segunda-feira, 7 de setembro de 2026

DIABO: Parte III – Ritos e magia

Por Draco Stellamare

Para finalizar este texto, nesta terceira parte iremos abordar alguns aspectos mais ritualísticos e pragmáticos da presença diabólica nas nossas tradições, fazendo um apanhado sobre pactos, relacionamento quotidiano e métodos feiticeiros ligados ao Diabo. O tema dos “pactos” é um que assombra até mesmo pessoas da comunidade ocultista, então parece um bom ponto para começar.




É necessário alertar que nem tudo que será aqui descrito é praticado exatamente dessa forma em nosso contexto, inclusive porque nem tudo pode ser dito, e também porque várias coisas que foram comuns às bruxarias no passado hoje são inviáveis pela lei ou pelos próprios modos de vida da modernidade. Nada aqui tem o intuito de encorajar práticas perigosas ou possam ter implicações legais para os envolvidos. Portanto, que o leitor receba essas informações apenas como ensinamento teórico a respeito de práticas tradicionais que somente terão sentido se contextualizadas em cada caminho, trajetória e bom senso.

 

Pactos Menores

A distinção entre pactos menores e maiores espelha a classificação de pactos trazida por escrito no Il Vero Drago Rosso (mais  conhecido como o Grande Grimório), publicado em Milano em 1868. Todo pacto estabelecido com um ser espiritual é como um acordo no qual se oferece algo para receber outra coisa em troca. Quando as pessoas fazem promessas aos santos ou às almas no catolicismo, isso também é um pacto. Logo, os pactos diabólicos e demoníacos funcionam em princípio de forma parecida.

Os pactos menores, em nosso contexto, são aqueles que o invocador estabelece com alguma entidade para obter um resultado específico, propondo algo em troca. Quando tratamos do Diabo, de Lucifero Majore e seus intermediários, essa pactuação ocorre através da entrega de uma oferenda ou sacrifício apto a “pagar” pelo que se requer. No Dragão Vermelho e no Grimorium Verum temos o exemplo de um desses pactos menores quando o karcista – aquele que invoca – conjura o intermediário Lucifuge Rofocale para que ele traga tesouros e riquezas. Especificamente no contexto do grimório, o karcista promete a si mesmo como paga do Inferno e depois roga perdão a Deus para ser salvo, como forma de “enganar” o demônio – algo muito comum na magia popular e que se reflete nos mitos de santos bruxos como Cipriano ou Cristóvão Reprobus. Esse elemento da “entrega de si mesmo” é um ponto que aproxima o pacto menor do grimório ao pacto maior realizado numa iniciação em bruxaria.

Pelo método grimorial, tudo começa com a obtenção dos instrumentos necessários à feitura do círculo mágico, que pode ser feito com a pele de um cabrito sacrificado ou com giz comum, desde que propriamente abençoado e com os encantamentos da tradição para consagrar o espaço. O círculo proposto no livro é em muitos aspectos similar aos círculos básicos que se utiliza em stregoneria, possuindo somente o traçado com elementos específicos e no máximo nomes e símbolos de Jesus, Maria, Miguel ou outra presença celestial.

Queimando os incensos propícios a Lucifero – como a mirra, por exemplo –, e acendendo o fogo sagrado com as oferendas de costume a ele devidas, o karcista realiza as rezas e invocações prévias para ser amparado pelos poderes de sua tradição ou ancestralidade, podendo incluir também orações próprias ao Imperador do Inferno. E então ele conjura algumas vezes as palavras invocatórias de Lucifero junto às demais exortações que entenda devidas:

 

Lucifero, Ouyar, Chameron, Aliseon, Mandousin, Premy, Oriet, Naydrus, Esmony, Eparineson, Estiot, Dumoston, Danochar, Casmiel, Havras, Fabelleronthon, Sodirno, Peathan, Venite Lucifer. Amen.

 

Enquanto o faz, a vara forcada é usada como cetro de autoridade. Pelo grimório ela possui pontas de aço que são aquecidas no fogo sagrado, e usadas como “arma” contra o emissário de Lucifero. Na tradição, a forquilha pode ter outras formas e ela é batida no chão em frente do fogo e girada em sentido anti-horário reiteradas vezes, evocando o poder da Madonna na encruzilhada em Y.

