Por Draco Stellamare
Vanitas contemporânea, propositalmente feita por IA. |
Sou uma pessoa com dois grandes polos de vida pública. O primeiro é o trabalho de autor de artigos e livros – aliado à ponderada visibilidade que meu posto de Magister exige – que me faz em algum nível ser conhecido pelos leitores e membros mais atentos da comunidade ocultista. O segundo, por sua vez, é a minha atuação profissional no meio corporativo, onde encontro e dialogo com material escrito de diversos departamentos de grandes empresas. Em ambos os polos, venho enfrentando um assunto nauseante, incômodo, e verdadeiramente necessário de ser debatido. Trata-se de um fenômeno ocasionado pela acessibilidade crescente das tecnologias de Inteligência Artificial, e que resolvi chamar conforme o título desse texto de um verdadeiro arregaço cognitivo.
A
originalidade e a transparência sempre foram conceitos plásticos, portanto, não
é de se surpreender que com as facilidades de produção de conteúdo – para não
dizer também roubo de propriedade intelectual – elas se tornem cada vez menos
concretas.
Em
épocas passadas, era usual atribuir a autoria de um grimório ou mesmo de livros
abordando outros assuntos a grandes personalidades históricas, para aumentar o
poder de convencimento da obra e até mesmo o seu valor comercial. Vemos isso na
atribuição de autoria das Chaves de Salomão, do Livro de São Cipriano,
do Quarto Livro de Agrippa e até no baralho chamado Petit Lenormand.
Todas essas composições tiveram a autoria modelada de acordo com a necessidade
de convencimento das pessoas, de vendas, ou ambas. Mas todas foram efetivamente
produzidas por seres humanos com domínio do que faziam – ainda que inspiradas
em determinados casos por algo sobre-humano.
Hoje,
contudo, não é mais necessária disposição, talento, ou mesmo grande
conhecimento de um assunto para produzir uma obra ou para gerar conteúdo sobre o
tema. A disponibilidade de agentes de IA como o ChatGPT, o DeepSeek, Copilot e
outros tantos, faz com que a rápida produção de conteúdo audiovisual, literário
e até “artístico” esteja ao alcance de boa parte da população, sem limites
relevantes.
Combinado
aos “avanços” da economia global em que algoritmos e a construção de personas
de sucesso nas redes sociais são os grandes fatores de resultado financeiro para
vários setores, esse cenário gerou uma realidade complexa. Nesta realidade
atual, cada vez mais pessoas tentam ganhar a vida através da internet, vendendo
produtos, serviços, ou simplesmente lucrando no intermédio da divulgação de
ideias e formação de opiniões. Por isso mesmo, cada vez mais pessoas recorrem
às ferramentas de IA para lutar por espaço no mercado, gerando quantidades
colossais de conteúdo sobre tudo que se possa imaginar.
Se
antes para produzir posts informativos sobre algo era necessário – além do
conhecimento do assunto – ter algum senso estético e habilidade de idealizar,
escrever ou até ilustrar, hoje nada disso – nem o conhecimento básico do
assunto – é um requisito. Na seara da comunidade ocultista isso é flagrante e
alucinado. Uma avalanche de posts, stories e reels superaquece
o feed, e a grande maioria tem os típicos e nauseantes traços das IAs...
“Tal
coisa não é isso, é aquilo”, quinze vezes no mesmo texto.
“Porque
não é só sobre tal coisa, é também sobre não sei o que”, perto da conclusão.
Itens
enumerados em tópicos por linha:
“Pois
é sobre isso.
E
aquilo.
E
aquilo outro.
E
não sei o quê”.
Adjetivações
excessivas, repetitivas, e frases inteiras que soam muito poéticas, mas, em
fria análise semântica, não querem dizer absolutamente nada.
Em
termos sinestésicos isso é, como eu disse, nauseante. Me faz querer abandonar a
leitura tão logo percebo o padrãozinho se repetindo. Mas o pior de tudo está no
conteúdo que é comunicado por trás dos fru-frus, metáforas vazias e listas
simplificadas. Num primeiro caso, é o fato de que esse conteúdo se mostra nulo,
no sentido de que as ideias realmente não existem – e o post é só uma ruminação
de fragmentos de outras fontes, organizada pela IA para aparentar dizer
alguma coisa sem efetivamente comunicar nada de substancial. Nada de relevante.
