Por Draco Stellamare
É impossível desassociar
totalmente o imaginário da bruxaria europeia da figura do Diabo. Seja como
sujeitos de um pacto no qual se vende a própria alma ou como combatentes
exorcistas, as bruxas sempre estiveram em contato com essa figura. Isso é
atestado por evidências históricas que ultrapassam a tese da “distorção
inquisitorial” e adentram o que se sabe sobre o imaginário popular de séculos
passados. Ao confrontar este fato, muitos adeptos da bruxaria moderna preferem
interpretar o Diabo como uma divindade pagã, pura e simplesmente,
atribuindo-lhe contornos mais suaves. Por sua vez, os buscadores de uma
bruxaria mais tradicional ou mais alinhada às raízes antigas desta senda
enfrentam um outro problema: a infinidade de interpretações possíveis sobre a
figura diabólica, e as confusões e desconhecimentos que se camuflam no meio
delas.
Já colaborei com a produção de um vídeo sobre o assunto – hoje não mais disponível publicamente por decisões pessoais – mas sinto que minha fala na ocasião foi mais aberta e superficial do que deveria. Talvez ela tenha sido adequada na época para as pessoas que nos seguem, muitas das quais estavam tomando ali um primeiro contato com visões tradicionais de bruxaria. Contudo, a questão diabólica está longe de ser um assunto feito para grandes públicos, e pode ser explorada de formas mais específicas e talvez mais úteis aos buscadores realmente vocacionados para um caminho tradicional. Portanto, decidi escrever este texto onde abordarei de uma forma mais concisa essa questão, dando mais espaço ao que pode ser dito de uma perspectiva propriamente bruxa e listando fontes de estudo ao final de cada parte para quem deseja se aprofundar em algum dos aspectos abordados. Como sempre, é bom começar lembrando que essa é a minha visão, baseada em minha história e estudos, e ela (assim como nenhuma outra) jamais esgotará o assunto.
O que havia antes e a construção da imagem
do Diabo
Embora as culturas pré-cristãs
tivessem conceitos próprios sobre o mal, o caos disruptivo e a antítese da
divindade (a exemplo o adversário Ahriman do zoroastrismo ou o conceito de
Incriado egípcio), a necessidade universal da criação de um inimigo comum da
religião e da humanidade surge – com as características que geram a figura do
Diabo – somente com a prevalência do cristianismo como religião dominante na
Europa. Em origem, o deus Yahweh não era considerado unicamente bondoso, mas
sim um Senhor dos Exércitos, que cria o bem e o mal, a luz e as trevas, como
mencionado em Isaías 45. A guerra espiritual entre ele e os deuses de outros
povos (rebaixados como espíritos menores) era uma guerra política, e até mesmo
ela estava sob o domínio do Absoluto na teologia dos hebreus. Segundo a
cosmologia abraâmica original, mesmo os seres “demoníacos” e os maus-espíritos
estavam atados firmemente à vontade de Deus.
Com o surgimento do
cristianismo, influenciado por diversas correntes de pensamento mágico-religioso,
dentre as quais o próprio zoroastrismo com suas tendências “maniqueístas”, uma
nova concepção de Deus passa a ser incentivada. A mensagem cristã inaugura um
Deus que, embora ainda combativo, centraliza seu discurso no amor fraterno e em
uma perspectiva de salvação, frente a um mundo corrompido pelo pecado original.
O Deus cristão, sendo o bem absoluto, abriu um vazio no qual o problema do
“mal” se evidencia.
Se Deus fosse bom e onipotente,
não permitiria o mal.
Se Deus fosse onipotente e
permitisse o mal, ele não seria bom.
Se Deus fosse bom e permitisse
o mal, ele não seria onipotente.
A raiz deste paradoxo que seria
elaborado nestas palavras posteriormente foi o que motivou a congregação de
diferentes fatores culturais antigos de povos cristianizados numa única figura
(ou num único conjunto de figuras de mesma natureza) que sintetizasse o mal que
existe no mundo. A partir de então, o mal seria consequência de duas coisas: o
livre-arbítrio, e a atuação do Diabo.
De quebra, essa estratégia da
religião cristã hegemônica ajudava a resolver dois outros problemas: a
necessidade de controlar os devotos através do medo, e a necessidade de afastar
a população de deuses cujo culto não pudesse ser suplantado pelo dos santos. Ao
identificar deidades e espíritos pouco adaptáveis a uma nova realidade
simbólica com o ser que representava o mal absoluto, a Igreja Católica
influenciava o declínio dos cultos destas divindades e reforçava o sentimento
de pertencimento das pessoas à Fé através da união contra um pretenso inimigo
em comum.
