quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

A ROSA E A ESTRELA: A relação do movimento Rosa-Cruz com a Tradição Stellamare

 Por Draco Stellamare

Este texto foi escrito originalmente como uma introdução a uma das seções de leituras passadas aos iniciados da CSM.

Esta versão pública foi devidamente editada com a retirada dos conteúdos internos.

 

Desenho de uma pessoa

O conteúdo gerado por IA pode estar incorreto.

1. Virgem Maria no Hortus Conclusus – Atribuído a Matthias Grünewald (1480-1528)

 

O rosacrucianismo foi um movimento esotérico, místico e filosófico originado no início do século XVII na atual Alemanha, em um contexto social de tensões relacionadas à Reforma Protestante e a progressão das tendências que se condensariam no Iluminismo do século XVIII em diante. Muitas e diferentes vertentes desse movimento se desdobraram – na maioria das vezes sem relação direta com suas origens – nos séculos que se seguiram à sua exposição ao público, impactando outras organizações esotéricas do Ocidente, o ocultismo moderno e até mesmo algumas vertentes de bruxaria, como é o caso da nossa Tradição Stellamare que assimilou elementos do rosacrucianismo germano-austríaco e a própria Wicca Gardneriana, que foi forjada a partir das iniciações e vivências possibilitadas a Gerald Gardner no interior de uma irmandade rosa-cruz inglesa: a Crotona Fellowship. O presente texto tem a intenção de abordar o início desse movimento, sua essência e – mais especificamente – a cadeia de desdobramentos que leva esse esoterismo a se cruzar com a história da Tradição Stellamare e sua reorganização contemporânea.

A primeira manifestação abertamente conhecida do movimento rosa-cruz foi a publicação do manifesto Fama Fraternitatis em Kassel, centro da Alemanha, em 1614, seguido da Confessio Fraternitatis em 1615 e das Núpcias Alquímicas de Chistian Rosenkreutz em 1616, dessa vez em Estrasburgo. Embora não revelado na época, hoje sabe-se que a publicação das Núpcias Alquímicas – e aparentemente a dos dois documentos anteriores – foi da autoria de Johann Valentin Andreae, um teólogo luterano, escritor e humanista alemão ligado ao círculo intelectual de Tübingen, influenciado pelo hermetismo, pela alquimia espiritual e pelas ideias reformistas religiosas e científicas do início do século XVII. Diferentemente do que se supõe, o autor justificou seu trabalho não como uma revelação de uma organização secreta em atuação, mas sim como uma narrativa simbólica, que visava transmitir mensagens e orientações a serem seguidas no âmbito do esoterismo cristão que florescia em diversos contextos e impactar a mentalidade da sociedade como um todo, provocando reformas humanistas e espirituais. Não em desacordo com essa constatação, o início do movimento rosa-cruz pregava que os adeptos levassem as ideias do fundador mítico Christian Rosenkreutz para frente por meio de um trabalho pessoal (e não especificamente articulado por meio de um grupo formal), desenvolvido em qualquer parte do mundo e em qualquer contexto social, e que seria legado a uma outra pessoa no final da vida. Tendo isso em mente, o estudo da história e do legado rosacrucianos precisa ser conduzido com a flexibilidade de entendimento necessária a perceber que muito do que se disse no passado sobre eles foi em caráter simbólico, e não literal, pelo menos até o surgimento de estruturas iniciáticas organizadas de maior relevo, já em meados de 1700.

