Por Draco Stellamare
Para finalizar este texto, nesta terceira parte iremos abordar alguns aspectos mais ritualísticos e pragmáticos da presença diabólica nas nossas tradições, fazendo um apanhado sobre pactos, relacionamento quotidiano e métodos feiticeiros ligados ao Diabo. O tema dos “pactos” é um que assombra até mesmo pessoas da comunidade ocultista, então parece um bom ponto para começar.
É necessário alertar que nem tudo que será aqui descrito é praticado exatamente dessa forma em nosso contexto, inclusive porque nem tudo pode ser dito, e também porque várias coisas que foram comuns às bruxarias no passado hoje são inviáveis pela lei ou pelos próprios modos de vida da modernidade. Nada aqui tem o intuito de encorajar práticas perigosas ou possam ter implicações legais para os envolvidos. Portanto, que o leitor receba essas informações apenas como ensinamento teórico a respeito de práticas tradicionais que somente terão sentido se contextualizadas em cada caminho, trajetória e bom senso.
Pactos Menores
A distinção entre pactos menores e maiores espelha a
classificação de pactos trazida por escrito no Il Vero Drago Rosso (mais conhecido como o Grande Grimório), publicado
em Milano em 1868. Todo pacto estabelecido com um ser espiritual é como um
acordo no qual se oferece algo para receber outra coisa em troca. Quando as
pessoas fazem promessas aos santos ou às almas no catolicismo, isso também é um
pacto. Logo, os pactos diabólicos e demoníacos funcionam em princípio de forma
parecida.
Os pactos menores, em nosso contexto, são aqueles que o
invocador estabelece com alguma entidade para obter um resultado específico,
propondo algo em troca. Quando tratamos do Diabo, de Lucifero Majore e seus
intermediários, essa pactuação ocorre através da entrega de uma oferenda ou
sacrifício apto a “pagar” pelo que se requer. No Dragão Vermelho e no Grimorium
Verum temos o exemplo de um desses pactos menores quando o karcista –
aquele que invoca – conjura o intermediário Lucifuge Rofocale para que ele
traga tesouros e riquezas. Especificamente no contexto do grimório, o karcista
promete a si mesmo como paga do Inferno e depois roga perdão a Deus para ser
salvo, como forma de “enganar” o demônio – algo muito comum na magia popular e
que se reflete nos mitos de santos bruxos como Cipriano ou Cristóvão Reprobus.
Esse elemento da “entrega de si mesmo” é um ponto que aproxima o pacto menor do
grimório ao pacto maior realizado numa iniciação em bruxaria.
Pelo método grimorial, tudo começa com a obtenção dos
instrumentos necessários à feitura do círculo mágico, que pode ser feito com a
pele de um cabrito sacrificado ou com giz comum, desde que propriamente
abençoado e com os encantamentos da tradição para consagrar o espaço. O círculo
proposto no livro é em muitos aspectos similar aos círculos básicos que se
utiliza em stregoneria, possuindo somente o traçado com elementos
específicos e no máximo nomes e símbolos de Jesus, Maria, Miguel ou outra
presença celestial.
Queimando os incensos propícios a Lucifero – como a mirra, por
exemplo –, e acendendo o fogo sagrado com as oferendas de costume a ele
devidas, o karcista realiza as rezas e invocações prévias para ser amparado
pelos poderes de sua tradição ou ancestralidade, podendo incluir também orações
próprias ao Imperador do Inferno. E então ele conjura algumas vezes as palavras
invocatórias de Lucifero junto às demais exortações que entenda devidas:
Lucifero,
Ouyar, Chameron, Aliseon, Mandousin, Premy, Oriet, Naydrus, Esmony, Eparineson,
Estiot, Dumoston, Danochar, Casmiel, Havras, Fabelleronthon, Sodirno, Peathan,
Venite Lucifer. Amen.
Enquanto o faz, a vara forcada é usada como cetro de
autoridade. Pelo grimório ela possui pontas de aço que são aquecidas no fogo
sagrado, e usadas como “arma” contra o emissário de Lucifero. Na tradição, a
forquilha pode ter outras formas e ela é batida no chão em frente do fogo e
girada em sentido anti-horário reiteradas vezes, evocando o poder da Madonna na
encruzilhada em Y.