O processo, contudo, teve seus
efeitos colaterais, e entre esses efeitos está a continuidade de relações
marginais com os seres ctônicos do passado, sob uma nova identidade e
simbologia. Essa é uma das linhas de interpretação possíveis sobre a presença do
Diabo na bruxaria histórica e na bruxaria tradicional contemporânea.
O Diabo como continuidades observáveis de deuses ctônicos e liminares
Dentre os deuses e espíritos
menos adaptáveis ao contexto religioso cristão estavam muitas vezes as
divindades e seres ctônicos, ligados à terra e ao mundo inferior, bem como os
que detinham características liminares, à margem de uma moral socialmente aceita
ou que desempenhassem um papel desafiador. Em síntese, certos aspectos mais
brutais da própria natureza. A partir dos símbolos característicos dessas
entidades os principais elementos imagéticos do Diabo foram unificados. Temos
os chifres dos deuses cornudos, os cascos de divindades caprinas como Pã, o
tridente retirado de Poseidon e Netuno e o falo de Príapo como alguns exemplos
mais gritantes.
Contudo, para além de uma
questão imagética, em cada contexto regional e cultural fenômenos e domínios de
tais divindades passaram a ser entendidos como fenômenos e domínios do Diabo.
Podemos ver claramente como o Diabo passa a ter o domínio do Inferno em
sucessão a Hades ou Veles, da magia e astúcia em sucessão a Hermes ou Odin, ou
do vinho e dos êxtases como Dionísio, e de senhor das encruzilhadas, espaços
liminares e abertura de caminhos, traços que víamos em Janus no contexto latino
e que vemos no orixá Exu em contexto africano e afrodiaspórico. Um dos casos
mais ilustrativos é a compreensão balcânica do Diabo como divindade tutelar do
ofício de ferreiro, e como um Tsar da Terra em oposição a um Tsar do
Céu (tópicos abordados no ensaio Unchain the Devil!, de Radomir Ristic).
Dada a quantidade de caminhos
pelos quais os domínios de deuses e espíritos antigos chegaram até a associação
com o Diabo é inviável num texto como este discorrer muito sobre eles. O leitor
poderá buscar essas informações por si mesmo, começando sua procura através de
algumas das referências indicadas ao final. Por hora, é preciso entender que a
nível simbólico e cosmológico o Diabo cristão é um herdeiro de diversos deuses
e espíritos antigos, mas que em cada contexto de folclore ou tradição uma ou
mais de uma dessas ascendências predomina sobre as inúmeras outras.
Aqui temos um primeiro cuidado:
Os domínios e a própria
identidade do Diabo enquanto potência cósmica podem mudar de local para local,
ou mesmo entre duas linhagens bruxas do mesmo lugar que lidem com ele. Não há
como atestar uma definição universal de qual divindade deu lugar a essa
entidade, porque várias o fizeram, umas por cima das outras. Para um italiano
ou grego culto, ele poderia ser visto como oriundo de Pã. Para um adepto de
tradições sincréticas afrobrasileiras ele será quase intuitivamente associado a
Exu. Ou seja, o contexto no qual a imagem diabólica se manteve será determinante
para interpretá-la e desvendar de onde vem os seus mistérios.
Não é por outro motivo senão
este que são encontrados nos cultos e mitos da bruxaria inúmeros elementos que
sugerem raízes na Antiguidade. A memória folclórica de ritos agrários e cultos
marginais, o apelo feiticeiro aos deuses do submundo e da magia, a associação
quase que intuitiva daqueles que operam com as forças ocultas com o lado mais
brutal da natureza e, por fim, a manipulação narrativa orquestrada pela Igreja
Católica levaram em conjunto ao vínculo que se constituiu entre as bruxas e o
Diabo.
Engana-se o intérprete moderno
ao pensar que o diabolismo foi imposto de fora para dentro na Arte. Em verdade,
ele surgiu por um complexo de forças e pressões, tanto externas quanto
internas, e dentre estas últimas está a permanência de elementos pré-cristãos
no contexto da vida católica popular. Quando a cosmovisão da cultura se tornou
cristã, as potências infernais e transgressoras deixaram de ser lidas e
agrupadas como deuses e daimons e passaram (em maior ou menor grau) a ser
entendidas como o Diabo e seus demônios subalternos. Nisso ocorre uma tradução
do cosmos para uma nova linguagem, porém a fala, a conversação viabilizada por
essa linguagem, continua.
O Diabo como Opositor
Ao tomar ciência do que liga o
Diabo aos deuses antigos pode parecer que tudo se trata de uma mudança de forma
ou assunção de uma “máscara”. Essa ideia é especialmente confortável para quem
almeja uma bruxaria próxima de um neopaganismo, mas é por demasiado simplista e
de certo modo até errada quando considerada em face da bruxaria europeia, seja
tradicional contemporânea, seja histórica. Tal como o Diabo da era cristã carrega
continuidades de seres “pagãos”, ele também carrega continuidades do contexto
religioso no qual o cristianismo nasceu: o judaísmo. A ideia de Satã como o
Adversário ou Opositor, aquele que a mando de Deus testa e acusa a humanidade,
persiste de forma muito viva no diabolismo até hoje. A diferença é que
diferentes correntes de pensamento terão posições distintas sobre o papel do
Opositor ser performado em obediência a Deus ou em rebelião contra ele.
No judaísmo antigo, o posto de Satan
(שָׂטָן) é atribuído a qualquer entidade acusadora,
obstrutora ou opositora, quer humana ou espiritual. Nos textos sagrados, quando
chamado Ha-Satan (הַשָּׂטָן) implica na figura do Opositor angelical,
celestial, um anjo incumbido por Deus de acusar, atacar e se opor à humanidade,
tal como um promotor de justiça em um julgamento criminal. Esse posto, para
alguns, é de um anjo específico, e para outros é um cargo apto a ser ocupado
por qualquer ser angelical a serviço do Eterno.
Toda a carga opositora
existente neste conceito é herdada pelo Diabo do cristianismo, e por
consequência direta ou indireta, pela forma como as bruxas enxergam o Diabo –
sendo ele a continuidade “total” ou “parcial” do deus antigo que for.
O “Portador da Luz”
Outro aspecto onde
continuidades politeístas e abraâmicas se cruzam na figura diabólica é sua
percepção como o mais belo anjo do céu e portador da luz, que caiu na terra
devido ao seu orgulho. A associação deve-se à interpretação da passagem bíblica
referente a profecia de queda do rei da Babilônia, na qual ele é equiparado à
Estrela da Manhã e Filho da Alvorada (Vênus), cuja personificação é chamada
Helel ben Shahar (הֵילֵל בֶּן שָׁחַר):
Como caíste desde o céu, ó
Lúcifer, filho da alva! Como foste cortado por terra, tu que debilitavas as
nações! E tu dizias no teu coração: Eu subirei ao céu, acima das estrelas de
Deus exaltarei o meu trono, e no monte da congregação me assentarei, aos lados
do norte. Subirei sobre as alturas das nuvens, e serei semelhante ao Altíssimo.
E contudo levado serás ao inferno, ao mais profundo do abismo. - Isaías 14:12-15
Quando da tradução deste
trecho, o termo latino utilizado foi Lucifer, significando o Portador da Luz,
nomenclatura utilizada para o mesmo planeta Vênus no mundo romano. Ocorre que
Lucifer não fazia referência somente ao astro, mas ao deus da estrela da manhã,
cujo equivalente grego era Phosphoros (Φωσφόρος) como estrela da manhã, e Eosphoros
(Ἑωσφόρος) como estrela do entardecer. A ideia visual dessa deidade era a de um
jovem alado que ascendia antes do sol ao mais alto céu, e depois decaía
novamente no horizonte. Este jovem deus era descrito como filho de Aurora e um
dos mais belos entre os deuses. A junção destes elementos com a interpretação
cristã da passagem sobre Helel ben Shahar ajudou a consolidar a ideia do Diabo
(o principal dentre os demônios) ser Lúcifer, o anjo mais belo do céu, que
tornou-se orgulhoso, quis tomar o lugar de Deus e por isso caiu, ou melhor, foi
derrubado do Paraíso para o Inferno pelo Arcanjo Miguel. É relevante notar que
Miguel representa o Sol, que ofusca Vênus, e a deidade solar que pode exercer
domínio sobre o espírito do submundo (por isso ele é chamado a compor a
balança em face de Lucifero na stregoneria).
Hesperus - Anton Raphael Mengs (1728-1779)
Essa interpretação gerou dois
efeitos praticamente opostos e contrastantes entre si. Por um lado, Lucifer
tornou-se o sinônimo do mal e de todo pecado contra Deus na religião cristã
hegemônica. Por outro, séquitos gnósticos e vertentes esotéricas do
cristianismo – tanto arcaicas quanto modernas – enxergaram Lucifer como um ser
enviado à terra para “trazer a luz” à humanidade, seja por equipará-lo em
simbologia ao Cristo, seja por uma narrativa de que essa missão seria sua
“redenção” perante Deus após sua revolta celeste. Um dos principais expoentes
dessa ideia é o legado de Madeline Montalban e sua magia angélica, mencionada
extensamente nas obras Pilares de Tubal-Caim e O Livro dos Anjos Caídos.
Vemos esses efeitos da
interpretação em tela combinados e sobrepostos em correntes de pensamento
modernas (principalmente de “mão esquerda”) que cultuam Lucifer como ambas as
coisas: um portador de luz (iluminação espiritual ou gnose), e um
rebelde cósmico, perpetuamente desafiando o Deus bíblico – este último tido
como símbolo de ignorância, aprisionamento e opressão. Inclusive, há linhas de
pensamento nas quais Lúcifer e Satã são entendidos como sinônimos, linhas de
pensamento nas quais eles representam momentos ou aspectos distintos da mesma
entidade, e outras ainda nas quais são vistos como seres separados.
Novamente, quem ou o que é o
Diabo, e o que ele representa, variam enormemente de acordo com a corrente de
pensamento de onde se parte.
O Diabo como Máscara e Artifício
Um dos desdobramentos da carga
ameaçadora conferida à figura do Diabo pelo cristianismo é a sua utilização por
algumas vertentes de cultos marginalizados como máscara intimidadora, ou como
artifício de proteção contra a perseguição que estes cultos sofriam e ainda
sofrem. Em coventículos/covines contemporâneos de bruxaria de raízes ibéricas e
inglesas, muitas vezes o termo “Diabo” é usado para fazer referência ao líder
do grupo, ao Magister (ou Alto Sacerdote quando se trata de uma abordagem
religiosa). Essa nomenclatura teria supostamente surgido como estratégia de
intimidação de pessoas que não faziam parte do culto, ou como descrição do
papel de desafiador muitas vezes assumido pelo iniciador no processo
iniciático.
A mesma coisa se observa em
certo nível na aglutinação afrodiaspórica da imagem e atributos do Diabo a
divindades como Exu, Pambu Njila, Mavambo, ou Legba, e aos espíritos hoje
conhecidos como exus e pombagiras. Frente à perseguição do cristianismo
hegemônico, dizer que você tem o temível Diabo do seu lado como protetor
e vingador poderia em muitos contextos assegurar sua segurança a partir do medo
e da imposição de respeito. Obviamente, não podemos ser reducionistas ou
romantizar o passado acreditando que somente isso explica tudo. Tal como os
santos católicos e os anjos adentraram muitas tradições afrodiaspóricas pelo
sincretismo voluntário de pessoas com multipertença religiosa, e por trocas e
conjunções de saberes tradicionais populares, o mesmo ocorreu com o Diabo e
outros elementos da bruxaria europeia na kimbanda (aqui usando este termo para
me referir à “esquerda” de cultos antigos como o candomblé de caboclo ou o
omolokô). Todos estes processos são complexos, e exigem uma visão ampla das
movimentações e trocas proporcionadas pela história a cada culto e suas
intersecções.
O Diabo de certas Strigarie
Pelo que discutimos até aqui
pode-se ter uma ideia de como as narrativas sobre o Diabo mudam a forma de ver
os seres que originalmente se manifestavam em lugar dele nas práticas mágicas.
Mas qual seria o efeito espiritual prático disso? Em que medida uma
divindade ctônica se manifestará como antes se passar a ser chamada de forma
associada ao mal e à figura do Opositor?
Antes de responder como
enxergamos essa questão, cabe dizer que não existe – e nem pode existir – uma
única resposta que satisfaça a todas as experiências de adeptos da bruxaria e
de outros cultos diabolistas. A nossa resposta implica algum grau de
assertividade para as vertentes próximas ao nosso entendimento
cosmológico e teológico.
Suponhamos que em minha vida
profissional eu me ocupe de duas funções, a de advogado de segunda à sexta e a
de cuidador de cães nos finais de semana. Essas duas funções são muito
distintas e exigem posturas distintas de minha parte. Não posso tratar os
advogados da parte contrária de um processo ou o magistrado com a mesma afetividade
e descontração que cuidar de animais domésticos permite. Para qualquer pessoa
que me observasse nestes dois contextos, seria evidente duas “manifestações”
muito distintas de Draco Stellamare. Possivelmente até antagônicas. O mesmo
ocorre de modo muito mais complexo quando tratamos da invocação e do
desenvolver de um relacionamento de culto ou de pacto com potências cósmicas. A
narrativa que viabiliza essa relação, e a expectativa do interlocutor, são
elementos direcionadores da forma como aquela potência se manifestará caso tudo
seja bem executado. O que os meus hipotéticos empregadores requerem de mim, no
escritório de advocacia ou no trato com os cachorros, determina o padrão de
comportamento que escolho manifestar, ainda que eu seja a mesma pessoa em ambos
os casos.
Na strigaria, a stregoneria
vêneto-friulana da área de onde vieram meus antepassados, a percepção sobre o
Diabo (Lucifero ou Lussifer) é profundamente afetada pela religião hegemônica
em estética e mitologia, mas a sua manifestação traz aspectos claramente
oriundos dos deuses ctônicos e feiticeiros que se sobrepunham na região, onde
muitos povos se misturaram. Na região vêneto-friulana encontramos um amálgama
entre o Dis Pater, o “Hades romano”, a figura tríplice de Trimuzijat
(Trimusiate, correlato ao eslavo Triglav, que congrega um epicentro comum entre
céu e inferno, entre Perun e Veles), e o deus germânico caolho e dependurado em
sacrifício, Odin ou Wodan (cuja pronúncia dialetal é a principal hipótese de
surgimento da cidade de Udine/Udin, e ironicamente também se liga em
sincretismo ao Arcanjo Miguel). Aspectos e elementos simbólicos muito
específicos de todos estes deuses ligados ao submundo ou à magia são
encontrados nas lendas e descrições de Lucifero na bruxaria local.
Lucifero, Lussifer ou ainda
Taufel nas áreas germanizadas, é o senhor absoluto da terra, do seu interior e
das águas que a cercam, em oposição ao Deus bíblico que é o senhor absoluto do
Céu enquanto mundo divino e transcendente. Folcloricamente ele percorre o
mundo, sendo encontrado nas encruzilhadas de quatro caminhos, nos locais ermos
e subterrâneos como cavernas, covas abandonadas, castelos antigos e pontes
construídas por ele em tempos imemoriais. Ele domina os horários da meia-noite
e 3h da manhã, e os momentos sazonais do alto inverno e alto verão, bem como a
noite da Sexta-Feira Santa, o Dia das Bruxas e a noite de Santa Valpurga lhe
são consagrados. A marca de sua associação com as bruxas e bruxos é infligida
nos olhos, e o pacto feito com ele sempre envolve alguma forma de inversão
simbólica, seja se pendurando de cabeça para baixo em uma árvore – como Odin –
ou sendo virado ao contrário “coreograficamente” de variados modos.
Esotericamente, entre os adeptos
de magia erudita ou entre os eventuais camponeses e proletários escolarizados
que conheciam a descrição contida na Divina Comédia de Dante Alighieri e as
representações como as de Trimuzijat e de Janus, a imagem de Lucifero é tida
como triforme, simbolizando o seu domínio sobre três tempos e três mundos. Um
elemento que reforça perante a cosmovisão das tradições bruxas a interpretação
de Lucifero como a manifestação do próprio Deus Pai ou Deus primordial, porém
na Terra e nos Infernos.
Aplicando a lógica de meu
exemplo hipotético da advocacia e dos cães, podemos entender que o Diabo, ao
ser chamado em nossas práticas faz referência a uma potência cósmica
anteriormente interpretada como deuses diferentes em diferentes povos que se
amalgamaram. No entanto, a maneira como ele é compreendido contém também as
necessidades e construções simbólicas do catolicismo popular, onde espera-se do
Imperador do Inferno uma natureza afeiçoada à perversidade ou ao lado obscuro
do cosmos. À “mão esquerda de Deus”.
Lúcifer em ilustração da Divina Comédia
Essa construção narrativa
favorece tanto que a potência cósmica antes reconhecida como um deus se
manifeste em sua forma mais sombria, quanto que os espíritos intermediários que
possibilitam este contato sejam aqueles que melhor se encaixam aos nomes
utilizados pela tradição, e ao sentido que tais nomes carregam. E em uma
terceira via, a mudança de compreensão sobre o ser atrelado a um determinado
nome pode fazer com que outro ser, com as características mais condizentes com
a nova ideia, assuma aquela identidade.
Pelos primeiros motivos mencionados
no parágrafo anterior é que não enxergamos Lúcifer somente como o Portador da
Luz, mas sim como uma deidade suprema da Terra, manifestando-se em sua forma
mais sombria, através de espíritos que podem conduzir uma carga dessa natureza.
E pela terceira razão mencionada, para também exemplificar mais este fato, é
que não concordamos que o Grão-Duque do Inferno, Astaroth, seja a mesma
entidade que a deusa Astarte. Este, junto de outros casos (como a Lilith que se
comporta como “deusa-mãe” acolhedora), é um perfeito exemplo de quando um ser
de natureza mais compatível com a ideia emanada sobre um nome assume aquele
mesmo nome, em detrimento do ser que antes o possuía em outro contexto
cultural/social. Vemos isto constantemente em amálgamas diversos de
religiosidades que se cruzam ao longo da história.
E por isso mais uma vez irei
dizer... Quem ou o que é o Diabo das Bruxas depende do ponto de vista do qual
seus conjuradores estão.
O Diabo “Anticósmico”
Com o advento do ocultismo
moderno surgem muitas outras interpretações de quem seja o Diabo, seja chamado
de Lúcifer, Satã, Samael ou qualquer outro nome que se tenha aglutinado a esse
conceito. Uma das que tem mais expressividade – e que perante o nosso
entendimento faz menos sentido – é a do Diabo como um poder “anticósmico”, ou
seja, contrário ao mundo manifesto e à existência do universo, trabalhando
constantemente para destruí-lo e fazer toda a realidade – incluindo os humanos
que o cultuam – retornar ao caos primordial.
Note que escrevi contrário à existência
do universo, e não contrário a determinadas normas do universo. Desde as
primeiras crenças que admitiram deuses personalizados temos sempre aqueles que
são contestadores – e eles fazem parte do sistema cósmico, ainda que seja causando
problemas aos demais deuses. Logo uma visão do Diabo como “antinomiano”
(contrário às normas da realidade) não é nova. Muitas divindades, espíritos e
pessoas também o são. Nem é nova uma visão do Diabo ou de algumas de suas
bruxas como misantrópicos (com aversão da humanidade). Porém essas
visões antinomianas e misantrópicas são bastante distintas de uma visão
propriamente anticósmica, ao menos considerando um sentido mais literal
da ideia anticósmica de destruir o universo.
As bruxas históricas – e
algumas das contemporâneas – são conhecidas pelo ódio nutrido ao status quo,
ao ser humano comum, ignorante e submisso a dogmas que o escravizam. No
entanto, a relação estabelecida por elas com o Diabo tem a função de enaltecer
suas próprias existências, alçando-as em poder e conquista, em pertencimento a
um cortejo de poderosos iguais, em domínio sobre a matéria que caminha em
paralelo à transcendência, e não sua destruição total. Isso é vislumbrado nas
razões de ser da própria feitiçaria, e do interesse em realizar um pacto
diabólico em benefício próprio.
Obviamente, existem diversas
justificativas teóricas nas vertentes ocultistas que se denominam anticósmicas
para o fato de que elas declaram como objetivo a aniquilação do universo. Em
minha experiência de diálogo, contudo, nenhuma me convenceu ainda de que o
posicionamento anticósmico não é insanidade pura quando literal, e mera
fantasia trevosa quando metafórico. Se alguém um dia me convencer do contrário
me comprometo a reconhecer isso em uma atualização futura deste mesmo texto.
Imperator Inferni, Maioral e os encontros contemporâneos
A presença do Diabo em minha
tradição é uma presença transmitida de forma mítica, pelas histórias onde ele
aparece ou onde as bruxas voam até a Assembleia. Suas influências alcançam os
que ele deseja dentro de uma genealogia posterior ao primeiro antepassado que
com ele se comprometeu, e disso saem sonhos, manifestações mediúnicas e outros
fenômenos. O processo de discernimento sobre essa figura, que executei com o
pouco que tinha em mãos e muitas andanças e estudos, foi lento e levou à
conclusão de que em certos aspectos a mitologia folclórica foi mesclada ao
ciclo de grimórios dos quais fazem parte o Dragão Vermelho e o Grimorium
Verum, ambos publicados no nordeste italiano durante o século XIX. De
acordo com as informações trazidas pelos Antigos, isso adentrou nossa
cosmovisão pela necessidade de suprir uma lacuna que a memória oscilante ao
longo das gerações acabou criando. E funcionou muito bem.
Gravura de Lucifuge (intermediário) na edição italiana do Dragão Vermelho
Assim, além das questões que
vem pela oralidade e pelo ensinamento dos espíritos, parte de nosso trabalho
tem como ferramenta elementos específicos esse ciclo de grimórios, adorado por
alguns praticantes de magia e odiado por outros. É com base na hierarquia
definida nestas obras que compreendemos Lucifero com o título de grande Imperador
do Inferno (Imperator Inferni), uma forma mais erudita de
descrevê-lo como Diàvol Majore (Diabo Maior), ou como se costuma chamar
nos grimórios ibéricos e nas macumbas brasileiras: o “Maioral de Todos os
Infernos”. É também através da hierarquia grimorial que concebemos a existência
de uma corte ao redor do Diabo, incluindo a Trindade Infernal.
É curioso como tais conceitos
foram encontrados em séculos passados na Itália e retornam a ficar em evidência
nos dias atuais. Em alguns terreiros dos cultos provenientes das macumbas
antigas onde se pratica a kimbanda o ser chamado de “Maioral” é a entidade
chefe do sacerdote, ou de um antepassado fundador do espaço. Trata-se do
Maioral daquela comunidade. Já em outros, onde alguma parcela a mais de
influência europeia se consolidou (seja com as bruxarias do passado ou com tendências
modernas), o termo Maioral descreve Lúcifer, o Diabo Maior, ou um dos
demais Arquidemônios mencionados nas hierarquias grimoriais.
Ponto do "Maioral de Todos os Infernos" publicado no polêmico livro Exu, de Aluizio Fontenelle em 1952.
Outro aspecto que vale a pena
mencionar é que encontraremos sempre os veios de significado do Diabo como um
Portador da Luz, um iluminador, mesmo entre alguns praticantes de caminhos
totalmente diabolistas e mais semelhantes aos das bruxas históricas. Num mundo
globalizado onde temos muito acesso a informação torna-se cada vez mais difícil
impedir que conceitos de realidades distintas se conectem em algum tempo e
lugar. Se isso é bom ou ruim, tal como a identidade do Diabo, depende
enormemente do contexto.
O nosso cenário no Brasil
contemporâneo propicia, portanto, uma espécie de nexo onde muitas
definições e interpretações sobre quem é o Diabo das Bruxas se encontram. Em
alguns momentos elas formam amálgamas, permitindo que o diálogo e a tradução
entre linhagens, tradições e praticantes autônomos ocorra com fluidez. Em
outros momentos, elas se chocam de frente ou umas por cima das outras,
demonstrando que podem existir diferenças consideráveis entre as realidades que
as pessoas vivenciam na espiritualidade – principalmente em espiritualidades
marginalizadas como a bruxaria.
Continua na Parte II...
Recomendações para estudos conexos ao tema
deste texto:
Angels or Demons? Interactions and Borrowings
between Folk Traditions, Religion and Demonology in Early Modern Italian
Witchcraft Trials – Debora Moretti
Bruxaria e História – Carlos Roberto
Figueiredo Nogueira
Dicionário dos Demônios – Michelle Belanger
Grimorium Verum
Il Vero Drago Rosso (ou
Le Veritable Dragon Rouge)
Le Veritable Dragon
Noir
Masks of Misrule: The
Horned God & His Cult in Europe – Nigel Jackson
O Livro dos Anjos Caídos – Michael Howard
O Diabo e a Terra de Santa Cruz – Laura de
Mello e Souza
O Imaginário da Magia – Francisco
Bethencourt
O Verdadeiro Evangelho das Bruxas – Ensaio
de minha autoria na antologia A Arte Inominada
Pilares de Tubal-Caim – Nigel Jackson e
Michael Howard
Hands of Apostasy – Antologia organizada
por Michael Howard (destaque para os ensaios de Andrew Chumbley e Radomir
Ristic)
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