais charlatanismo, mais práticas e ideias loucas, mais dificuldade de buscadores encontrarem seus caminhos de interesse de forma real e sadia – pois se há gente falando patifaria sobre tudo em quantidade torrencial, muito mais improvável será encontrar bons referenciais. Se antes havia dificuldade de acesso, hoje há mais do que nunca empecilhos ao bom discernimento.

Em face desse cenário, o que nos resta?

Sinto dizer que não sei. Mas tenho conjecturas!

Talvez seja tempo de abandonar o “rápido e fácil”, ao menos parcialmente. E nesse abandono recuperar algumas noções supostamente ultrapassadas, tanto de construção e troca de conhecimento, quanto de convivência e comunicação com os outros.

Minha geração foi marcada pelo descobrimento do quanto poderia ser bom estar em constante e imediato contato com amigos, colegas, prestadores de serviço, enfim, imerso na rede social e suas efervescências. Isso nos facilitou muitas coisas, e abriu espaço para amizades, relacionamentos, estudos e muitas outras coisas que antes a distância não permitiria ocorrerem. Mas rapidamente fomos chamados com a maturidade a ver o lado sombrio dessa rede de comunicação excessiva. Em verdade, ele já estava dando as caras bem antes da disseminação do acesso às IAs. Depressão e ansiedade recordes, alienação política crescente e o aumento expressivo de possibilidades de fraude e outros crimes já havia nos sinalizado que nem tudo são flores no meio digital. Com a entrada da IA, permanecer no mesmo ritmo de comunicação digital de antes – que já estava nos adoecendo – e continuar se informando por conteúdos rápidos – que já contribuíam para uma certa dose de desinformação – se tornou uma insanidade.

Talvez – e eu não tenho as respostas para isso – pessoas que buscam a sabedoria (como creio ser a maior parte dos que se consideram “bruxos” com real discernimento do que isso significa) precisem reconhecer que estamos num caminho de emburrecimento, de caos comunitário, e fadado à tragédia. Uma vez reconhecendo que o local para aprender em doses curtas e conhecer coisas novas pode não ser mais o Instagram, e que pode ser necessário abdicar de certos imediatismos em prol de conservar a sanidade, talvez seja o momento de muita gente se direcionar a formas mais saudáveis de estudo e de convivência.

Falo de reencontrar algum valor em livros de papel, cursos acadêmicos formais, e-mail aberto só uma vez ao dia, e dar preferência pela convivência presencial – ainda que esporádica – ao constante estado de disponibilidade comunicativa imposto pelas redes.

Falo de ir atrás de aprendizados com critério, procurar a comprovação de que tal livro realmente diz o que se atribuiu a ele em citação, de que a nível histórico uma coisa realmente ocorreu e quais os seus impactos e interpretações – da parte de quem tem subsídios e discernimento para interpretar.

Falo de deixar de rolar o feed, passar stories e se engajar em incessantes discussões no WhatsApp, e ir aprofundar o estado de suas práticas espirituais, adquirir o tipo de conhecimento que requer calma e constância para construir, ou simplesmente aproveitar um pouco mais de ócio – porque pasme, notas de silêncio também formam a música! Sem momentos de contemplação e calmaria não se pode realmente construir uma comunicação assertiva com o sagrado.

No passado de muitas tradições o conhecimento se construía ao longo de tempo, repetição, enfrentamentos de situações reais que a vida e as situações proporcionavam. Antigamente no que tange a bruxaria possuíamos menos acesso a material de estudo, menos contato com outras sendas, mas em compensação havia um ritmo de vida que permitia o sonhar, o respirar, e a elaboração natural de uma espiritualidade mais simples, porém em inúmeros aspectos mais sadia do que o frenesi virtual de hoje nos impõe.

Recentemente optei – por vários motivos – retroceder o ensino e vivência da Tradição Stellamare a modos mais antigos, lentos, discretos e “humanos” de fazer as coisas, muito por orientação dos próprios Antigos de minha casa, e por observação dos frutos colhidos a partir de intensas dinâmicas virtuais. Isso foi antes de minha reflexão sobre as IAs que expresso neste texto, mas vejo que os dois eventos são passos em uma mesma direção. Longe de achar que somos o parâmetro de qualidade para outras comunidades e sendas, penso que a seu modo cada uma terá de lidar com tomadas de decisão neste sentido.

No seio da bruxaria, talvez esteja chegando a hora na qual quem tem interesse na coisa real aceitar que encontrá-la, permanecer aprendendo com ela e não perdê-la, poderá requerer algumas renúncias que não estávamos preparados para fazer, e que num primeiro momento podem parecer conservadoras ou até “retrógradas”.

Este texto não é um ataque à IA, exatamente.

Como toda tecnologia, ela é uma ferramenta que pode ser muito construtiva se bem empregada. Ela pode ser uma excelente revisora de textos, sugestora de tópicos e estruturas, auxiliar de pesquisa, criadora de conteúdos de suporte a um objetivo principal etc. Mas quando o maior impacto que vemos dela no mundo é nos emburrecer progressivamente, substituir nossa capacidade de pensar e de criar, isso precisa ser debatido. Tanto quanto a dinâmica enlouquecedora de comunicação, disponibilidade 24/7 e senso de urgência instalados em nós através dos aplicativos de mensagem.

Lembro-me quando o ChatGPT começou a produzir imagens boas em estilos de artistas reais, e grande comoção tomou conta das redes... Diziam “eu sonhava com uma IA que lavasse a louça para que eu tivesse mais tempo para fazer minha arte, não com uma IA que fizesse minha arte para eu ter mais tempo de lavar a louça”. Dentro de uma série de outras problemáticas pertinentes, é esse o desafio que temos em mãos.

Precisamos escolher se iremos ceder nossa cognição – e em certa medida nossa espiritualidade – às novas invenções do capitalismo, ou se faremos de nossa escrita, de nossa convivência e de nossa espiritualidade bastiões de resistência humana e intelectual ao triste colapso cultural (e talvez civilizatório) que se anuncia.






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