Com a chegada do espírito intermediário, seja dentro do círculo, fora dele ou no triângulo – pois isso depende de como o rito em si está estruturado – a negociação se inicia, mais facilmente amparada por um bom oráculo de confirmação. As bruxas e feiticeiros populares tem uma tendência a trabalhar em harmonia e bilateralidade com os espíritos, de modo que acordos são feitos na base de um toma lá, dá cá. Contudo, é sabido pela tradição que os demônios de natureza infernal podem muitas vezes tomar coisas demais se encontrarem uma brecha no acordo. Certa vez uma pessoa esteve diante de um dos nossos intermediários para um acordo com um dos Arquidemônios e o preço solicitado pelo que se desejava era a perda de alguém que lhe faria sofrer muito. Aceitar acordos sem ampla reflexão e análise, em especial com Lucifero ou qualquer Arquidemônio com poder suficiente, pode levar a sérias e irreversíveis consequências. Não é por outro motivo que os mitos tradicionais falam da aptidão para “enganar o Diabo” que a bruxa deve desenvolver.

Para além do rito grimorial que citei, os mecanismos da strigaria para tratar com Lucifero envolvem alguns dos mesmos pressupostos, porém de modo mais orgânico. É fundamento tradicional a veneração do fogo sagrado mesmo quando se lida com o Inferno, pois ele é um e o mesmo, seja nas alturas ou nos abismos. Diante deste, as oferendas são feitas, os seres são conjurados à presença no local e os feitiços performados, de modos que eu comentarei conforme possível mais à frente.

Voltando o foco para os pactos menores, podemos dizer que eles existem para concretização de objetivos pontuais e específicos, delimitados de alguma maneira no amplo espectro do caminho do bruxo. A exemplo, quando se faz um pacto para obter uma promoção no trabalho, ou para curar uma pessoa, ou para atacar um inimigo. Essas finalidades pontuais costumam ser as mesmas buscadas com a prática da feitiçaria e não raro as duas coisas acontecem em conjunto, ao maior estilo do “vou fazer esse acordo aqui e você me ajuda para que este feitiço surta o efeito desejado”.

Assim, os pactos menores não são iniciáticos, por mais que possam produzir efeitos por todo o tempo de vida do indivíduo pactuado – a exemplo dos (geralmente malfadados) pactos de riqueza ou amor. De modo geral, seja por um rito mais cerimonial ou mais rústico, o mais sábio é procurar um pacto menor para resolver algo pontual, ou atender a uma necessidade bem delimitada, com um pagamento muito bem delimitado. Resultados muito grandiosos ou improváveis exigirão pagamentos igualmente grandiosos e absurdos, e nos quais muitas brechas existem para que o Diabo destrua sua vida por entretenimento. Todo ocultista moderno já ouviu dizer que ao pedir para um espírito te fazer perder peso ele pode fazer você sofrer um acidente e perder as duas pernas... Isso se aplica em quase todas as situações em que se barganha com o abaixo, mesmo tendo sucesso em acessar as potências pretendidas.

Há uma frase que circula entre alguns tradicionalistas como resposta a tentativas imprudentes de contato com deidades obscuras: na melhor das hipóteses, ele(a) não te escutou e não vai acontecer nada, e, na pior das hipóteses, ele(a) te ouviu e vai te dar o que acha que você merece.

 

Pacto Maior

Se os pactos menores são trocas ou parcerias formadas em vista de finalidades específicas, o que chamamos de pacto maior é um vínculo de comunhão plena de corpo, alma e espírito. Um vínculo iniciático em próprio direito.

Apesar da vasta quantidade de referências culturais às bruxas vendendo a alma ao Diabo, e da fórmula tradicional de obtê-lo perpassar essa linguagem, é preciso entender dentro da cosmovisão da bruxaria o que isso significa. O oferecimento de si em corpo, alma e espírito só é possível através da iniciação, que vincula por uma corrente de poder o iniciado à fonte espiritual de sua iniciação. Em resumo, aquilo que acontece na Igreja quando os membros se consideram “um só corpo e um só espírito” ou quando buscam que o Coração de Jesus seja um com o seu próprio, para que eventualmente tenham pleno acesso à vida eterna, é o que as bruxas formalizam com o Deus do abaixo quando da realização do pacto maior. Ao invés de uma perspectiva de vida eterna como salvação, na bruxaria isso se adapta ao entendimento de divinização, ao poder para um dia caminhar de modo similar aos deuses, e ir e vir entre este mundo e o Outro conforme bem entender.

