A história abaixo foi inspirada nas visões de um sonho-ritual.
E eu a considero um renascimento hodierno de algo que foi ouvido, muito tempo atrás.
Havia um príncipe, num certo país, que se
deleitava todas as noites com uma jovem diferente.
Para garantir que sempre houvesse uma moça jovem e atraente em sua cama, justas somas de dinheiro eram pagas às famílias que oferecessem a virgindade de suas donzelas para o insaciável príncipe.
Eis que um dia, o príncipe desejou duas mulheres na mesma noite, para se deitarem com ele ao mesmo tempo. Como era de costume, a procedência das garotas foi informada previamente, fazendo o príncipe conhecer que uma era filha de um famoso perfumista, e a outra de um humilde jardineiro. A hora dos prazeres chegou com o crepúsculo e ambas as donzelas foram entregues aos aposentos do príncipe.
De imediato um inebriante aroma, mais
delicioso do que qualquer perfume já experimentado pelo príncipe, encheu o
aposento. O aroma era tão estimulante, que fez com que o príncipe se
apaixonasse por ambas as donzelas, e as transformasse em suas concubinas.
Durante algumas noites, ele repetiu os atos
de prazer na companhia de ambas, até que todo vestígio do perfume maravilhoso
gradualmente se dissipasse.
Ansiando por mais daquela experiência, o
príncipe mandou chamar o perfumista, pai de uma das donzelas, e lhe intimou a
produzir mais do perfume que ela usara na primeira noite de amor.
Após alguns dias, o perfume chegou até a
jovem, que o usou para adentrar os aposentos do príncipe como fora ordenado.
Mas para a surpresa do rapaz, o aroma não chegava aos pés daquele que fora
exalado na primeira noite.
Insatisfeito, o príncipe mandou que o
perfumista refizesse o perfume, desta vez corretamente.
Alguns dias depois, a jovem retornou aos
aposentos do príncipe, porém mais uma vez o aroma era diferente - e bem menos
impressionante e duradouro do que o da primeira noite.
Furioso mais uma vez, o príncipe mandou que
o perfumista e sua filha fossem decapitados, e grande pesar recaiu sobre a
cidade após a execução. No entanto, o coração mais pesaroso de todos era o do
príncipe, que acreditava que nunca mais sentiria o encanto que o primeiro
perfume despertara no seu íntimo.
Um ano se passou e - desiludido - o príncipe saiu para andar pelas ruas da cidade, sem rumo.
Eis que de repente, o aroma intenso e sedutor do primeiro perfume, da noite em que se deitara com as duas moças, atingiu suas narinas. A fragrância era tão forte, e tão encantadora, que seu corpo foi levado em transe e apetite voraz até a fonte do cheiro que sentia…
E após alguns minutos, o príncipe chegou à casa do jardineiro, cuja filha se deitara com ele e a filha do perfumista.
Do jardim da casa simplória, brotava um
pequeno arbusto de Dama-da-Noite, com uma única flor aberta, exalando o perfume
ambrosíaco. Aquela espécie de Dama-da-Noite, em especial, era conhecida por
florescer uma única vez por ano, durante uma única noite.
Ali, o príncipe ajoelhou-se e adorou a flor, e ofereceu ao jardineiro algumas moedas de ouro pela planta. O pobre jardineiro recusou, pois o arbusto era a última das posses que restaram de sua falecida esposa, a quem muito amava.
Impaciente, o príncipe ofereceu metade de todo seu reino ao jardineiro, que novamente recusou.
O príncipe então anunciou que voltaria com soldados e levaria o arbusto consigo à força, e o jardineiro implorou para que não o fizesse.
Destituído como era de compaixão, o
príncipe desembainhou sua adaga e a cravou no coração do pobre jardineiro, cujo
sangue respingou e escorreu pela terra do jardim.
O orgulho do príncipe, contudo, esvaiu-se com a vida do jardineiro… pois a flor do arbusto apodreceu instantaneamente ao ser maculada com o sangue do homem que a cultivava, exalando um horrível cheiro de decomposição.
O príncipe caiu de joelhos e, contemplando a mácula que causara à flor que consubstanciava todo o seu Desejo, retirou a adaga do peito do jardineiro e cravou-a em si mesmo, morrendo em seguida.
No Palácio, ao saber do ocorrido, a filha
do jardineiro fugiu para longe, amaldiçoando a si mesma em remorso, com a
loucura lentamente corroendo sua mente.
E no ano seguinte, quando o tempo da
natureza se completou, uma nova flor despontou dos galhos do arbusto, perfeita
em aparência, e perfumada como nunca outrora.
Sozinha no jardim abandonado, ela exalou
para o céu noturno o seu aroma inebriante, e Deus, entre as nuvens, sorriu.
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