Outras
vezes, o conteúdo até comunica algo concreto, porém errado.
Sei
que nessa era de pós-verdade o certo e o errado são discutíveis e fatos são
relativizados conforme a narrativa mais conveniente. Porém existe um limiar
mínimo no discernimento humano no qual uma informação propagada passa a ser desinformação.
No nível mais básico, é desinformação eu dizer a vocês que o céu é verde, que o
Brasil foi colônia da França ou que o nazifascismo é um movimento político de
esquerda. Dizer que “havia candomblé na África”, que “a wicca é a religião
pré-histórica” e coisas do gênero caem exatamente na mesma categoria. É sobre
esse nível de desinformação que falo, porém grande parte dela chega aos
leitores de forma imperceptível por não estar em detalhes flagrantes ou
notoriamente conhecidos. Chega como um veneno inoculado a doses curtas.
Às
vezes isso vem por conta de desinformação de quem projetou o conteúdo (no caso
o prompt). Outras vezes, a sucessiva produção de conteúdos pela IA,
gerados a partir de mais conteúdo de IA, progressivamente, gera alucinações
cada vez piores. A Inteligência Artificial pode “delirar”, criar o que não
existe (como referências acadêmicas inventadas), recusar-se a assimilar o que é
real, e tende (como um espelho posto na frente do outro) a replicar um discurso
dirigido a ela de forma amplificada que progride até torná-lo cada vez mais
descolado da realidade. Não à toa um experimento que colocou agentes de IA para
interagir entre si em ambiente isolado terminou com os programas criando cultos
extremistas e vomitando todo tipo de insanidade hostil e preconceituosa. Num
sistema fechado a entropia é sempre maior, como diz a segunda lei da
termodinâmica.
O
uso das IAs tem feito com que a desinformação se propague em níveis
assustadores, retroalimentando todo tipo de porcaria que desejaríamos que não
ganhasse espaço em nossa sociedade. Ela é uma das sementes de tendências
malignas que estão ressuscitando e ganhando espaço, como antivacina, terraplanismo,
nazifascismo, redpill etc. Especificamente no “nicho ocultista”, a desinformação
é a força motriz principal erosão do conhecimento coletivamente circulante em
nossas comunidades. A partir da erosão desse conhecimento “comum”, podem
prosperar as maiores aberrações possíveis – as tradições inventadas sem a menor
preocupação em fingir coerência, os purismos racistas, as loucuras pós-modernas
elevadas à máxima potência (como já se observa no TikTok) entre outras.
O
que vemos é um mundo digital onde todo mundo produz conteúdo, onde a quantidade
de conteúdo produzido sobre um determinado assunto é gigantesca e cresce
exponencialmente, e onde a grande maioria dessa produção está se calçando em bases
movediças, incertas ou no caso das alucinações de IA, delirantes.
E
para além do microuniverso do feed do Instagram o problema também se enraíza no
meio editorial.
Recentemente
recebi um livro digital com temática de bruxaria que me chamou atenção por
algumas de suas citações, compartilhadas por um amigo. Ao ler a “obra”,
estranhei algumas atribuições feitas pelo autor ao texto de um grimório
ítalo-francês que conheço como a palma de minha mão. Fui checar se essas
citações não haviam sido retiradas de alguma versão expandida na
contemporaneidade ou por alguma obra moderna que levasse o mesmo título, mas
não. Eram citações irreais e que chegavam às raias do ridículo. Progredindo na
leitura, identifiquei padrões do texto construído por IA e mais citações
delirantes e desinformações. Tive de admitir, com amargor na boca, que perdi
meu tempo lendo um livro gerado por IA, construído a partir de um conhecimento
de base que era tão consistente quanto geleia.
O
mais aterrorizante não foi a audácia do “autor” em vender como sua uma obra
produzida daquele modo. Isso é esperado. A corrupção é inerente ao ser humano e
onde tiver espaço de florescer, ela florescerá.
O
que me deixou verdadeiramente assustado foi a quantidade mínima de leitores
capazes de perceber a fraude, e o quanto as ideias alucinadas propostas por
aquele conteúdo ecoaram longe, se tornando “verdades” para várias pessoas e
desconstruindo indevidamente conhecimentos reais, concretos – e até manchando a
honra de quem trabalhou no soerguimento de tais saberes no passado.