É por ter em vista conquistar poder, de modo amplo e definitivo, que aquilo que é solicitado de Lucifero no pacto maior restringe-se – se a pessoa for esperta – ao ganho de força espiritual para que ela própria possa, através da magia, conseguir realizar os seus intentos. Quando se pede algo do mundo material como riqueza ou amor, e se espera que o Diabo providencie ao invés de ir atrás com suas próprias mãos, o resultado tende a ser irônico e bastante destrutivo – como ganhar na loteria e morrer no dia seguinte, ou ter um relacionamento de uma vida inteira com um companheiro abusivo.

À luz disso e do que já discutimos nas outras partes deste texto, fica claro que o caminho de uma bruxaria ligada ao Diabo não é um caminho para pessoas inocentes, estúpidas ou inconsequentes. Essa estrada cobra um alto preço que se não for gerenciado com astúcia (e malícia!) pode ser pago de modo devastador.




Mas quais os mecanismos pelos quais esse pacto é feito?

Na parte II deste texto eu trouxe a citação do depoimento de Maria Panzona, que representa uma das formas tradicionais mais difundidas. À meia-noite em ponto, o interessado vai até a encruzilhada de quatro caminhos e lá realiza alguma forma de inversão simbólica, paga um preço para ser ouvido e profere seus votos. Se o Diabo comparecer e aceitar, estará feito, se não, azar de quem tentou. A meia-noite e a encruzilhada são algumas dentre muitas sessões liminares do Cosmos, como os umbrais das portas, as praias, os cemitérios, as cavernas, o alto de uma montanha etc. Por meio dos espaços liminares a bruxa contempla os poderes maiores que estão além da realidade manifesta, e por isso Lucifero é encontrado em tais locais.

De modo similar, o processo de inversão simbólica representa o caminho de volta para o poder bruto anterior à manifestação na matéria. Também por ser uma “reversão da ordem” esse processo alinha o praticante ao poder infernal que exerce pressão contrária à do celestial. Naquele momento, a força que vem de baixo carrega a intenção ao espírito mais do que a força que vem de cima perpetua a ordem manifesta. Maria Panzona testemunha três cambalhotas, mas há aqueles que ficam de ponta-cabeça, aqueles que giram sobre si mesmos, os que invertem o lado das roupas etc. Em seguida, ela fala sobre a renúncia ao Deus da Igreja e aqui vislumbramos o ato de blasfêmia (já comentado por mim neste outro texto). O sentido é “quebrar” a ordem estabelecida na psiquê do iniciando e abrir espaço para liberdade e poder amorais se instalarem.

O preço pago para que a proposta de pacto seja aceita varia enormemente de caso para caso, não sendo incomum que se deva ofertar uma imolação. Antigamente se fazia isso na própria crosara, marcando com o sangue os quatro caminhos e o centro, ou dentro de uma cova, e em ambos os casos com a presença do fogo sagrado, como costumeiro.

Ao final, os votos comprometem a pessoa e toda sua descendência – se o pacto for aceito – a estarem em comunhão com Lucifero Majore. De modo similar é falado nas bruxarias inglesas tendo uma mão sobre a cabeça e outra sobre o pé que tudo que está entre elas pertencerá ao Diabo, assim como o que desse “tudo” descender. Uma vez consumado, pouco importa se a pessoa irá se arrepender e mudar de caminho, ou se seus descendentes não vão querer esse contato com o diabólico. O pacto maior, tal como uma iniciação tradicional, não é possível de ser desfeito. A escolha sobre quem herdará o pacto e quem será provocado a exercitá-lo é unicamente do Imperator Inferni e da ancestralidade pela qual essa herança é transmitida. Não aceitar essa provocação, quando ela chega, é uma receita quase certa para a loucura e a desgraça.

 

Culto ou parceria?

Estabelecido o vínculo, o Diabo torna-se parte da espiritualidade da pessoa, tal como um santo de devoção com o qual se estabelece uma parceria intercessora. É em razão disso que – tal como é citado na obra La Stregoneria in Italia de Andrea Romanazzi – o Diabo foi chamado por muitos de “Santo Demonio”. A relação pode ser mais devocional em alguns momentos, mas se caracteriza muito mais por uma parceria de ofício, uma instrumentalização, do que por um culto religioso (ou no caso, contra religioso).

