terça-feira, 6 de outubro de 2026

Bruxaria e Política: Um manifesto pela defesa da magia e da sanidade em tempos de crise

 Por Draco Stellamare


"Em Chamas" - Luca Ponsato

Vivemos, tal como muitos de nossos predecessores, em uma época sombria.

Em diferentes aspectos a conjuntura sócio-política mundial é similar àquela que propiciou a ascensão do nazifascismo nas primeiras décadas do século XX, e a eclosão da Segunda Guerra Mundial. Já em outros aspectos, realidades inteiramente novas e assustadoras entram na equação, como as IA’s e a atuação manipuladora das big techs.

É perturbador vislumbrar que diante do franco avanço da extrema-direita no nosso país, com a recente ocupação da maioria das cadeiras do Congresso Nacional, ainda tenhamos uma falha de percepção tão grande sobre o papel que nos cabe na defesa de direitos e liberdades individuais.

Trata-se de um período em que nos cabe – se tivermos alguma lucidez – nos posicionar considerando algo muito mais básico do que posições comuns de direita e esquerda enquanto matriz econômica, ou birra direcionada a um partido específico. A disputa em tela é entre os atores que visam a formação de um Estado autoritário, miliciano e teocrático – confessional e evangélico –, e os atores que (em coalisão desesperada, diga-se de passagem) desejam preservar os direitos individuais e sociais conquistados no Estado Democrático de Direito.

Onde entra a necessidade de pessoas envolvidas com bruxaria, ocultismo e afins se posicionarem?

Bom, o plano de governo de Flávio Bolsonaro não possui nada em nosso favor, e até então não há novidade considerando nossa história pregressa. Porém o seu alinhamento declarado é com as igrejas neopentecostais que desejam tomar o Estado e acabar com a laicidade, com a tolerância a diferentes credos e práticas espirituais – especialmente aquelas que julgam demoníacas como as tradições de matriz africana e tudo que foge ao espectro protestante. Isso assume a representação máxima na intenção de Flávio em oficializar que “o Brasil pertence ao Senhor Jesus Cristo”. Cortes em políticas públicas que são esperados e a própria ligação do excrementíssimo com as milícias do Rio de Janeiro (em peso neopentecostais, assim como muitos dos traficantes), são argumentos mais do que suficientes para colocar em cheque qualquer chance de respeito à diversidade religiosa num país sob o seu mandato.

Mais do que simplesmente incentivar o ódio contra a população de terreiro, a “caça às bruxas” e a supressão de nossos direitos, a combinação de Flávio presidente com o Congresso Nacional controlado pela extrema-direita e mais quatro indicações desse viés ao STF são tudo que é necessário para encaminhar reformas estruturais na legislação, na Constituição e na própria estrutura do Estado.

Estamos falando de um possível fim do Estado Laico, que passaria a ser CONFESSIONAL.

Práticas mágico-religiosas reprovadas pela moral evangélica podem ser tipificadas como CRIME. Tal como a união homoafetiva pode ser simplesmente impossibilitada novamente.

Além da perseguição estatal, a própria população cada vez mais inflamada por esses ideais pode – e vai – colaborar com o extermínio de tudo que julgamos sagrado, se bobear até nossa própria liberdade e ir e vir, ou nossas vidas. O mesmo se coloca em face de outras minorias, como a população LGBT (que se sobrepõe em boa parte do nosso meio), os povos indígenas e outros. E tudo isso sem mencionar o arregaço anunciado contra a legislação ambiental, a conservação das florestas, e a preservação do meio ambiente tão cultuado por todos nós.

Frente a um momento histórico como este, eu pergunto:

Há cabimento defender que uma neutralidade política possível entre nós?

Como alguém ensinado mais de uma vez em meios tradicionais, é de minha compreensão que um posicionamento político X ou Y não é intrínseco à estrutura da bruxaria – nem de boa parte de outros caminhos tradicionais. Os bruxos e bruxas de outros séculos nunca tiveram contexto ou condição de fazer de suas existências uma pauta legislativa e estabelecer limites à intolerância do meio social. Nós talvez sejamos a primeira geração a crescer e aderir a práticas mágicas sem ser criminalizados pelo Estado ou ostensivamente perseguidos pela maior parte da população – o que muito se deve aos avanços do progressismo na política até pouco tempo atrás, e às lutas de figuras da matriz africana e outras vertentes que ocuparam espaços e se fizeram reconhecidas. Mas se uma suposta neutralidade ao compreender isso é cabível quando o debate político se pauta na administração das finanças estatais, o mesmo não pode ser dito quando a pauta é nossa sobrevivência.

Ou assumimos uma postura defensiva agora, para ao menos retardar o domínio evangélico do Estado (que parece ser inevitável), ou nos assumimos como cúmplices desse mesmo domínio. Ou nos posicionamos, votamos e buscamos estratégias para favorecer o lado da polarização que menos irá nos agredir, ou somos coniventes com nossos algozes.

Não existe, no Brasil de 2026, um meio termo para essa escolha.

Sinto dizer isso, mas o nosso meio hoje divide-se entre aqueles que compreendem o dilema sobrevivencialista que enfrentamos, e aqueles que se entorpecem com a fantasia de uma possível neutralidade – ou com polêmicas completamente inoportunas sobre a política fazer ou não parte da bruxaria. Não menciono nem me preocupo com os que deliberadamente escolhem votar no candidato narco-miliciano-pentecostal, pois trata-se de uma escória irrecuperável.

A bruxaria pode não ser intrinsecamente política em termos de doutrina, crenças e objetivos. Mas os bruxos (e todas as minorias afetadas) precisam ser políticos se esperam sobreviver à ofensiva evangélica em curso – e com consciência, porque até a desistência ou o apoio voluntário ao seu próprio opressor é um ato político per se. Nada, desde o modo como nos vestimos, o que consumimos, e de que forma expressamos nossas ideias, é isento de ideologia política.

As pessoas podem não se dar conta de quais ideologias formam seus posicionamentos, mas elas existem e os estudiosos dedicados às humanidades são capazes de identificá-las.

Cada um de nós se vê diante de dois cursos de ação:

1) Posicionar-se, votar e militar pela candidatura de oposição à extrema-direita (a de Lula) na esperança de retardar a formação de um Estado que nos jogue à marginalidade total.

2) Sentar-se em negação dos fatos ou soberba de suposta “indiferença da bruxaria em relação à política”, e esperar pelos dias em que deveremos nos esconder e rezar para não sermos identificados e postos na fogueira.

Independente do que aconteça, do que cada um de nós escolher, essa escolha será um ato político. Um ato político que ficará gravado na história e na memória de quem sobreviver.

O que eu pergunto a vocês é: qual das escolhas será?

E mais ainda: caso o pior aconteça e você tiver sido conivente com o derramamento de sangue de seus iguais, e você porventura escape de igual destino, vai ser capaz de viver em paz com isso?

Quero acreditar que nenhuma das pessoas que eu ainda admiro o seja.

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