Com a chegada do espírito intermediário, seja dentro do
círculo, fora dele ou no triângulo – pois isso depende de como o rito em si
está estruturado – a negociação se inicia, mais facilmente amparada por um bom
oráculo de confirmação. As bruxas e feiticeiros populares tem uma tendência a
trabalhar em harmonia e bilateralidade com os espíritos, de modo que acordos
são feitos na base de um toma lá, dá cá. Contudo, é sabido pela tradição que os
demônios de natureza infernal podem muitas vezes tomar coisas demais se
encontrarem uma brecha no acordo. Certa vez uma pessoa esteve diante de um dos
nossos intermediários para um acordo com um dos Arquidemônios e o preço
solicitado pelo que se desejava era a perda de alguém que lhe faria sofrer
muito. Aceitar acordos sem ampla reflexão e análise, em especial com Lucifero
ou qualquer Arquidemônio com poder suficiente, pode levar a sérias e
irreversíveis consequências. Não é por outro motivo que os mitos tradicionais
falam da aptidão para “enganar o Diabo” que a bruxa deve desenvolver.
Para além do rito grimorial que citei, os mecanismos da strigaria
para tratar com Lucifero envolvem alguns dos mesmos pressupostos, porém de modo
mais orgânico. É fundamento tradicional a veneração do fogo sagrado mesmo
quando se lida com o Inferno, pois ele é um e o mesmo, seja nas alturas ou nos
abismos. Diante deste, as oferendas são feitas, os seres são conjurados à
presença no local e os feitiços performados, de modos que eu comentarei conforme
possível mais à frente.
Voltando o foco para os pactos menores, podemos dizer que eles
existem para concretização de objetivos pontuais e específicos, delimitados de
alguma maneira no amplo espectro do caminho do bruxo. A exemplo, quando se faz
um pacto para obter uma promoção no trabalho, ou para curar uma pessoa, ou para
atacar um inimigo. Essas finalidades pontuais costumam ser as mesmas buscadas
com a prática da feitiçaria e não raro as duas coisas acontecem em conjunto, ao
maior estilo do “vou fazer esse acordo aqui e você me ajuda para que este
feitiço surta o efeito desejado”.
Assim, os pactos menores não são iniciáticos, por mais que
possam produzir efeitos por todo o tempo de vida do indivíduo pactuado – a
exemplo dos (geralmente malfadados) pactos de riqueza ou amor. De modo geral,
seja por um rito mais cerimonial ou mais rústico, o mais sábio é procurar um
pacto menor para resolver algo pontual, ou atender a uma necessidade bem
delimitada, com um pagamento muito bem delimitado. Resultados muito grandiosos
ou improváveis exigirão pagamentos igualmente grandiosos e absurdos, e nos
quais muitas brechas existem para que o Diabo destrua sua vida por
entretenimento. Todo ocultista moderno já ouviu dizer que ao pedir para um
espírito te fazer perder peso ele pode fazer você sofrer um acidente e perder
as duas pernas... Isso se aplica em quase todas as situações em que se barganha
com o abaixo, mesmo tendo sucesso em acessar as potências
pretendidas.
Há uma frase que circula entre alguns tradicionalistas como
resposta a tentativas imprudentes de contato com deidades obscuras: na
melhor das hipóteses, ele(a) não te escutou e não vai acontecer nada, e, na
pior das hipóteses, ele(a) te ouviu e vai te dar o que acha que você merece.
Pacto Maior
Se os pactos menores são trocas ou parcerias formadas em vista
de finalidades específicas, o que chamamos de pacto maior é um vínculo de
comunhão plena de corpo, alma e espírito. Um vínculo iniciático em próprio
direito.
Apesar da vasta quantidade de referências culturais às bruxas
vendendo a alma ao Diabo, e da fórmula tradicional de obtê-lo perpassar essa
linguagem, é preciso entender dentro da cosmovisão da bruxaria o que isso
significa. O oferecimento de si em corpo, alma e espírito só é possível através
da iniciação, que vincula por uma corrente de poder o iniciado à fonte
espiritual de sua iniciação. Em resumo, aquilo que acontece na Igreja quando os
membros se consideram “um só corpo e um só espírito” ou quando buscam que o
Coração de Jesus seja um com o seu próprio, para que eventualmente tenham pleno
acesso à vida eterna, é o que as bruxas formalizam com o Deus do abaixo quando
da realização do pacto maior. Ao invés de uma perspectiva de vida eterna como
salvação, na bruxaria isso se adapta ao entendimento de divinização, ao poder
para um dia caminhar de modo similar aos deuses, e ir e vir entre este mundo e
o Outro conforme bem entender.
É por ter em vista conquistar poder, de modo amplo e
definitivo, que aquilo que é solicitado de Lucifero no pacto maior restringe-se
– se a pessoa for esperta – ao ganho de força espiritual para que ela
própria possa, através da magia, conseguir realizar os seus intentos.
