Por Draco Stellamare
Vivemos, tal como muitos de nossos predecessores,
em uma época sombria.
Em diferentes aspectos a conjuntura
sócio-política mundial é similar àquela que propiciou a ascensão do nazifascismo
nas primeiras décadas do século XX, e a eclosão da Segunda Guerra Mundial. Já
em outros aspectos, realidades inteiramente novas e assustadoras entram na equação,
como as IA’s e a atuação manipuladora das big techs.
É perturbador vislumbrar que diante do
franco avanço da extrema-direita no nosso país, com a recente ocupação da
maioria das cadeiras do Congresso Nacional, ainda tenhamos uma falha de
percepção tão grande sobre o papel que nos cabe na defesa de direitos e liberdades
individuais.
Trata-se de um período em que nos cabe – se
tivermos alguma lucidez – nos posicionar considerando algo muito mais básico do
que posições comuns de direita e esquerda enquanto matriz econômica, ou birra direcionada
a um partido específico. A disputa em tela é entre os atores que visam a
formação de um Estado autoritário, miliciano e teocrático – confessional e
evangélico –, e os atores que (em coalisão desesperada, diga-se de passagem) desejam
preservar os direitos individuais e sociais conquistados no Estado Democrático
de Direito.
Onde entra a necessidade de pessoas envolvidas
com bruxaria, ocultismo e afins se posicionarem?
Bom, o plano de governo de Flávio Bolsonaro
não possui nada em nosso favor, e até então não há novidade considerando nossa
história pregressa. Porém o seu alinhamento declarado é com as igrejas
neopentecostais que desejam tomar o Estado e acabar com a laicidade, com a
tolerância a diferentes credos e práticas espirituais – especialmente aquelas
que julgam demoníacas como as tradições de matriz africana e tudo que foge ao espectro
protestante. Isso assume a representação máxima na intenção de Flávio em oficializar
que “o Brasil pertence ao Senhor Jesus Cristo”. Cortes em políticas públicas
que são esperados e a própria ligação do excrementíssimo com as milícias
do Rio de Janeiro (em peso neopentecostais, assim como muitos dos traficantes),
são argumentos mais do que suficientes para colocar em cheque qualquer chance
de respeito à diversidade religiosa num país sob o seu mandato.
Mais do que simplesmente incentivar o ódio
contra a população de terreiro, a “caça às bruxas” e a supressão de nossos direitos,
a combinação de Flávio presidente com o Congresso Nacional controlado pela
extrema-direita e mais quatro indicações desse viés ao STF são tudo que é
necessário para encaminhar reformas estruturais na legislação, na Constituição
e na própria estrutura do Estado.
Estamos falando de um possível fim do
Estado Laico, que passaria a ser CONFESSIONAL.
Práticas mágico-religiosas reprovadas pela
moral evangélica podem ser tipificadas como CRIME. Tal como a união homoafetiva
pode ser simplesmente impossibilitada novamente.
Além da perseguição estatal, a própria população
cada vez mais inflamada por esses ideais pode – e vai – colaborar com o
extermínio de tudo que julgamos sagrado, se bobear até nossa própria liberdade
e ir e vir, ou nossas vidas. O mesmo se coloca em face de outras minorias, como
a população LGBT (que se sobrepõe em boa parte do nosso meio), os povos
indígenas e outros. E tudo isso sem mencionar o arregaço anunciado contra a
legislação ambiental, a conservação das florestas, e a preservação do meio
ambiente tão cultuado por todos nós.
Frente a um momento histórico como este, eu
pergunto:
Há cabimento defender que uma neutralidade
política possível entre nós?
Como alguém ensinado mais de uma vez em
meios tradicionais, é de minha compreensão que um posicionamento político X ou
Y não é intrínseco à estrutura da bruxaria – nem de boa parte de outros
caminhos tradicionais. Os bruxos e bruxas de outros séculos nunca tiveram
contexto ou condição de fazer de suas existências uma pauta legislativa e
estabelecer limites à intolerância do meio social. Nós talvez sejamos a
primeira geração a crescer e aderir a práticas mágicas sem ser criminalizados
pelo Estado ou ostensivamente perseguidos pela maior parte da população – o que
muito se deve aos avanços do progressismo na política até pouco tempo atrás, e às lutas de figuras da matriz africana e outras vertentes que ocuparam espaços
e se fizeram reconhecidas. Mas se uma suposta neutralidade ao compreender isso
é cabível quando o debate político se pauta na administração das finanças
estatais, o mesmo não pode ser dito quando a pauta é nossa sobrevivência.
Ou assumimos uma postura defensiva agora,
para ao menos retardar o domínio evangélico do Estado (que parece ser
inevitável), ou nos assumimos como cúmplices desse mesmo domínio. Ou nos
posicionamos, votamos e buscamos estratégias para favorecer o lado da
polarização que menos irá nos agredir, ou somos coniventes com nossos algozes.
Não existe, no Brasil de 2026, um meio
termo para essa escolha.
Sinto dizer isso, mas o nosso meio hoje divide-se
entre aqueles que compreendem o dilema sobrevivencialista que enfrentamos, e aqueles
que se entorpecem com a fantasia de uma possível neutralidade – ou com polêmicas
completamente inoportunas sobre a política fazer ou não parte da bruxaria. Não
menciono nem me preocupo com os que deliberadamente escolhem votar no candidato
narco-miliciano-pentecostal, pois trata-se de uma escória irrecuperável.
A bruxaria pode não ser intrinsecamente
política em termos de doutrina, crenças e objetivos. Mas os bruxos (e todas as
minorias afetadas) precisam ser políticos se esperam sobreviver à
ofensiva evangélica em curso – e com consciência, porque até a desistência ou o
apoio voluntário ao seu próprio opressor é um ato político per se. Nada,
desde o modo como nos vestimos, o que consumimos, e de que forma expressamos
nossas ideias, é isento de ideologia política.
As pessoas podem não se dar conta de quais
ideologias formam seus posicionamentos, mas elas existem e os estudiosos
dedicados às humanidades são capazes de identificá-las.
Cada um de nós se vê diante de dois cursos
de ação:
1) Posicionar-se, votar e militar pela
candidatura de oposição à extrema-direita (a de Lula) na esperança de retardar a
formação de um Estado que nos jogue à marginalidade total.
2) Sentar-se em negação dos fatos ou
soberba de suposta “indiferença da bruxaria em relação à política”, e esperar
pelos dias em que deveremos nos esconder e rezar para não sermos identificados
e postos na fogueira.
Independente do que aconteça, do que cada
um de nós escolher, essa escolha será um ato político. Um ato político que
ficará gravado na história e na memória de quem sobreviver.
O que eu pergunto a vocês é: qual das
escolhas será?
E mais ainda: caso o pior aconteça e você
tiver sido conivente com o derramamento de sangue de seus iguais, e você porventura
escape de igual destino, vai ser capaz de viver em paz com isso?
Quero acreditar que nenhuma das pessoas que
eu ainda admiro o seja.
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