O contexto prévio à publicação impressa do Fama Fraternitatis (que já circulava como manuscrito anos antes) era o de uma grande instabilidade social, causada pela tensão entre a Reforma Protestante e a reação católica contrária, que em breve dividiria a Europa na terrível Guerra dos Trinta Anos, o trágico fim da Paz de Habsburgo que até então reinava no Sacro Império Romano Germânico. Havia entre os intelectuais mais voltados à espiritualidade um sentimento comum da necessidade de um esoterismo cristão que combinasse alquimia, cabala e outras artes que já vinham sendo estabelecidas desde a Renascença com uma filosofia moral e enobrecedora da humanidade, uma filosofia que causasse impacto no mundo que se percebia corrompido pela religião e pela política, renovando-o para uma nova era de “iluminação”. Nesse contexto, cidades que concentravam intelectuais e esoteristas como Praga na Bohemia e regiões mais progressistas quanto à tolerância interreligiosa como a Rheinland-Pfalz (Renânia-Palatinado) foram focos de fermentação de diversas elaborações para essa filosofia mística e redentora que era desejada.

 

Texto, Carta

O conteúdo gerado por IA pode estar incorreto.

 

O Fama – cujo longo título original era Fama Fraternitatis, oder: Die Erfindung der löblichen Bruderschaft des hochgeehrten Ordens des Rosenkreutzes, an alle Fürsten, Oberhäupter und Gelehrten in Europa zu richten, em português Fama Fraternitatis, ou: A Descoberta da Digna Fraternidade da Louvável Ordem da Rosa Cruz, dirigida a todos os príncipes, chefes e eruditos da Europa – surgiu como a narrativa introdutória da jornada de Christian Rosenkreutz (neste momento somente identificado pelas iniciais C.R.), que tendo origem nobre e nascido na época das últimas Cruzadas, teria viajado para o Oriente, rumo a Terra Santa, porém terminou em Damasco, Arábia, Egito e Marrocos, onde aprendeu com os sábios, magos e alquimistas que ainda preservavam antigas tradições herméticas. Dentre aquilo que ele aprendeu com os sábios, estava a medicina, a filosofia espiritual, as ciências ocultas e a alquimia. De posse de tais saberes e iniciado, C.R. volta para a Europa onde tenta utilizar seus conhecimentos em favor de grandes reis, sem sucesso. Ele funda então uma fraternidade secreta dedicada a essa reforma universal do mundo – ética, filosófica, científica, espiritual e humanística –, com regras rígidas de conduta (como viver em anonimato e curar gratuitamente) no objetivo de que assim por meio dos adeptos de sua linhagem o impacto desse movimento alcançasse grandes proporções. Após a morte de C.R., sua tumba é descoberta por membros posteriores da fraternidade, contendo livros, símbolos e a inscrição Jesus mihi omnia (“Jesus é tudo para mim”). O texto termina com um chamado público a estudiosos e sábios para se unirem à reforma espiritual e científica da humanidade, em tom otimista e messiânico.

 

The Chemical Wedding of Christian Rosenkreutz by Johann Valentin Andreae |  Goodreads

2. Johann Valentin Andreae, retratado com quatro rosas, como referência ao chapéu de Christian Rosenkreutz nas Núpcias Alquímicas.

 

Um dos pontos mais interessantes sobre a lenda contida no Fama Fraternitatis é como ela reconhece que os guardiões das antigas sabedorias esotéricas do Oriente eram os muçulmanos e outros não-cristãos dos locais visitados por C.R., e que o processo de recuperação destas sabedorias para o Ocidente era também um processo de enxerto de suas linhagens dentro do cristianismo, seja ele católico ou protestante. A mitologia de fundação rosacruciana é um resgate simbólico da tradição no Oriente, e a sua conversão e atualização à linguagem e simbologia cristãs. Embora a história de Christian Rosenkreutz seja muito provavelmente uma fábula, ela espelha um processo de retomada das antigas tradições preservadas no Oriente que vinha acontecendo nos séculos precedentes através de diversas vias. Tanto houve uma busca dos nobres engajados com a Renascença por conteúdos herméticos, cabalísticos e alquímicos oriundos do mundo árabe através das rotas de comércio – no que os principais patrocinadores certamente foram os Medici, de Firenze – quanto a interação com os mouros na península ibérica e Magreb era uma realidade que possibilitava esse mesmo tipo de troca. Assim, manuscritos e linhagens tradicionais que se preservaram em alguns poucos lugares do mundo árabe – como a magia astrológica pagã sobrevivente na cidade de Harran, na Síria – puderam ser acessados e reincorporados num emergente esoterismo europeu. Esse novo esoterismo europeu, forjado pela Renascença, certamente já era de conhecimento (e prática) de muitos dos envolvidos na fundação disso que viria a se tornar o difuso movimento rosa-cruz.