Quando se pede algo do mundo material como riqueza ou amor, e se espera que o
Diabo providencie ao invés de ir atrás com suas próprias mãos, o resultado
tende a ser irônico e bastante destrutivo – como ganhar na loteria e morrer no
dia seguinte, ou ter um relacionamento de uma vida inteira com um companheiro
abusivo.
À luz disso e do que já discutimos nas outras partes deste
texto, fica claro que o caminho de uma bruxaria ligada ao Diabo não é um
caminho para pessoas inocentes, estúpidas ou inconsequentes. Essa estrada cobra
um alto preço que se não for gerenciado com astúcia (e malícia!) pode ser pago
de modo devastador.
Mas quais os mecanismos pelos quais esse pacto é feito?
Na parte II deste texto eu trouxe a citação do depoimento de
Maria Panzona, que representa uma das formas tradicionais mais difundidas. À
meia-noite em ponto, o interessado vai até a encruzilhada de quatro caminhos e
lá realiza alguma forma de inversão simbólica, paga um preço para ser ouvido e
profere seus votos. Se o Diabo comparecer e aceitar, estará feito, se não, azar
de quem tentou. A meia-noite e a encruzilhada são algumas dentre muitas sessões
liminares do Cosmos, como os umbrais das portas, as praias, os cemitérios, as
cavernas, o alto de uma montanha etc. Por meio dos espaços liminares a bruxa
contempla os poderes maiores que estão além da realidade manifesta, e por isso
Lucifero é encontrado em tais locais.
De modo similar, o processo de inversão simbólica representa o
caminho de volta para o poder bruto anterior à manifestação na matéria. Também
por ser uma “reversão da ordem” esse processo alinha o praticante ao poder
infernal que exerce pressão contrária à do celestial. Naquele momento, a força
que vem de baixo carrega a intenção ao espírito mais do que a força que vem de
cima perpetua a ordem manifesta. Maria Panzona testemunha três cambalhotas, mas
há aqueles que ficam de ponta-cabeça, aqueles que giram sobre si mesmos, os que
invertem o lado das roupas etc. Em seguida, ela fala sobre a renúncia ao Deus
da Igreja e aqui vislumbramos o ato de blasfêmia (já comentado por mim neste
outro texto). O sentido é “quebrar” a ordem estabelecida na psiquê do iniciando
e abrir espaço para liberdade e poder amorais se instalarem.
O preço pago para que a proposta de pacto seja aceita varia
enormemente de caso para caso, não sendo incomum que se deva ofertar uma
imolação. Antigamente se fazia isso na própria crosara, marcando com o
sangue os quatro caminhos e o centro, ou dentro de uma cova, e em ambos os
casos com a presença do fogo sagrado, como costumeiro.
Ao final, os votos comprometem a pessoa e toda sua
descendência – se o pacto for aceito – a estarem em comunhão com Lucifero
Majore. De modo similar é falado nas bruxarias inglesas tendo uma mão sobre a
cabeça e outra sobre o pé que tudo que está entre elas pertencerá ao Diabo,
assim como o que desse “tudo” descender. Uma vez consumado, pouco importa se a
pessoa irá se arrepender e mudar de caminho, ou se seus descendentes não vão
querer esse contato com o diabólico. O pacto maior, tal como uma iniciação
tradicional, não é possível de ser desfeito. A escolha sobre quem herdará o
pacto e quem será provocado a exercitá-lo é unicamente do Imperator Inferni
e da ancestralidade pela qual essa herança é transmitida. Não aceitar essa provocação,
quando ela chega, é uma receita quase certa para a loucura e a desgraça.
Culto ou parceria?
Estabelecido o vínculo, o Diabo torna-se parte da espiritualidade
da pessoa, tal como um santo de devoção com o qual se estabelece uma parceria
intercessora. É em razão disso que – tal como é citado na obra La
Stregoneria in Italia de Andrea Romanazzi – o Diabo foi chamado por muitos
de “Santo Demonio”. A relação pode ser mais devocional em alguns
momentos, mas se caracteriza muito mais por uma parceria de ofício, uma
instrumentalização, do que por um culto religioso (ou no caso, contra
religioso).
