segunda-feira, 28 de setembro de 2026

Marseille, um poema de 1834




Reergue-te, recobra
A força perdida;
Ó alma cansada,
Conhece a vida.
Tua pátria é o exílio,
Tua sede o perigo,
Tua lei é o amor.

Deserta é a estrada,
Distante a meta:
Solitária segues,
Nem triste nem leda.
Da Itália o pensamento
(Tremendo mistério)
Guardas sempre no coração.

A vida seja pura,
A esperança seja clara:
A voz responda
À alta desventura.
Seja sincero o indigno,
O afeto seja digno
De tanta beleza.

Qual homem a embriaguez
Dos casos felizes,
A acre doçura
Dos fáceis amigos,
Os desdéns, o rancor,
O orgulho, a dor
Poderá combater?

És pobre e só:
Ajudas ao teu zelo,
Confortos à tua dor
Não tens senão do céu.
Não das ásperas fadigas,
Nem das iras inimigas,
Mas teme de ti mesmo;

Do vão do teu coração,
Que, infiel a si próprio,
O vigor inato,
Atravessado, comprimido,
A modo de espada
A aguçar a pena
Virá contra si mesmo.

De ti mesmo te apavora;
Dos anos passados
Os sonhos recorda,
As angústias, os pecados,
Ó alma cansada:
Retoma, reanima
O incerto valor.

E vós, que as chaves
Do tempo guardais,
Memórias suaves
De alegrias secretas,
De estudos silenciosos,
De quietas virtudes,
De pranto e de amor;

Com as asas pairantes
Cobri-me, e escudo
E vara, ó, sede
Ao pobre nu,
Que vai peregrino,
E o próprio destino,
Andando, não sabe.

Se o cego, ó Senhor,
Desvia do seu curso,
Uma nova dor
Lhe ensine o remorso.
Um acre delírio,
Ou um doce suspiro
Minha vida será.

 

- Niccolò Tommaseo, Marselha, 1834. Traduzido do italiano por Draco Stellamare para citação em obra futura.

quinta-feira, 17 de setembro de 2026

F.N.V.E - Nossa Força é a Verdade

Por Draco Stellamare



Tempos atrás eu escrevi um texto sobre bruxaria hereditária intitulado “quando a verdade se torna mentira”, disponível aqui no blog. O intuito era justificar que apesar de muitas nuances complicadas inerentes ao tema, existem sim linhagens de bruxaria dentro de sucessão familiar e (até então) desassociadas do movimento ocultista moderno. Contra a minha vontade, o assunto se repete constantemente em nosso meio, e como eu agora possuo iniciados que levam em boa-fé essa tradição para além da minha pessoa, penso ser justo com os descendentes leais fornecer algum terreno maior para argumento de legitimidade, caso precisem no futuro. Outro aspecto do assunto é permitir que os futuros iniciados tenham como honrar suas raízes, podendo em algum nível falar sobre elas se desejarem. Assim, o motivo desse post é permitir que meus descendentes tenham mecanismos de justificar sua história se necessário e também honrá-la conforme acharem adequado. O que direi a seguir é sobre nós, Stellamare, e não tem relações diretas ou indiretas com quaisquer outras sendas de bruxaria que não a nossa.

sexta-feira, 11 de setembro de 2026

O Deus de meus Pais

Poema de Caio Palù





Oh Deus de meus pais, e dos pais de meus pais

Não me abandone, não se afaste de mim!

Pois eu me lembro de tua face hoje ainda mais

Do que nos idos de tormentos passados, sem fim.

 

Tua face incognoscível, bela e terrível,

Tal qual a face de meus pais, e dos pais destes,

Elo por elo de uma corrente infindável

Que remonta ao barro e aos fogos celestes.

 

Como a junção das raças de Samael e Adão,

Fomos lançados no mundo a manter o girar da roda

Arando a terra e ceifando a erva para obter o pão

Sangrando, gemendo e chorando, tentando alcançar a corda

[da salvação]

 

A corda essa, urdida dos fios dourados acobreados

fiados na roca de prata de Nossa Senhora

Ergue os fortes por sobre a Árvore da Vida, extasiados

Para o Absoluto orgasmo e o mar que tudo devora

 

Clamo ao Senhor, Deus do Universo

Incompreensível aos ouvidos da razão

Vejo-Te com o tato de um toque inverso

Sinto-Te com os olhos do Coração!

 

E minha alma se rasga, de dor e de tristeza

Pois se ainda o vejo no mundo, não mais o encontro em meus irmãos

Raros são os olhos em que se reflete Tua beleza

Mais raras ainda a carne que imite o movimento de Tuas mãos!

 

Oh Deus, não me esqueça, por que eu não me esqueço de Ti

 

Meu corpo é atavismo, minha alma memória,

E meu coração lembrança e amor

Todos os três Submissos a Ti, em glória,

Tal qual a abelha se submete à Flor.


 




05/05/2026

segunda-feira, 7 de setembro de 2026

DIABO: Parte III – Ritos e magia

Por Draco Stellamare

Para finalizar este texto, nesta terceira parte iremos abordar alguns aspectos mais ritualísticos e pragmáticos da presença diabólica nas nossas tradições, fazendo um apanhado sobre pactos, relacionamento quotidiano e métodos feiticeiros ligados ao Diabo. O tema dos “pactos” é um que assombra até mesmo pessoas da comunidade ocultista, então parece um bom ponto para começar.




É necessário alertar que nem tudo que será aqui descrito é praticado exatamente dessa forma em nosso contexto, inclusive porque nem tudo pode ser dito, e também porque várias coisas que foram comuns às bruxarias no passado hoje são inviáveis pela lei ou pelos próprios modos de vida da modernidade. Nada aqui tem o intuito de encorajar práticas perigosas ou possam ter implicações legais para os envolvidos. Portanto, que o leitor receba essas informações apenas como ensinamento teórico a respeito de práticas tradicionais que somente terão sentido se contextualizadas em cada caminho, trajetória e bom senso.