A publicação e disseminação do Fama levou a muitos burburinhos e algumas críticas, que motivam a continuidade da declaração rosacruciana através da Confessio Fraternitatis, publicado um ano depois com um discurso mais doutrinário e apologético. A Confessio declarou que a fraternidade da Rosa-Cruz foi fundada sob inspiração divina para uma nova era de iluminação e reforma espiritual, e não para buscar fama ou poder. No mesmo sentido, condenou a corrupção entranhada na Igreja Católica e entre os pares da ciência, propondo uma reforma radical nas estruturas do mundo. Enfim, o texto explicava que os membros da Rosa-Cruz possuíam um conhecimento secreto que poderia ser acessado pelos moralmente puros e inclinados à iluminação, reiterando os votos da Ordem (de vida simples, anonimato e caridade) e chamando os verdadeiros buscadores da sabedoria divina a se unir espiritualmente ao movimento e se empenhar no uso das ciências e das artes para o bem comum.

 

Desenho de uma pessoa

O conteúdo gerado por IA pode estar incorreto.

3. Gravura representando a união do Sol e da Lua.

 

O terceiro documento “fundante” do movimento, as Núpcias Alquímicas, aborda de forma muito mais íntima a pessoa de Christian Rosenkreutz. Em uma jornada de sete dias, o protagonista narra em primeira pessoa seu convite para o casamento real, sua ida até o castelo onde se encontra sepultada a Senhora Vênus, e as provações e superações que o levam à Magnum Opus da alquimia: a ressurreição do casal real, o Rei e a Rainha, representando o Espírito e a Alma. A história é longa e repleta de intrincados simbolismos e enigmas, todos relacionados aos mistérios da alquimia, do hermetismo, da cabala e da astrologia. Dentre todas as metáforas e mistérios simbolizados de forma narrativa, a grande mensagem do texto é sobre a jornada iniciática e a iluminação, e diferente do tom mais místico dos textos anteriores, o enredo das Núpcias e sua conclusão acabam por enfatizar grandemente a procura da elevação espiritual através da alquimia, uma obra que não é somente externa, mas também interna.

 

Desenho de personagem

O conteúdo gerado por IA pode estar incorreto.

4. Representação do Túmulo de Christian Rosenkreutz como a "Montanha dos Filósofos". A data 1604 é referente à história. Autoria anônima, e publicação em 1785.

 

Pouco mais se sabe sobre a Rosa-Cruz do século XVII além do que foi descoberto sobre os três documentos mencionados nos parágrafos anteriores. Contudo, estima-se que conforme a orientação do Fama e do Confessio, adeptos deste esoterismo tenham deixado seus saberes em sucessão direta ou indireta rumo aos intelectuais e interessados do século seguinte, levando à fundação da notória Gold-und Rosenkreutz Orden, a Ordem Rosa-Cruz de Ouro ou Rosa-Cruz Dourada já no século XVIII. Acredita-se que embora a ordem tenha sido oficializada por volta de 1756 e 1758 com a atuação de Herman Fictuld (o pseudônimo de uma liderança posterior da ordem cuja identidade ainda é incerta), a primeira menção a sua existência vem de 1710 com a publicação de Die wahrhafte und volkommene Bereitung des philosophischen Steins der Brüderschafft aus dem Orden des Gulden und Rosen Kreutzes (A Verdadeira e Completa Preparação da Pedra Filosofal da Fraternidade da Ordem da Cruz Dourada e Rosada) da autoria de Samuel Richter sob o pseudônimo “Sincerus Renatus”. Apesar de ser considerada uma primeira exposição por escrito da ordem, as regras publicadas por Richter são entendidas mais como um prenúncio de reformas futuras do que como algo que refletisse a organização inicial e possivelmente já existente no período.