O
problema não é exclusivo da seara da bruxaria e ocultismo, porque no outro polo
de vida pública de minha rotina, o meio corporativo, a situação é igualmente
deprimente. Desde contratos importantes, comunicados, materiais empresariais e
até pareceres jurídicos estão surgindo maculados pelas inconsistências das IAs,
e pelo seu jeitinho asqueroso de se expressar. De fato, elas estão substituindo
muitas funções laborais, e tornando a rotina mais fácil. Mas a que custo?
Essa
manhã tive um diálogo com o dono de uma empresa de projetos de engenharia. Ele
me disse que ou o segmento se reinventa ou será “arregaçado” pela IA. Daí tirei
o título deste artigo – o “arregaço” – pois me percebi antevendo a queda de
prédios por um equívoco de um futuro agente de IA encarregado de elaborar
projetos arquitetônicos. Será que o “chat” em questão irá dizer que quem
apontar o erro “tem toda a razão”, e irá se comprometer em fazer melhor, depois
que muitos corpos estiverem soterrados nos escombros?
A
percepção, que se faz diagnóstico para o mundo como um todo, mas que neste
texto direciono especificamente ao nosso meio, é a de que um verdadeiro
“arregaço cognitivo” está ocorrendo. E digo “arregaço” com a má conotação do
termo, ligada a confusão, destruição. Daquilo que se olha depois que a
conturbação passa e se diz: “ficou arregaçado”.
Sem
parâmetros tão visíveis do que é um conteúdo produzido de maneira responsável e
o que é verborragia de IA, e motivadas pelas facilidades envolvidas a consumir
conteúdos menores e mais rápidos, as pessoas estão fadando a si mesmas a ser
parte do emburrecimento sistêmico da população. Estão cada vez mais abdicando
de longas e profundas leituras, em prol de conteúdos rápidos, bonitos, e na maioria
das vezes problemáticos. Em matéria de ocultismo e bruxaria, o que já era ruim
tende a piorar, e muito, talvez num ponto difícil até de imaginar. Mais
desinformação, em aumento progressivo, significa mais charlatanismo, mais práticas
e ideias loucas, mais dificuldade de buscadores encontrarem seus caminhos de
interesse de forma real e sadia – pois se há gente falando patifaria sobre tudo
em quantidade torrencial, muito mais improvável será encontrar bons
referenciais. Se antes havia dificuldade de acesso, hoje há mais do que nunca
empecilhos ao bom discernimento.
Em
face desse cenário, o que nos resta?
Sinto
dizer que não sei. Mas tenho conjecturas!
Talvez
seja tempo de abandonar o “rápido e fácil”, ao menos parcialmente. E nesse
abandono recuperar algumas noções supostamente ultrapassadas, tanto de construção
e troca de conhecimento, quanto de convivência e comunicação com os outros.
Minha
geração foi marcada pelo descobrimento do quanto poderia ser bom estar em
constante e imediato contato com amigos, colegas, prestadores de serviço,
enfim, imerso na rede social e suas efervescências. Isso nos facilitou muitas
coisas, e abriu espaço para amizades, relacionamentos, estudos e muitas outras
coisas que antes a distância não permitiria ocorrerem. Mas rapidamente fomos
chamados com a maturidade a ver o lado sombrio dessa rede de comunicação
excessiva. Em verdade, ele já estava dando as caras bem antes da disseminação
do acesso às IAs. Depressão e ansiedade recordes, alienação política crescente
e o aumento expressivo de possibilidades de fraude e outros crimes já havia nos
sinalizado que nem tudo são flores no meio digital. Com a entrada da IA,
permanecer no mesmo ritmo de comunicação digital de antes – que já estava nos
adoecendo – e continuar se informando por conteúdos rápidos – que já contribuíam
para uma certa dose de desinformação – se tornou uma insanidade.