A strigaria praticada em área vêneto-friulana costuma possuir um ícone de Lucifero, normalmente uma estátua ou boneco – de onde se tira o nome bambole – que é transformado numa “janela de contato” com o Majore e seus intermediários, e tratado como se fosse o próprio Diabo em forma física. Esse ícone traz a influência do Diabo para o espaço onde se encontra, de modo que se necessário ela é acorrentada com preces para conter os impactos que pode causar. A estátua de bronze do demônio que supostamente Aquino Turra possuía e que foi mencionada em seu processo inquisitorial era muito provavelmente o seu bambole. Também a bruxa filmada por Luigi di Gianni em Napoli no seu documentário L’Attaccatura (1971) possui um bambole de palha, e eu teorizo que esse costume chegou no Sul através das trocas e invasões entre Venezia e a região da Puglia, de onde vem a “maga” mostrada no filme.




Usualmente, o bambole é feito de algum material resistente como bronze, ferro ou pedra. Quando são usados bonecos de pano ou de palha, ou materiais frágeis como porcelana ou gesso, ele recebe um coração de pedra ou metal que possibilita a ancoragem da força espiritual. Elena Righetto descreve no livro Folklore e Magia Popolare del Veneto que até mesmo a carta do arcano XV do Tarô já foi usado pelas bruxas venezianas como bambole, visando transportá-lo e ocultá-lo facilmente.

No rito tradicional em que se chama Lucifero, o bambole deve estar presente assim como o fogo, e devidamente acordado para receber o que será entregue e o que será requerido. Também não é incomum que seus intermediários recebam receptáculos próprios, que as tradições do nordeste italiano costumam fazer nas ânforas ou em garrafas de vidro. A vara forcada, o sino, e outras ferramentas são usadas no chamado, que percorre circunstâncias similares às do rito grimorial no sentido de ser antecedida por chamados aos poderes que guardam e orientam o executor do rito.

 

Feitiçaria comum

A principal instrumentalização do poder diabólico é o seu emprego em feitiços quotidianos, como reversões de malefício, lançamento de malefício, cura de uma pessoa ou animal (normalmente pela transferência de hospedeiro) e questões de sobrevivência e prosperidade em geral. São usadas velas negras – tradicionalmente eram feitas em séculos passados com cinzas mágicas –, velas brancas comuns, oferendas ao fogo sagrado e ao bambole, cordas com nós, pregos, agulhas, tesouras e todo o arsenal próprio da magia folclórica conforme a maior conveniência. É comum que para algumas finalidades as velas sejam invertidas com um novo pavio feito na base. Os espaços liminares e horários associados a Lucifero também são rigorosamente observados pelos praticantes.

 

Feitiçaria de viés “sabático”

O nível mais complexo de magia ligado à questão diabólica a meu ver são os rituais que ecoam uma simetria com o rito fora do tempo e do espaço, conhecido como sabbat e por nós chamado de Assembleia. Nestes ritos, deve-se performar o mesmo tipo de organização que comentei ao citar a conjuração do Drago Rosso: o fogo sagrado no centro, o bambole ou outra representação de Lucifero à frente, e os instrumentos e oferendas que serão empregados. A bruxa pode – se tiver preparo para isso – fazer o ritual em sua própria casa, mas também é tradicional que seja feito na encruzilhada ou em espaços inóspitos.

Canções específicas existem em simetria aos sons da Assembleia e elas são relembradas conforme se circula em sentido anti-horário o fogo, e cada tradição tem seus próprios costumes sobre como o “sabá” é reencenado para que suas influências se manifestem. Diante do fogo e do bambole, com a presença dos Antigos e tudo que convir, a bruxa faz os seus feitiços em simbiose com o poder que flui pela comunhão com o rito primordial.




Este é o melhor dos momentos para pagar o Diabo por maior força no feitiço, ou para negociar com seus emissários os pactos menores e as atividades de interesse comum.

Outro exemplo bom que pode ser dado é o ritual de “libertar o diabo” descrito por Radomir Ristic no seu ensaio para a antologia Hands of Apostasy, que transcrevo em tradução própria a seguir:

 

O ritual de bruxaria tradicional descrito abaixo não foi publicado completamente, mesmo em sérvio, e nunca foi traduzido e publicado em inglês. Ele é chamado de 'Liberte o Diabo' e é realizado para vários propósitos, benéficos e maléficos, incluindo magia de amor e escravizar e controlar o espírito de outra pessoa.

(...)