 

Placa pendurada na parede

O conteúdo gerado por IA pode estar incorreto.

 

Sabe-se que nos estágios iniciais da Ordem da Rosa-Cruz de Ouro o ingresso era acessível a qualquer pessoa interessada, desde que alinhada aos princípios ideológicos do movimento. As iniciações eram simples e se realizavam em segredo nas igrejas durante a noite, envolvendo o corte de cabelo, um juramento e uma pequena sangria. Esse estágio mais aberto da Ordem muito provavelmente foi um dos hipotéticos canais de comunicação entre o esoterismo rosa-cruz antigo e as tradições mágicas populares, canal este que viabilizaria uma das mais relevantes influências rosacrucianas na bruxaria – senão em crença ao menos em elementos rituais e conceitos metafísicos. Elementos que despontam dessa influência em nosso caso são em especial a concepção de geometria e numerologia sagradas, a alquimia subliminar empregada em todos os nossos sacramentos e cosmovisão, a compreensão cristã iniciática e transcendental da “direita” da Tradição e o nosso conceito – tanto literal quanto metafórico – do S.S [conteúdo editado].

Se retrocedermos novamente ao contexto do rosacrucianismo emergente durante os séculos imediatamente posteriores à Renascença, e olharmos para a Itália, mais especificamente na área lombardo-vêneta e na cidade de Venezia, veremos que um flagrante esoterismo floresceu apoiado na base renascentista e nas influências rosacrucianas vindas da Europa Central, imprimindo em catedrais, construções de antigos palazzi e no paisagismo urbano os símbolos da alquimia, da astrologia e do hermetismo – não raro entremeados aos símbolos do catolicismo de modo a se autoconferir uma legitimidade ante ao olhar religioso hegemônico. Elena Righetto fornece uma interessante abordagem da presença esotérica em Venezia em uma seção de seu livro Folklore e Magia Popolare del Veneto, relacionando essa presença ao menos a nível folclórico com a Schola Nigra e os seus alunos, os Scolari Vaganti.

O esoterismo rosacruz em Venezia pode ser mapeado, dentre outras ocorrências, graças aos registros de uma sociedade secreta que reunia adeptos rosacruzes (provavelmente intelectuais inspirados pelos seus documentos fundantes), membros das corporações de ofício – principalmente construtores e vidraceiros –, e alquimistas. O nome dessa sociedade, La Voarchadumia, é derivado do título de um livro (Voarchadumia Contra Alchi'miam: Ars Distincta Ab Archimi'a Et Sophia) da autoria do alquimista e religioso Johannes Augustinus Pantheus ou Giovanni Augustino Pantheo, publicado em Venezia em 1530. A obra em questão tratava de diferenciar uma alquimia verdadeira e esotérica das artimanhas de charlatães que tomavam conta dos mercados disfarçando-se entre vendedores de espagíricos e filtros naquele período. Embora algumas fontes apontem a fundação dessa sociedade secreta em um período bem anterior ao do livro, o mais provável é que ela tenha surgido efetivamente após sua publicação, perdurando até meados do século XVII. Como não se tem indício algum de sua continuidade nos séculos seguintes, a Voarchadumia fica como uma possibilidade alternativa (senão complementar) à Rosa-Cruz de Ouro como causa da influência rosacruciana em algumas tradições bruxas de área vêneto-friulana, dentre elas a própria Stellamare.

 

Texto

O conteúdo gerado por IA pode estar incorreto.