Talvez
– e eu não tenho as respostas para isso – pessoas que buscam a sabedoria (como
creio ser a maior parte dos que se consideram “bruxos” com real discernimento
do que isso significa) precisem reconhecer que estamos num caminho de
emburrecimento, de caos comunitário, e fadado à tragédia. Uma vez reconhecendo
que o local para aprender em doses curtas e conhecer coisas novas pode não ser
mais o Instagram, e que pode ser necessário abdicar de certos imediatismos em
prol de conservar a sanidade, talvez seja o momento de muita gente se
direcionar a formas mais saudáveis de estudo e de convivência.
Falo
de reencontrar algum valor em livros de papel, cursos acadêmicos formais,
e-mail aberto só uma vez ao dia, e dar preferência pela convivência presencial
– ainda que esporádica – ao constante estado de disponibilidade comunicativa
imposto pelas redes.
Falo
de ir atrás de aprendizados com critério, procurar a comprovação de que tal
livro realmente diz o que se atribuiu a ele em citação, de que a nível
histórico uma coisa realmente ocorreu e quais os seus impactos e interpretações
– da parte de quem tem subsídios e discernimento para interpretar.
Falo
de deixar de rolar o feed, passar stories e se engajar em incessantes
discussões no WhatsApp, e ir aprofundar o estado de suas práticas espirituais,
adquirir o tipo de conhecimento que requer calma e constância para construir,
ou simplesmente aproveitar um pouco mais de ócio – porque pasme, notas de
silêncio também formam a música! Sem momentos de contemplação e calmaria não se
pode realmente construir uma comunicação assertiva com o sagrado.
No
passado de muitas tradições o conhecimento se construía ao longo de tempo,
repetição, enfrentamentos de situações reais que a vida e as situações proporcionavam.
Antigamente no que tange a bruxaria possuíamos menos acesso a material de
estudo, menos contato com outras sendas, mas em compensação havia um ritmo de
vida que permitia o sonhar, o respirar, e a elaboração natural de uma espiritualidade
mais simples, porém em inúmeros aspectos mais sadia do que o frenesi virtual de
hoje nos impõe.
Recentemente
optei – por vários motivos – retroceder o ensino e vivência da Tradição Stellamare
a modos mais antigos, lentos, discretos e “humanos” de fazer as coisas, muito
por orientação dos próprios Antigos de minha casa, e por observação dos frutos colhidos
a partir de intensas dinâmicas virtuais. Isso foi antes de minha reflexão sobre
as IAs que expresso neste texto, mas vejo que os dois eventos são passos em uma
mesma direção. Longe de achar que somos o parâmetro de qualidade para outras
comunidades e sendas, penso que a seu modo cada uma terá de lidar com tomadas
de decisão neste sentido.
No
seio da bruxaria, talvez esteja chegando a hora na qual quem tem interesse na
coisa real aceitar que encontrá-la, permanecer aprendendo com ela e não perdê-la,
poderá requerer algumas renúncias que não estávamos preparados para fazer, e
que num primeiro momento podem parecer conservadoras ou até “retrógradas”.
Este
texto não é um ataque à IA, exatamente.
Como
toda tecnologia, ela é uma ferramenta que pode ser muito construtiva se bem
empregada. Ela pode ser uma excelente revisora de textos, sugestora de tópicos
e estruturas, auxiliar de pesquisa, criadora de conteúdos de suporte a um
objetivo principal etc. Mas quando o maior impacto que vemos dela no mundo é
nos emburrecer progressivamente, substituir nossa capacidade de pensar e
de criar, isso precisa ser debatido. Tanto quanto a dinâmica
enlouquecedora de comunicação, disponibilidade 24/7 e senso de urgência
instalados em nós através dos aplicativos de mensagem.
Lembro-me
quando o ChatGPT começou a produzir imagens boas em estilos de artistas reais,
e grande comoção tomou conta das redes... Diziam “eu sonhava com uma IA que
lavasse a louça para que eu tivesse mais tempo para fazer minha arte, não com
uma IA que fizesse minha arte para eu ter mais tempo de lavar a louça”. Dentro
de uma série de outras problemáticas pertinentes, é esse o desafio que temos em
mãos.
Precisamos escolher se iremos ceder nossa cognição – e em certa medida nossa espiritualidade – às novas invenções do capitalismo, ou se faremos de nossa escrita, de nossa convivência e de nossa espiritualidade bastiões de resistência humana e intelectual ao triste colapso cultural (e talvez civilizatório) que se anuncia.
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