A strigaria praticada em área vêneto-friulana costuma
possuir um ícone de Lucifero, normalmente uma estátua ou boneco – de onde se
tira o nome bambole – que é transformado numa “janela de contato” com o
Majore e seus intermediários, e tratado como se fosse o próprio Diabo em forma
física. Esse ícone traz a influência do Diabo para o espaço onde se encontra,
de modo que se necessário ela é acorrentada com preces para conter os impactos
que pode causar. A estátua de bronze do demônio que supostamente Aquino Turra
possuía e que foi mencionada em seu processo inquisitorial era muito
provavelmente o seu bambole. Também a bruxa filmada por Luigi di Gianni
em Napoli no seu documentário L’Attaccatura (1971) possui um bambole
de palha, e eu teorizo que esse costume chegou no Sul através das trocas e
invasões entre Venezia e a região da Puglia, de onde vem a “maga” mostrada no
filme.
Usualmente, o bambole é feito de algum material
resistente como bronze, ferro ou pedra. Quando são usados bonecos de pano ou de
palha, ou materiais frágeis como porcelana ou gesso, ele recebe um coração de
pedra ou metal que possibilita a ancoragem da força espiritual. Elena Righetto
descreve no livro Folklore e Magia Popolare del Veneto que até mesmo a
carta do arcano XV do Tarô já foi usado pelas bruxas venezianas como bambole,
visando transportá-lo e ocultá-lo facilmente.
No rito tradicional em que se chama Lucifero, o bambole
deve estar presente assim como o fogo, e devidamente acordado para receber o
que será entregue e o que será requerido. Também não é incomum que seus
intermediários recebam receptáculos próprios, que as tradições do nordeste
italiano costumam fazer nas ânforas ou em garrafas de vidro. A vara forcada, o
sino, e outras ferramentas são usadas no chamado, que percorre circunstâncias
similares às do rito grimorial no sentido de ser antecedida por chamados aos
poderes que guardam e orientam o executor do rito.
Feitiçaria comum
A principal instrumentalização do poder diabólico é o seu emprego
em feitiços quotidianos, como reversões de malefício, lançamento de malefício, cura
de uma pessoa ou animal (normalmente pela transferência de hospedeiro) e
questões de sobrevivência e prosperidade em geral. São usadas velas negras –
tradicionalmente eram feitas em séculos passados com cinzas mágicas –, velas
brancas comuns, oferendas ao fogo sagrado e ao bambole, cordas com nós,
pregos, agulhas, tesouras e todo o arsenal próprio da magia folclórica conforme
a maior conveniência. É comum que para algumas finalidades as velas sejam
invertidas com um novo pavio feito na base. Os espaços liminares e horários
associados a Lucifero também são rigorosamente observados pelos praticantes.
Feitiçaria de viés “sabático”
O nível mais complexo de magia ligado à questão diabólica a
meu ver são os rituais que ecoam uma simetria com o rito fora do tempo e do
espaço, conhecido como sabbat e por nós chamado de Assembleia. Nestes
ritos, deve-se performar o mesmo tipo de organização que comentei ao citar a
conjuração do Drago Rosso: o fogo sagrado no centro, o bambole ou
outra representação de Lucifero à frente, e os instrumentos e oferendas que
serão empregados. A bruxa pode – se tiver preparo para isso – fazer o ritual em
sua própria casa, mas também é tradicional que seja feito na encruzilhada ou em
espaços inóspitos.
Canções específicas existem em simetria aos sons da Assembleia
e elas são relembradas conforme se circula em sentido anti-horário o fogo, e
cada tradição tem seus próprios costumes sobre como o “sabá” é reencenado para
que suas influências se manifestem. Diante do fogo e do bambole, com a presença
dos Antigos e tudo que convir, a bruxa faz os seus feitiços em simbiose com o
poder que flui pela comunhão com o rito primordial.
Este é o melhor dos momentos para pagar o Diabo por maior
força no feitiço, ou para negociar com seus emissários os pactos menores e as
atividades de interesse comum.
Outro exemplo bom que pode ser dado é o ritual de “libertar o
diabo” descrito por Radomir Ristic no seu ensaio para a antologia Hands of
Apostasy, que transcrevo em tradução própria a seguir:
O ritual de bruxaria tradicional
descrito abaixo não foi publicado completamente, mesmo em sérvio, e nunca foi
traduzido e publicado em inglês. Ele é chamado de 'Liberte o Diabo' e é
realizado para vários propósitos, benéficos e maléficos, incluindo magia de
amor e escravizar e controlar o espírito de outra pessoa.
(...)
A bruxa joga uma ferradura no
fogo, tendo pendurado acima dele nove plantas diferentes. O tipo [de planta]
varia dependendo do propósito do trabalho. Pavlovski não diz quais plantas são
essas, mas Veselin Cajkanovic em seu livro Recnik srpskih narodnih verovanja
o biijkama descreve as plantas usadas. Elas são: hissopo, bálsamo, violeta,
cravo, segurelha, manjericão, calêndula, sempre-viva-anã e Centuara
calcilrapal. Após várias horas secando essas plantas sobre as chamas do
fogo, a bruxa as retira e diz a seguinte invocação sobre elas:
Ferro
forjado! Eu não sou ferro forjado, mas o Diabo acorrentado! Se você é o Diabo
acorrentado, saia para secar e vá para onde for enviado! Para rastejar no
coração de .. [inserir nome]! Para procurar .. de cidade em cidade, de aldeia
em aldeia, de casa em casa, de trabalho em trabalho, de estrada em estrada, de
cama em cama, de mesa em mesa, e da mesa pular para a colher e da colher para a
barriga de ..! Procure-os com açoite de fogo, açoite-os e traga-os para mim,
para que eles não possam ficar de pé, para que não possam dormir, para que não
possam comer, para que não possam encontrar paz em sua própria casa, até que
venham a mim! Com seus olhos eles olharão, com sua boca eles falarão, por
outros eles não procurarão! Se você fizer isso por mim, eu o alimentarei com
uma galinha no café da manhã, eu o alimentarei com uma galinha no almoço, e
para o jantar uma galinha e uma cabaça cheia de vinho!
Depois de recitar estas palavras,
a bruxa sacrifica três galinhas como uma oferenda ao Diabo. Ela as pendura na
árvore perto da encruzilhada e também deixa uma garrafa de vinho tinto como uma
oferta adicional. Ao voltar para casa, ela esmaga as nove plantas em pó e
secretamente as coloca sob o travesseiro da pessoa cujo afeto é desejado. Após
este ato final, o feitiço deve então fazer todo o trabalho e a bruxa pode
esquecê-lo até que o resultado seja alcançado.
A performance deste ritual dos Bálcãs é muito simétrica aos
ritos sabáticos da strigaria e à forma pela qual se oferenda
determinados espíritos. A utilização do fogo como centro divino do Cosmos não é
arbitrária, ela obedece a uma tradicionalidade intrínseca a estes caminhos, e
revela a face do Deus primordial que é visto tanto no Deus do céu quanto no
Deus dos Infernos. O abate animal cumpre funções diversas e também pode estar
presente em nossas tradições, mas em geral tudo é aproveitado, seja para alimentação
ou para produzir insumos para a prática feiticeira. E ao final, quando o autor explica
o sentido do nome do rito, revelando a compreensão de que o Diabo pode ser
acorrentado ou libertado simbolicamente, temos mais um elemento em comum com a strigaria
vêneto-friulana, através do aprisionamento do bambole e da própria dinâmica entre
Lucifero e Miguel Arcanjo.
Para encerrar...
Este longo texto teve o propósito de colaborar com o
entendimento do leitor acerca da questão diabólica em nossas bruxarias, dando
uma perspectiva um pouco mais ampla do que as que eu havia dado anteriormente.
Contudo, muito além do que eu escrevi aqui poderia ser dito, não sem riscos e
não sem polêmicas.
A presença do Diabo na bruxaria é talvez uma das principais, e
a que dá o caráter propriamente “bruxo” às tradições. Por motivos que não são
inteiramente maliciosos, muitas pessoas fizeram enorme esforço ao longo das
últimas gerações para esconder essa presença, ou transformá-la em outra coisa,
mais palatável. Devemos compreender as razões desse esforço, mas também entender
que se é nosso objetivo lidar com a realidade sobre a tradição a presença do Diabo
é inescapável.
Penso que tal como a natureza envolve aspectos violentos, como
o predador matando a presa, a mãe que consome parte das crias, o parasita que
se instala em um hospedeiro, também a espiritualidade deve ser reconhecida como
algo que contém em si aspectos obscuros, assustadores, mas ainda assim
necessários como parte do Todo.
O que determina quem vive e quem morre, quem usufrui e quem
sofre, em geral, é a aptidão de cada um para sobreviver e prosperar nesse meio
ambiente áspero.
Também isso – a aptidão – é o que favorece às bruxas extraírem
boa fortuna de sua relação com o Diabo, ou perecerem através dela.
Espero que a leitura esclareça algumas dúvidas e que os
leitores astutos tenham o que é preciso para “enganar o Diabo”, como as bruxas
de Cividale...
Referências desta parte do texto
La Stregoneria in Italia – Andrea Romanazzi
Folklore e Magia Popolare del
Veneto – Elena Righetto
Il Vero Drago Rosso
Grimorium Verum
Hands of Apostasy –
Antologia organizada por Michael Howard (destaque para os ensaios de Andrew
Chumbley e Radomir Ristic)
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