 

A presença esotérica em Venezia na época do nascimento do rosacrucianismo e sua agitação em épocas posteriores passa por alguns locais e pontos simbólicos, sendo um dos principais o Palazzo di Lezze, construído na capital da República no início do século XVII, e palco de uma concentração de atividades esotéricas apreciadas pela família que dá nome à construção. De similar embora menos notória relevância são o conde Camillo Panciera de Zoppola no Friuli, de quem o bruxo Aquino Turra furtou livros de Agrippa que adentraram suas práticas folclóricas, e a própria família Montereale, à qual pertencia Lucrezia Montereale Mantica, processada pela Inquisição e notória condutora de rituais de magia. Contudo, o relacionamento de tais figuras com alguma sociedade especificamente rosa-cruz permanece no mistério, sendo as conexões mais visíveis entre a Itália e o rosacrucianismo nos séculos seguintes e no trabalho de alguns poucos intelectuais preservados na história. Embora o conhecido alquimista Federico Gualdi, do século XVII, não tenha sido conhecido explicitamente como rosa-cruz, os desdobramentos posteriores do movimento da área vêneta fazem referência a ele como um dos expoentes dessa influência, que teria continuado no século seguinte com a chegada e espraiamento – sobretudo durante o domínio austríaco do Veneto e do Friuli – da Rosa-Cruz de Ouro, inicialmente mais acessível e posteriormente circunscrita por um elitismo maçônico, como já mencionamos. Retornemos, portanto, a esta sociedade rosacruciana e suas iminentes transformações...

A mudança na forma de ingresso na Rosa-Cruz de Ouro ocorre em 1767, com as primeiras reformas conduzidas por Hermann Fictuld. A partir desse período a ordem absorve elementos ritualísticos, simbólicos e organizacionais da Maçonaria e passa a somente admitir como iniciados os candidatos que já fossem maçons de alto grau, organizando-os em grupos de nove membros (chamados Zirkel, ou “círculo”), com funções específicas e uma rígida hierarquia. Os “círculos” eram gerenciados regionalmente por um Oberhauptdirektor (um “diretor supremo”), e universalmente por um líder denominado Imperator. Além dessa mudança promover uma guinada de expansão da ordem entre as classes mais abastadas e politicamente envolvidas, ela torna o processo iniciático mais complexo e rebuscado, culminando em seu auge num sistema de nove graus, segmentados em tarefas que começavam no estudo teórico e alquimia operativa, passando pela cabala e magia natural para enfim chegar ao nível da teurgia e formas “divinas” de magia. Os graus em sua última configuração mais completa eram:

1. Juniorus. Estudo teórico da ordem, sobretudo histórico.

2. Theoreticus. Estudo de cosmologia, “doutrina da criação” e entendimento do macro e microcosmos.

3. Practicus. Início da prática de alquimia laboratorial.

4. Philosophus. Transição para alquimia avançada e simbolismo.

5. Adeptus Minor. Estudo da Cabala cristã aplicada à alquimia.

6. Adeptus Major. Transição para alquimia avançada e magia natural.

7. Adeptus Exemptus. Estudo da magia e preparação da Pedra Filosofal.

8. Magister. Estudo e prática de magia “astral” e preparação do Elixir da Vida.

9. Magus. Último grau, dedicado à magia divina, teurgia e profecia.

As iniciações e passagens de grau eram complexas e tomavam forma em salas preparadas com símbolos alquímicos e cerimoniais relacionados a cada grau, diante dos quais havia testes com senhas, perguntas e respostas e instruções práticas. Já os ritos dentre os iniciados de maior grau eram costumeiramente feitos em mesas nas quais os membros realizavam um banquete simbólico e processos de conjuração e profecia. Diferente dos adeptos do início do rosacrucianismo no século anterior, os membros da Rosa-Cruz de Ouro deveriam se engajar em operações laboratoriais e magia prática, de modo a galgar o amadurecimento espiritual e alcançar a iluminação.