A bruxa joga uma ferradura no fogo, tendo pendurado acima dele nove plantas diferentes. O tipo [de planta] varia dependendo do propósito do trabalho. Pavlovski não diz quais plantas são essas, mas Veselin Cajkanovic em seu livro Recnik srpskih narodnih verovanja o biijkama descreve as plantas usadas. Elas são: hissopo, bálsamo, violeta, cravo, segurelha, manjericão, calêndula, sempre-viva-anã e Centuara calcilrapal. Após várias horas secando essas plantas sobre as chamas do fogo, a bruxa as retira e diz a seguinte invocação sobre elas:

Ferro forjado! Eu não sou ferro forjado, mas o Diabo acorrentado! Se você é o Diabo acorrentado, saia para secar e vá para onde for enviado! Para rastejar no coração de .. [inserir nome]! Para procurar .. de cidade em cidade, de aldeia em aldeia, de casa em casa, de trabalho em trabalho, de estrada em estrada, de cama em cama, de mesa em mesa, e da mesa pular para a colher e da colher para a barriga de ..! Procure-os com açoite de fogo, açoite-os e traga-os para mim, para que eles não possam ficar de pé, para que não possam dormir, para que não possam comer, para que não possam encontrar paz em sua própria casa, até que venham a mim! Com seus olhos eles olharão, com sua boca eles falarão, por outros eles não procurarão! Se você fizer isso por mim, eu o alimentarei com uma galinha no café da manhã, eu o alimentarei com uma galinha no almoço, e para o jantar uma galinha e uma cabaça cheia de vinho!

 

Depois de recitar estas palavras, a bruxa sacrifica três galinhas como uma oferenda ao Diabo. Ela as pendura na árvore perto da encruzilhada e também deixa uma garrafa de vinho tinto como uma oferta adicional. Ao voltar para casa, ela esmaga as nove plantas em pó e secretamente as coloca sob o travesseiro da pessoa cujo afeto é desejado. Após este ato final, o feitiço deve então fazer todo o trabalho e a bruxa pode esquecê-lo até que o resultado seja alcançado.

 

A performance deste ritual dos Bálcãs é muito simétrica aos ritos sabáticos da strigaria e à forma pela qual se oferenda determinados espíritos. A utilização do fogo como centro divino do Cosmos não é arbitrária, ela obedece a uma tradicionalidade intrínseca a estes caminhos, e revela a face do Deus primordial que é visto tanto no Deus do céu quanto no Deus dos Infernos. O abate animal cumpre funções diversas e também pode estar presente em nossas tradições, mas em geral tudo é aproveitado, seja para alimentação ou para produzir insumos para a prática feiticeira. E ao final, quando o autor explica o sentido do nome do rito, revelando a compreensão de que o Diabo pode ser acorrentado ou libertado simbolicamente, temos mais um elemento em comum com a strigaria vêneto-friulana, através do aprisionamento do bambole e da própria dinâmica entre Lucifero e Miguel Arcanjo.

 

Para encerrar...

Este longo texto teve o propósito de colaborar com o entendimento do leitor acerca da questão diabólica em nossas bruxarias, dando uma perspectiva um pouco mais ampla do que as que eu havia dado anteriormente. Contudo, muito além do que eu escrevi aqui poderia ser dito, não sem riscos e não sem polêmicas.

A presença do Diabo na bruxaria é talvez uma das principais, e a que dá o caráter propriamente “bruxo” às tradições. Por motivos que não são inteiramente maliciosos, muitas pessoas fizeram enorme esforço ao longo das últimas gerações para esconder essa presença, ou transformá-la em outra coisa, mais palatável. Devemos compreender as razões desse esforço, mas também entender que se é nosso objetivo lidar com a realidade sobre a tradição a presença do Diabo é inescapável.

Penso que tal como a natureza envolve aspectos violentos, como o predador matando a presa, a mãe que consome parte das crias, o parasita que se instala em um hospedeiro, também a espiritualidade deve ser reconhecida como algo que contém em si aspectos obscuros, assustadores, mas ainda assim necessários como parte do Todo.

O que determina quem vive e quem morre, quem usufrui e quem sofre, em geral, é a aptidão de cada um para sobreviver e prosperar nesse meio ambiente áspero.

Também isso – a aptidão – é o que favorece às bruxas extraírem boa fortuna de sua relação com o Diabo, ou perecerem através dela.

Espero que a leitura esclareça algumas dúvidas e que os leitores astutos tenham o que é preciso para “enganar o Diabo”, como as bruxas de Cividale...

 



Referências desta parte do texto

La Stregoneria in Italia – Andrea Romanazzi

Folklore e Magia Popolare del Veneto – Elena Righetto

Il Vero Drago Rosso

Grimorium Verum

Hands of Apostasy – Antologia organizada por Michael Howard (destaque para os ensaios de Andrew Chumbley e Radomir Ristic)

 

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