Graças primeiro à sua proposta mais magística e posteriormente ao vínculo com a Maçonaria, a Rosa-Cruz de Ouro espalhou-se da Alemanha para a Áustria (inclusive áreas por ela dominadas), Polônia, Tchecoslováquia, Hungria e Rússia, exercendo grande influência sobre as lojas maçônicas e demais grupos esotéricos e ocultistas destes locais. Essa expansão, contudo, também levaria ao seu declínio em pouco tempo. O enredamento de autoridades seculares na Ordem e a rivalidade com outras facções de dentro da Maçonaria criaram desestabilidade entre os vários territórios onde o grupo esteve presente, desestabilidade essa que foi intensificada por problemas como conflitos internos pela liderança, decepções quanto a ausência de membros “superiores” (que supostamente se revelariam para instruir os iniciados de alto grau em sabedorias maiores), e incidentes fatais com experimentos alquímicos malsucedidos. O embate cada vez maior contra grupos iluministas e racionalistas, inimigos declarados do “misticismo”, como os Illuminati da Baviera e os Asiastiche Brüder (Irmãos Asiáticos), também colaborou para a queda e eventual dissolução da Ordem no final do século XVIII. Não por acaso, o declínio de um dos maiores expoentes em esoterismo cristão da época é paralelo à ascensão da visão de mundo racionalista e cientificista que, no contexto jurídico e político, daria luz ao pensamento positivista.

Com o declínio da Rosa-Cruz de Ouro, os adeptos migraram para outras organizações ou permaneceram circunscritos a Maçonaria ou a pequenas sociedades secretas. O impacto da Ordem no cenário esotérico, porém, ocasionou o surgimento de diversas outras organizações, inspiradas na Rosa-Cruz de Ouro ou ramificadas diretamente a partir de alguma de suas dissidências, como a Ordre Kabbalistique de la Rose-Croix (Ordem Cabalística da Rosa-Cruz) fundada por Stanislas de Guaita em Paris, e a Societas Rosicruciana in Anglia – organização inglesa que evoluiria para embasar a fundação da famosa Hermetic Order of the Golden Dawn (Ordem Hermética da Aurora Dourada). Além disso, a Ordem da Rosa-Cruz de Ouro cristalizou uma imagem mais “arcana” e magística da Rosa-Cruz, levando – após o advento da egiptomania dos séculos XIX e XX – à fundação da organização rosacruciana mais famosa e difundida da atualidade, a Ancient Mystical Order Rosae Crucis (Antiga e Mística Ordem Rosa-Cruz, ou A.M.O.R.C). Com esse imaginário mais exótico e carregado de reinterpretações românticas do Egito Antigo, o rosacrucianismo evoluiu de um esoterismo cristão para um movimento que reinterpretava Cristo segundo uma ideia de linhagem esotérica anterior ao próprio cristianismo, projetando suas raízes nos faraós ou em Atlântida e outros mitos ocultistas, conforme a preferência de cada vertente.


undefinedUma imagem contendo Mapa

O conteúdo gerado por IA pode estar incorreto.

5. À esquerda, símbolo da Ordre Kabbalistique de la Rose-Croix, e à direita, o da A.M.O.R.C.

 

Considerando todo esse histórico, podemos considerar que o impacto da Rosa-Cruz em nossa Tradição Stellamare é obviamente anterior à fase mais recente e “egiptomaníaca” do rosacrucianismo. A vinculação com este movimento espiritual pode ser causada ou inspirada devido, se não à misteriosa Voarchadumia que floresceu em Venezia nos idos de 1530 a 1600, pelo menos aos eventos do século XVIII e XIX com o espraiamento da Rosa-Cruz de Ouro, e mais especificamente ao momento em que as iniciações não eram um privilégio dos mestres maçons. Das duas alternativas, é possível que ambas sejam partes da verdade corroída pelo tempo e pelo esquecimento por ele imposto. Se o contato da bruxaria com a Rosa-Cruz se deu graças ao trânsito de pessoas e influências entre Áustria, Friuli e Venezia ou se tratou-se de uma junção ocorrida já com um braço veneziano ou friulano da Fraternidade é impossível saber ao certo. Outra coisa que fica pendente em especulação é a aparente dicotomia entre a Rosa-Cruz – enquanto esoterismo cristão “da direita” – e [conteúdo editado] – enquanto um “esoterismo diabolista” e, portanto, cristão “de esquerda”. Aceito ser apedrejado pelos tradicionalistas depois da construção dessa frase, mas ela foi necessária...

A compreensão de esoterismo tradicional, por si mesma, depreende que não existe um cristianismo esotérico, um judaísmo esotérico ou (forçando aqui a barra para nossa linha de interpretação) uma bruxaria esotérica. O que existe é esoterismo cristão, esoterismo judaico, e (novamente forçando) um “esoterismo bruxo”. Isso porque o esoterismo trata da via iniciática, sendo ela a mesma via para a tradição primordial, manifesta em quaisquer simbologias e linguagens necessárias de acordo com os pressupostos tradicionais. Assim sendo, não é absurdo supor que um espelhamento pode ter havido – no contexto vêneto-friulano de séculos passados – entre a Rosa-Cruz e o esoterismo que se entende proveniente da Escola Negra, [conteúdo editado]. Como eu abordo ao comentar o O Graal e a Rosa e O Significado da Rosa-Cruz (dois capítulos traduzidos da antologia The Rosicrucian Enlightenment), a “Montanha da Salvação”, a Venusberg da bruxaria alemã e a Colina da Assembleia das bruxas friulanas são uma e a mesma ideia, em aspectos distintos de luz e sombra.

Essas informações e associações como um todo são formas de tentar atribuir maior clareza a um passado de influências que se cruzaram umas por cima das outras, de forma aparentemente desordenada. Nas primeiras décadas da minha vida eu ouvi de minha avó sobre algumas das coisas que sabíamos terem origem na Rosa-Cruz, e como dessas a quase totalidade advém de Marietta, a chance é que o processo tenha ocorrido ainda na Europa, com a mais próxima influência possível sendo a Gold-und Rosenkreutz Orden, via Império Áustro-Húngaro. Obviamente, isso não elimina outras possíveis influências, inclusive mais antigas da própria região veneziana, porém quanto mais antigas ficam as coisas, menos provável é que a linhagem preserve seus nomes e datas, ou as informações que ultrapassam uma funcionalidade pragmática e imediata. Assim, penso eu, a sobrevivência do entendimento de que certas coisas – como [conteúdo editado] – advém desse segmento do esoterismo europeu, é sinal suficiente de que essa influência, se não foi recente no tempo, foi reiterada o bastante para que a memória sobre ela permanecesse viva.

Da Rosa-Cruz aprendemos uma dimensão muito importante de nossa versão do catolicismo, além de um reforço – ou seria a própria origem? – do entendimento alquímico em nossa cosmovisão, ritos, e caminho iniciático. Por isso a importância, tal como de uma boa compreensão da vivência católica usual e do mito embasador da Assembleia das Bruxas, de compreender o esoterismo rosacruz como uma das veias pelas quais flui o nosso “sangue mágico”.

 

 

Referências

An Overview of the Gold-und Rosenkreutz Order - G.H. Frater A.V.I.A.F.

Aulas da PhD Angela Puca sobre Rosacrucianismo no canal Angela’s Symposium.

Folklore e Magia Popolare del Veneto. Rituali, superstizioni e antica stregoneria – Elena Righetto.

Camillo di Zoppola e Aquino Turra. Una storia di magie, libri proibiti e donne – Mauro Fasan.

The Rosicrucian Enlightenment – John Matthews, Christopher Bamford, Nicholas Goodrick-Clarke, Joscelyn Godwin, Robert Powell, Rafał T. Prinke, Clare Goodrick-Clarke, Paul Bembridge, Christopher McIntosh. Introdução e edição de Ralph White.


Mapa

O conteúdo gerado por IA pode estar incorreto.

6. O Collegium Fraternitatis.

             

 

Um comentário: