quinta-feira, 20 de agosto de 2026

DIABO: Parte II - Mitos e folclore em nossa tradição

 Por Draco Stellamare

"...da la catena tua xe libero"

Na primeira parte deste texto abordei alguns aspectos gerais sobre quem ou o que pode ser considerado o “Diabo das Bruxas”. Como tudo que se esforça para atingir alguma amplitude, percebemos que há diferentes possibilidades a considerar e eu reconheço que num primeiro momento isso pode dar a impressão de ser uma retórica vaga. Agora, nesta Parte II, irei favorecer o contexto mítico e folclórico do diabo em nossa tradição, fazendo pontuais expansões convenientes para outras áreas.



Muito do que será aqui tratado foi abordado em meu ensaio O Verdadeiro Evangelho das Bruxas, na antologia A Arte Inominada, publicada pelo selo Tria Sabbatica. Nele, tratei de destrinchar uma parcela significativa da importância do Gênesis bíblico em algumas bruxarias e o caráter tanto primordial quanto opositor e ctônico de Lucifero em nossa cosmovisão. Nesta Parte II irei revisitar alguns destes conceitos em alguns momentos, porém de modo mais restrito e não atrelado às outras sendas de mitologia que formam a cosmovisão da bruxaria tradicional – para quem desejar conhecer essa abordagem, recomendo fortemente o ensaio indicado.

Sem demasiadas introduções, vamos ao que interessa...


Da Primeira Luz à Queda dos Anjos

A raiz do nome Lucifer é Lux (luz), mas não é somente por este fator que o Diabo é associado a esse elemento. Como já comentado, Lucifero representa a deidade infernal, vinculada inseparavelmente a sua origem celestial. Logo, o Diabo é para as bruxas a face obscura, ctônica e noturna de Deus. Num panorama cristianizado como o nosso, a história começa quando a Primeira Luz surge a partir da escuridão primordial, aquela que chamamos “mar sagrado” e cuja complexidade tratei neste outro texto.

O mar sagrado é o útero e a cova de toda a criação, o que inclui também a consciência iluminada que dele se apartou, no primeiro processo de gênese dual. Nesse ponto, enxergamos como o masculino é parte inerente ao feminino, que contém em si toda potencialidade. A primeira luz é parida pela escuridão, o Espírito de Deus se ergue acima das águas. E nesse momento, quando a luz se encontra refletida na escuridão do mar sagrado, as águas também ganham lucidez. Esse é o mistério da criação, de como a Mãe é anterior ao Pai, porém a consciência de ambos “surgiu” miticamente em ordem inversa.

Vemos essa dinâmica de dualidade sagrada introduzida de forma muito específica no livro Aradia ou O Evangelho das Bruxas, de Charles Leland, que serviu de ponte para a incubação desse conceito na bruxaria moderna. À parte as personificações das personagens divinas originais como sendo Diana, a Lua, e Lucifer, o Sol, este padrão Luz/Escuridão e Pai/Mãe é encontrado em todas as bruxarias sabáticas que conheci (e é importante dizer que utilizo esse termo com o objetivo de me referir às muitas vertentes bruxas que lidam de algum modo com o fenômeno do sabbat, e não somente à Sabbatic Craft propagada por Andrew Chumbley, que é uma delas e a que tornou a nomenclatura conhecida).

Em nosso caso, o Deus primordial é a chama sagrada do espírito divino, representada por fogo e luz, e sua Mãe Divina é a alma de tudo, representada pela água e escuridão. Da relação entre esses opostos a criação é forjada ou urdida. Dizem nas terras onde tais mitos ainda existem que Deus forja, como um ferreiro, e a Mãe urde fios e costura a tapeçaria da existência. O nascimento dos espíritos e almas de todas as coisas viventes (em carne ou em matéria espiritual) são oriundos desse enlace cósmico hierogâmico. Essa compreensão permaneceu subliminar à narrativa bíblica, sendo interpretada organicamente nas entrelinhas por aqueles que comungavam da Assembleia dos Espíritos.

Dizia minha primeira iniciadora que o mundo ser criado em sete dias era uma metáfora para os sete planetas que as pessoas veem com o olho nu, e que somados a Terra, formam oito divisões. Em minha caminhada comunguei da sabedoria de que para cada um destes existe um mistério ou poder primordial, atrelado a características desdobradas dos elementos tradicionais do esoterismo. Também aprendi que os dias da criação possuem seus significados, e se relacionam com outras formas de conceber o “relógio cósmico”. Assim como a luz branca refletida em determinados ângulos pela água se divide em um arco-íris de sete cores, também a Primeira Luz do Deus Pai se ramifica pelo que foi criado quando atravessa o mar sagrado. Conforme a criação foi se desdobrando, os Deuses Eternos geraram manifestações de si mesmos aptas a habitar cada nova esfera existente, cada novo local e tempo, regido por mistérios específicos. Assim, o que concebemos como o Deus Infernal é o Senhor deste Mundo, mas também uma das faces daquele que é a Primeira Luz, Primeira Consciência, e primeiro sopro e olhar do qual em parceria com a alma do mundo tudo provém.

Os eslovenos acreditam que cada olhar do Deus Pai gerou uma estrela, e assim os astros foram criados do fogo do olhar. Em contraposição, a terra teria surgido de um grão de areia trazido pelo peixe Faronika, habitante das profundezas do mar sagrado e cria da Mãe Divina. Cada espírito verdadeiro da criação recebeu uma centelha da chama sagrada do Deus Pai, preservada no Sagrado Coração forjado por ele. Cada um também recebeu um corpo de força espiritual, um alma, no qual o Sagrado Coração pode habitar e se expressar. Dessa forma nós, humanos, e todas as demais criaturas verdadeiras, somos a soma de uma Mãe e um Pai, de uma Alma e um Espírito.

Com a cristianização de conceitos arcaicos e difusos do paganismo, o desdobrar do Deus Pai em formas celestiais e em uma forma terrena assume contornos obscuros – por motivos que já vimos na Parte I deste texto. A associação com o mito da guerra no céu e a queda dos anjos foi um passo inevitável. Segundo a lenda, Lucifero aquele que se criou quando foi dito “Faça-se a Luz”, tornou-se a principal expansão de Deus, o arcanjo mais belo, a luz mais intensa, uma divindade por natureza e efeito. Ele torna-se tão sublime, que é ofuscado pela própria luz que emana e “peca” pelo orgulho, sendo então lançado por Miguel ao Inferno. Michael, o Sol, o Príncipe dos Anjos e aquele que está mais próximo de Deus Pai, assume aqui a posição do censor, do governador, daquela parte dos Elohim que se ergue como responsável pelo equilíbrio e ordem da criação. Ele lembra a Lucifero que nada manifesto pode ser tão grandioso quanto o Eterno, e o derruba para que ele tome o seu local verdadeiro na Criação. Não é por outro motivo que Miguel e Lúcifer são complementares: ambos são expressões em vetores opostos da manifestação do Altíssimo.

O pecado de Lúcifer é ao mesmo tempo um pecado, pois desafiou o posto ocupado pelo Espírito Divino na Eternidade, e uma missão, pois é a queda dos anjos que viabiliza a queda de Adão e Eva, a “entrada” da humanidade no mundo manifesto e no ciclo de encarnação. Vertentes luciferianas como a de Madeline Montalban entendem que Lúcifer cai como o Arcanjo Lumiel, responsável por iluminar toda a humanidade e conduzi-la ao congresso com o Eterno – e que essa seria sua redenção no plano divino. Em nosso entendimento o caminho de Lucifero é bem mais específico. Ele traça para a humanidade a possibilidade de ascensão ao status divino através da bruxaria, do poder que vem dele e de quaisquer fontes aptas a comungar com o iniciado. Essa é uma visão que reveste elementos de cultos iniciáticos anteriores com o verniz e as formas diabólicas do imaginário cristão. Enquanto Cristo e outros profetas propõem um caminho à direita, de conformação às doutrinas dedicadas ao povo e subrogação à vontade divina, o Diabo propõe um caminho à esquerda, que leva ao mesmo fim, por meios deveras mais perigosos, porém nos quais a bruxa almeja se tornar divina em seus próprios termos.

A Queda de Lúcifer, portanto, é o começo de toda uma trama cósmica que dividiu o caminho da transcendência em dois. A Mãe Divina, dona da bifurcação, é aquela que manifesta-se para que os mais espertos sejam aptos a andar em ambos e pelo meio, conforme desejarem.


Eva e a Serpente

Ao aprender pela primeira vez sobre essa história, fui ensinado por minha avó que o mito de Adão e Eva, e muitas outras coisas bíblicas como as pragas do Egito ou o Apocalipse, são simbologias que nos ajudam a compreender coisas que de outra forma não seriam bem compreendidas. Tal como na questão do mundo criado em sete dias, Zula (essa era a alcunha de minha avó, chamada Assunta) fora muito sábia sobre a história do pecado original, e tendo estudado só até a terceira série falava melhor do assunto do que alguns acadêmicos. Tive a possibilidade de discutir o assunto com ela no passado tanto pelo viés catequista quanto pelo viés do que hoje chamamos Tradição Stellamare.

Adão e Eva representam os primórdios da humanidade e de toda a ancestralidade humana. Inicialmente eram um só, e foram – tal como o mar sagrado e a primeira luz – divididos em dois opostos complementares. A mãe e o pai da humanidade representam as nossas origens no Cosmos.

Vemos em paralelo que a Queda de Lúcifer faz com que ele assuma a forma da serpente, o mais astuto de todos os animais até então criados. É a serpente o animal que, simbolicamente, sobe pela Árvore da Vida, conquistando a eternidade. Além disso, ela traz em si o significado ambíguo da iluminação e da sabedoria, algo que pode ser uma bênção, mas também uma maldição.

A narrativa se apresenta no Velho Testamento da seguinte forma:


Mas a serpente era o mais astuto de todos os animais da terra que o Senhor Deus tinha feito. E ela disse à mulher: por que vos mandou Deus que não comêsseis de toda a árvore do paraíso?

Respondeu-lhe a mulher: nós comemos do fruto das árvores, que estão no paraíso, mas do fruto da árvore, que está no meio do paraíso, Deus nos mandou que não comêssemos, e nem a tocássemos, não suceda que morramos.

Porém a serpente disse à mulher: vós de nenhum modo morrereis; mas Deus sabe que, em qualquer dia que comerdes dele, se abrirão os vossos olhos, e sereis como deuses, conhecendo o bem e o mal.

Viu, pois, a mulher que (o fruto) da árvore era bom para comer, formoso aos olhos e desejável para alcançar a sabedoria, e tirou do fruto dela, e comeu: e deu a seu marido, que também comeu. E os olhos de ambos se abriram: e, tendo conhecido que estavam nus, coseram folhas de figueira, e fizeram para si cinturas. E, tendo ouvido a voz do Senhor Deus, que passeava pelo paraíso, à hora da brisa, depois do meio-dia, Adão e sua mulher esconderam-se da face do Senhor Deus no meio das árvores do paraíso.

E o Senhor Deus chamou por Adão, e disse-lhe: onde estás?

E ele respondeu: ouvi a tua voz no paraíso, e tive medo, porque estava nu, e escondi-me.

Disse-lhe Deus: mas quem te fez conhecer que estavas nu? Acaso comeste da árvore, de que eu tinha ordenado que não comesses?

Adão disse: a mulher, que me deste por companheira, deu-me (do fruto) da árvore, e comi.

E o Senhor Deus disse para a mulher: por que fizeste isto? Ela respondeu: a serpente enganou-me, e comi.

E o Senhor Deus disse à serpente: pois que fizeste isto, és maldita entre todos os animais e bestas da terra; andarás de rastos sobre o teu peito, e comerás terra todos os dias da tua vida.

Porei inimizades entre ti e a mulher, e entre a tua posteridade e a posteridade dela. Ela te pisará a cabeça e tu armarás traições ao seu calcanhar.

Disse também à mulher: multiplicarei os teus trabalhos, e (especialmente os de) teus partos. Darás à luz com dor os filhos, e desejarás com ardor a teu marido, que te dominará.

E disse a Adão: porque deste ouvidos à voz de tua mulher, e comeste da árvore, de que eu te tinha ordenado que não comesses, a terra será maldita por tua causa; tirarás dela o sustento com trabalhos penosos todos os dias da tua vida. Ela te produzirá espinhos e abrolhos, e tu comerás a erva da terra. Comerás o pão com o suor do teu rosto, até que voltes à terra, de que foste tomado, porque tu és pó, e em pó te hás-de tornar.

E Adão pôs a sua mulher o nome de Eva, porque ela era a mãe de todos os viventes.

Fez também o Senhor Deus a Adão e a sua mulher umas túnicas de peles, e os vestiu

E disse: Eis que Adão se tornou como um de nós, conhecendo o bem e o mal; agora pois (expulsemo-lo do paraíso), para que não suceda que ele estenda a sua mão, tome também da árvore da vida, coma e viva eternamente.

E o Senhor Deus lançou-o fora do jardim do Eden, para que cultivasse a terra, de que tinha sido tomado.

E expulsou Adão, e pôs diante do jardim do Eden Querubins brandindo uma espada de fogo, para guardar o caminho da árvore da vida.

- Gênesis, Capítulo 2, trechos de interesse destacados em negrito.


O fato de que Deus Pai (ou os Elohim, que falam em coletivo) se apavora com a possibilidade da deificação de Adão, mostra-nos o conteúdo do caminho proposto pela serpente, o disfarce de Lúcifer. Tal como ele pecou pelo orgulho, e então assumiu o trono dos Infernos e todas as coisas mundanas – o locus do qual emana sua essência divina e primordial para a estrutura do universo – é pelo pecado original que Eva conduz a humanidade à encarnação no mundo terreno, à parte do Éden. Há diferentes formas de entender essa passagem, mas uma das que melhor nos cabe é a de que é justamente através dessa queda no mundo manifesto materialmente – o domínio de Lucifero – que os humanos podem comungar dos poderes que a bruxaria oferece e ascender como divindades. Para tal, é preciso um movimento de retorno ao centro da criação, um transcender rumo à eternidade, munido da malícia da serpente que entregou o conhecimento do bem e do mal, para então comer do fruto da Árvore da Vida.




A opção disruptiva da ordem cósmica feita por Lucifero no princípio do mundo é correlata a que é feita por Eva ao comer o fruto da Árvore do Conhecimento, estimulada pelo animal que o representa. Enquanto Lúcifer opta pela sua singularidade manifesta ao invés de curvar-se aos desígnios iniciais do Eterno, Eva opta pela sua própria jornada – e de toda a humanidade – para a deificação através da vivência singular, encarnatória, onde o espírito imortal experimentará por meio das infindáveis existências na carne (no pó) a sua própria criação. Neste sentido, o viver eternamente nada mais seria além de ser plenamente como os Deuses, realizando o que foi começado com a mordida no fruto da Árvore do Conhecimento. Encontra-se aí a meta de toda a bruxaria.

Assim explica o meu primeiro iniciado na tradição Stellamare em um texto escrito por ele para estudos internos de nosso coletivo:


Não se esqueçam: o próprio Diabo caiu para se tornar um Deus, demonstrando o mesmo processo de fecundação e transformação que mais tarde Eva atravessaria. Lúcifer, ao contemplar os mistérios e seu poder divino, diz sim ao seu orgulho, o que provoca sua queda e cria a contraparte infernal de Deus. Assim como Lúcifer se afirma ao dizer sim à sua manifestação singular, Eva também o faz; e, sendo ela a contraparte de Adão, Lúcifer a torna poderosa. A raça bruxa descende do sangue dos anjos que contemplaram os mistérios e disseram sim às suas individualidades, caindo junto do Diabo. O processo iniciático reflete o processo primordial de Lúcifer e sua primeira iniciação. Nessa sequência, Lúcifer inicia Eva; Eva gera Caim, que nasce com sangue divino e é iniciado por sua mãe; e, da linhagem de Caim, surge a raça das bruxas, que mais tarde se envolveriam com os anjos caídos. Aqui se revela a importância de transmitir a iniciação e o poder bruxo, e a origem divina das tradições.

- Trecho do artigo Teologia Bruxa – Parte I, da autoria de Helio Stellamare.


A partir de então, temos uma expansão do Gênesis que fala – simbolicamente – sobre a linhagem das bruxas, e porque elas estão ligadas a Lucifero. O mito cainita em diferentes contextos atua como desdobramento dessa primeira parte aqui narrada, considerando o primeiro assassino não como fruto de Adão, mas de Samael/Lucifero. Isso é inexistente de forma literal em nossos mitos, mas pode-se considerar Caim como fruto da iniciação diabólica recebida por Eva. Fechando o ciclo de vida e morte, é através de Caim que a Morte adentra a experiência humana da criação, colocando a roda de nossas vidas para girar.


Leprosos, Judeus e Bruxas

No famoso livro História Noturna: Decifrando o Sabá, o recém-falecido Carlo Ginzburg estuda a temática do sabbat a partir do comparativo de eventos de inúmeros tempos e locais, evidenciando a cadeia de conexões possivelmente existente entre eles. Contudo, uma introdução sobre o contexto no qual a imagem cultural da bruxaria diabólica e do sabbat se desenvolveram é também trabalhada. E ela justifica muito do que confluiu de maligno nesse imaginário.

Nos idos do século XIII e XIV, a Europa enfrentava severas dificuldades na produção agrícola, com secas e fome, agravadas pelo crescimento do comércio monetário que causava transformações na ordem estabelecida e o fortalecimento das monarquias. Nesse contexto, a população era cada vez mais submetida a pressões intensas. Por volta de 1321, inicialmente na França e depois por outros países, começa a acontecer a acusação reiterada de que os leprosos – portadores de hanseníase, na época incurável – estavam envenenando poços e fontes d’água, visando espalhar sua doença para o resto da população. Essas alegações infundadas refletiam o desespero do povo e das autoridades frente a diversas problemáticas de saúde pública, aumento de mortalidade, além da velha tática de criar um bode expiatório contra o qual canalizar a ira coletiva. Através da tortura, muitos leprosos confessaram crimes que não ocorreram, fortalecendo a crença coletiva em uma conspiração de envenenadores. A isso se seguiram execuções, confisco de bens e pânico social.

Com esse movimento Ginzburg observa que a “caça aos leprosos” foi a primeira grande política europeia de confinamento coletivo de um grupo considerado perigoso. Depois dela, mecanismos semelhantes seriam aplicados a outros grupos sociais. Assim como no caso dos leprosos diversos interesses (sobretudo financeiros) confluíam, a exemplo o interesse estatal de controlar a renda dos “leprosários”, as circunstâncias pouco a pouco justificaram a ampliação da tese conspiracionista para incluir os judeus. Enquanto pela disparidade religiosa eram considerados hereges e anticristãos, os judeus já acumulavam grande capital com o comércio do período, sendo alvos interessantes de confisco de posses. Assim, lentamente, cresce a ideia de que os judeus seriam os financiadores dos leprosos, e o envenenamento dos poços uma forma de atacar a civilização cristã, a mando de soberanos muçulmanos ou de senhores apóstatas de confrarias secretas.

O que aumenta em escala a paranoia e suas consequências é a Peste Negra, que começa a dizimar boa parte da população a partir de 1348. Sem explicação para o contágio, logo o povo cristão suspeita de uma grande ofensiva dos judeus e leprosos. Contudo, esses tipos sociais não eram numerosos o bastante para justificar o tamanho da catástrofe, e um inimigo mais numeroso, menos visível e mais infiltrado na sociedade cristã tinha de ser o responsável.

Esse inimigo foram as bruxas.

Aliado a outras questões, como a necessidade de suplantar com a medicina o ofício de curandeiros e parteiras, ou controlar a natalidade de acordo com interesses econômicos, criminalizando as mulheres que faziam abortos, a ideia da grande conspiração das bruxas surgiu como um pretexto perfeito para unir a sociedade contra um inimigo em comum. Por mais que esse inimigo não existisse (ou pelo menos não nos contornos imaginados pelos inquisidores), a crença em sua existência dava ao povo uma esperança de – liquidando os conspiradores – solucionar as crises do momento.

Como havia a necessidade de vincular as bruxas aos leprosos e judeus, e a tese do culto diabólico serviria também à supressão de crenças e comportamentos indesejados, é a partir desse momento que as definições da bruxaria passam a se estruturar ao redor de uma associação ao Diabo. As bruxas e bruxos formavam então uma Anti-Igreja, trabalhando em favor de Lúcifer (ou qualquer nome que se quisesse atribuir ao grande “mal”), e contra o povo cristão. Se antes havia costumes e práticas que remetiam a cultos antigos de fertilidade e desenvolturas populares de magia doméstica, agora esses elementos eram associados culturalmente à agência infernal do Demônio.

Como vimos na Parte I deste texto, o formato inaugurado de bruxaria como uma seita difusa de culto ao Diabo acomodou diferentes nuances de práticas em curso, que passaram a ser vistas pela sociedade de acordo com o imaginário imposto pela Igreja, e em muitos casos, adaptou-se a ele, como foi o caso observado por Ginzburg e outros pesquisadores em relação aos Benandanti e sua rápida confusão e mescla com os Malandanti.

O mito do sabá diabólico criado pelas instituições religiosas era um esquema de ampla profanação aos valores do cristianismo. O ritual se daria em lugares inóspitos, em luas cheias ou negras, ou ainda em determinadas datas do ano litúrgico ou em determinadas noites da semana. As bruxas (e os bruxos, menos numerosos) iriam voando ou em sonho até o local para se encontrar com o Diabo em pessoa sob a forma do bode negro, ou ainda sob outras peles. O rito em si seria a inversão da Missa. Profanação da eucaristia com atos escatológicos, libertinagem levada às últimas consequências, com orgias, sexo entre iguais e zoofilia. O malefício ditava a progressão dos ritos, muitas vezes com o demônio fazendo a contabilidade de quanto mal cada adepto conseguiu realizar em sua aldeia no período desde o último ritual. Canibalismo, infanticídio, necromancia e todas as coisas perversas imagináveis ao cristão dos séculos XIV a XVIII alimentaram esse delírio assombroso.

Que algo do gênero jamais tenha existido do modo como acreditavam os inquisidores é uma grande possibilidade. A mais plausível. No entanto, a visão sobre o sabbat acomodou fenômenos pré-existentes, influenciando-os tanto quanto foi influenciado por eles. Um desses fenômenos foi a caçada noturna, e outro ainda a procissão dos mortos, mas o mais notável é o das batalhas sazonais entre Benandanti e Malandanti no antigo Friuli. Como o historiador citado explica, pouco a pouco a atividade antes descrita como uma contraparte ao ofício dos Benandanti é identificada com o sabbat das bruxas estereotipado, até que os próprios Benandanti, mais tardiamente, confluem para esse mesmo imaginário.

Como já mencionei em meu artigo Os Mortos Poderosos da Bruxaria, a lenta confluência de uma bruxaria de fato obscura, praticada pelas feiticeiras friulanas, com os ofícios apotropaicos dos Benandanti, e a magia católica popular, são o que gerou as bruxarias vêneto-friulanas de meu conhecimento que concebem o sabbat como um rito onírico real, embora não tão caricato quanto a Igreja propagava no passado.

Ao contrário do que os desinformados podem pensar, a nuance sabática de nossas bruxarias é permeada de mitos e cosmovisão próprios, nos quais o Diabo atua como um dentre outros epicentros.


Sorgo e Erva-Doce

A mitologia sobre os Benandanti e seus rivais foi profundamente analisada no livro Andarilhos do Bem, de Carlo Ginzburg, tendo por mais importante caso paradigmático o processo inquisitorial em face de Paolo Gasparutto e Battista Moduco, iniciado em 1581. Um dos pontos centrais do livro é notar que os relatos gradualmente se modificam à medida em que transcorrem as dinâmicas entre inquisidores e acusados. O que começa como uma dicotomia entre os andarilhos do bem e as bruxas, vai sendo levado a uma identificação das experiências dos primeiros como pertencentes ao mesmo domínio sabático das segundas.

O mithos fala de uma guerra cósmica entre Deus ou Cristo, representados pelos Benandanti, e o Diabo, representado pelos Malandanti. Mais do que somente a influência a ser exercida pelo Céu e pelo Inferno, a batalha também ditava o avanço da Vida e da Morte nos ciclos agropastoris. Os Malandanti eram como os Mazzeri da Córsega, feiticeiros que saindo em voo espiritual durante a noite podiam causar a morte, e até mais do que o próprio mazzeru, o malandante também poderia fazer minguar as colheitas, cair tempestades avassaladoras, e produzir pragas e epidemias – algo muito similar ao imaginário sobre a conspiração das bruxas com os judeus e leprosos.




Pode parecer aos adeptos da tese de que “todos os aspectos diabólicos da bruxaria foram invenção dos inquisidores” que o benandante atuava contra uma sombra na parede, criada pelo medo inquisitorial. Contudo, a identificação de feiticeiros necromantes capazes de causar o malefício mostra que a ideia sobre a atuação do malandante se cristalizou por sobre uma figura folclórica já existente, que em muitos casos fazia parte de uma linhagem ou tradição. Isso fica mais claro conforme os casos inquisitoriais avançam e a fusão dos dois estereótipos (o “bom” e o “mal”) se consolida mais e mais, levando a participação de réus não mais restritos à caminhada onírica em favor de Cristo, mas também aos que tinham experiências com o Diabo, os que performavam ritos esotéricos, os que invadiam cemitérios para fazer magias, os que realizavam amarrações, e os que lançavam maldições. Quando chegamos aos idos de 1600 observa-se o fato de modo cristalino ao ler sobre as denúncias oferecidas contra Lucrezia Montereale e Aurora de Rubeis, sobre as quais escrevi ao comentar o caso de Aquino Turra, além de outras variadas personagens. Em 1672, o ápice parece ser – pelo menos em nossa ótica, centralizada na região liventina do Friuli – o caso de Andrea Cattaros, disputado entre ambas as frentes, a dos Benandanti e a das bruxas.

Os Malandanti são, em retrospecto, a rede formada pelas bruxas e bruxos que se associavam total ou parcialmente a Lucifero. Isso muitas vezes se dava através do sonho, em dinâmica similar à dos Benandanti, como relatado por Andrea, mas também incluía aqueles indivíduos que se aventuravam nas práticas necromânticas e feiticeiras para fins pragmáticos durante o estado de vigília, se para tal acabassem vinculados de algum modo ao universo diabólico. Lucifero, aqui como o herdeiro de Hades e Trimuzijat, estimulou a formação das linhagens diabolistas que abarcaram tanto o ocultista que modelava os conteúdos de livros como os de Cornélio Agrippa ou as Chaves de Salomão, quanto a velha que punha o mal-olhado nas vizinhas e voava em sonho com as strix.

Durante os Quatro Tempos do ano cristão e sazonal as batalhas entre os caminhantes do bem e do mal aconteciam. Os Benandanti armavam-se do funcho ou da erva-doce, plantas associadas à vida, e os Malandanti com a palha de sorgo das vassouras, associada à morte. Os ritos, dizia-se, aconteciam em locais específicos onde também se cristalizaram com o tempo lendas sobre o sabbat, como o Monte Cavallo, a nogueira de Benevento, a montanha Brocken (na Alemanha), a Praça de San Marco e até mesmo a Arena de Verona. Cada “time” benandante ou malandante em cada região contava com um capitão, uma liderança que reunia os partícipes em espírito e conduzia até a luta. De forma mais ou menos constante, os depoimentos diziam que o estandarte benandante era branco com um leão dourado, e o malandante era rubro com um ou mais diabos negros. Também é interessante notar que diferente dos Benandanti, os bruxos veneravam seu capitão (ou o próprio Diabo) em um trono de madeira – elemento frequente no imaginário do sabá diabólico.

Para além das batalhas sazonais, os Malandanti percorriam a terra durante a noite realizando toda sorte de malfeito. Azedando os vinhos, atormentando o sono dos desafetos e sugando a vitalidade de suas vítimas. E tais atos eram combatidos pelos que se consideravam Benandanti.

Ao passar do tempo esses elementos peculiares e bem delimitados convergem e – suprimidos como uma mesma heresia – são assimilados pela magia popular e se tornam mais discretos, (sobrevivendo no que passaria a ser chamado pura e simplesmente de strigaria, striaria ou striarie) como algo obscuro por trás de mitos transmitidos de geração em geração, por trás de feitiçarias murmuradas na calada na noite no banheiro com velas acesas, e por trás de laços passados como bençãos ou presentes, de mãe para filha, de avó para neta, em segredo.


A Ponte de Cividale, o Pacto e a Marca de Ùdin

Uma das histórias que se transmite popularmente, e que carrega peso para quem herda o legame da stregoneira, é a construção de uma ponte pelo Diabo e como as bruxas o teriam “enganado” no processo, através de algo que se diz ter acontecido há muito tempo na cidade histórica de Cividale del Friuli – em friulano Cividât dal Friûl. Segundo a lenda, a cidade era cortada por um rio e carecia de pontes, fazendo com que os habitantes tivessem que gastar um longo tempo para atravessar de uma margem para a outra. Então o Diabo apareceu para o povo daquele tempo e disse que poderia construir uma ponte da noite para o dia, mas o preço do serviço seria levar para o inferno a primeira alma que passasse sobre ela. Um grupo de bruxas escuta a proposta e decide aceitá-la, mas quando o Diabo termina sua construção e o sol está nascendo no horizonte, as mulheres mandam um animal cruzar a ponte, e o Diabo – irado! – se vê compelido a cumprir o acordo e levar o bicho como pagamento. Qual animal é este e como ele é colocado sobre a ponte, são detalhes que mudam dependendo de quem conta a história, e nas tradições bruxas carregam determinados simbolismos específicos, que ampliam a interpretação do conto.



A moral da história é uma lição sobre esperteza, que é uma qualidade inerente aos bons bruxos e bruxas. Longe de significar que podemos enganar uma deidade ctônica ou aqueles que a servem, o mito fala sobre ter a mesma astúcia que estas, e saber negociar e lidar com tais potências naturais sem colocar o próprio pescoço a prêmio.

Outra questão similar – e que a meu ver inclusive demonstra a assimilação da magia apotropaica dos Benandanti e obscura dos Malandanti numa única via de “veneração de duas mãos” – é a tratativa dispendida à marca das bruxas friulanas da idade moderna. Segundo Lea D’Orlandi pode constatar em suas etnografias, acredita-se que a marca das bruxas locais está sempre nos olhos, podendo ser vista por meio de ritos específicos envolvendo um sacerdote católico e uma criança menor de 7 anos que deve tocar-lhe os pés durante a celebração da missa.

Em nossa linhagem a marca se forma no olho esquerdo como uma determinada cicatriz, em princípio oculta. Não por acaso, o sacrifício do olho esquerdo de Odin e o seu ato de se pendurar de cabeça para baixo numa árvore são elementos que adentram o pacto de Lucifero em área vêneto-friulana, sendo a mais provável origem da dança de pactuação realizada e da marca física de nossa iniciação. Essa marca involuntariamente recebida no olho é agressiva ao ponto de ocasionar a perda da visão física, tal como no mito de Ùdin, em paga dos acessos espirituais ao Outro Mundo. Contudo, estratégias foram se desenvolvendo ao longo das gerações para conter este mal, dentre as quais a profunda devoção a Santa Luzia de Siracusa – em dialeto Santa Lussìa. Dentre os mais velhos que foram iniciados no nosso legame ou que herdaram o poder, cinco eu pude confirmar que sofreram a repercussão da marca no olho esquerdo, e destes cinco, quatro salvaram a visão a partir da intercessão da santa, incluso a mim. O que não recorreu a essa intercessão, ficou cego. Já entre os meus iniciados, a marca já se manifestou ao ponto de ser capturada em foto, e a visão segue preservada pelo apelo à santa dos olhos e por outras providências, específicas a cada um, já que “cada cabeça possui uma sentença”.




Tais exemplos nos mostram todos os dias como os mitos de Lucifero e do legame são vivos, e impactam diretamente as vidas daqueles que participam de nossas linhagens.

A forma de se realizar o pacto, comentada dentro do limite do possível na próxima parte desse texto, também elenca suas linhas gerais a partir da mitologia diabólica. Independente de aproximações anteriores, ele deve ser executado na encruzilhada de quatro caminhos à meia-noite em ponto, podendo ser feito solitariamente ao virar de cabeça para baixo determinado número de vezes ou pela intercessão de um iniciador com os movimentos típicos da tradição. Também permanece ainda hoje a ideia de que deve-se renunciar ao Deus da Igreja em ato de blasfêmia, mesmo que posteriormente se tome parte do catolicismo como se nada houvesse acontecido – é necessário renunciar o Deus propagado pela lei canônica assim como na lei canônica se renuncia o Opositor no ato da confirmação do batismo. De forma similar a essas etapas falou a benandante Maria Panzona, de Latisana (na bassa friulana), em seu histórico depoimento à Inquisição:


Quelle che voglion esser strighe sogliono andare di notte sopra una crosara et ivi fatto tre tombole una prima chiamato il diavolo, al quale tutte si danno e rinegano la fede di Dio tre volte, et poi sputasi nelle mani e fregate insieme ambedue le mani tre volte, vengono poi portate via dal diavolo con il spirito restando il suo corpo (...)

Tradução: “Aquelas que querem ser bruxas costumam ir de noite a uma encruzilhada e ali, feitas três cambalhotas, é primeiro chamado o diabo, ao qual todas se entregam e renegam a fé de Deus três vezes; e depois, cospe-se nas mãos e, esfregadas juntas ambas as mãos três vezes, são depois levadas pelo diabo com o espírito, ficando o seu corpo (...)”


O Diabo então passa a se manifestar por meio de transes, sonhos, e como aliado em atos mágicos – estes ensinados por um iniciador ou pelos próprios espíritos que fazem o intermédio com Lucifero. Dentre as muitas experiências que o folclore aborda, e dentre as que são percebidas por nós, há o encontro propriamente chamado de Assembleia no qual há dança, fogo, e outros mistérios. Há também os sonhos de perambulação com uma forma animal do Diabo. Há os sonhos que são descidas a mundos inferiores. E aqui e ali sonhos que se tornam transes de possessão, similares a um sonambulismo com efeitos espirituais.

Outro aspecto é que uma vez pactuada a pessoa, toda sua descendência gerada após o ato é também oferecida em pacto, sendo este convalidado ou não por escolha exclusivamente do Diabo. Assim reza a lenda que foram originadas as linhagens de strigaria de cunho diabólico, em parte vinculadas folcloricamente aos mitos da Escola Negra – essa majoritariamente masculina e ligada às universidades e ordens esotéricas – e em parte uma dissidência mais doméstica e feminina do culto.

Se nos mitos sobre a Escola Negra o Diabo levaria como pagamento um dos estudantes da geração (o mais lento a terminar seus estudos ou o mais fraco), na strigaria conforme se disseminou a partir das mulheres esse pagamento era diluído em pequenos atos e pequenas experiências, dentre as quais podemos notar o comparecimento forçado à Assembleia ou Sabbat, a exigência do dom mágico em performar o mal, seja através de malefícios, malocchio, ou fenômenos extáticos como os da Caçada Noturna, onde bruxos como os Malandanti ou os Mazzeri faziam o serviço da Morte.

De modo “astuto” (por mais que eu odeie essa palavra!) a strigaria diabolista se desenvolveu com artimanhas para controlar os maiores custos da pactuação demoníaca, e assim podemos hoje perceber um abrandamento desse tipo de ônus. Abrandamento este, que em nosso entendimento reforça o caráter de “veneração de duas mãos” deste caminho, no qual podemos adentrar a direita com o catolicismo místico e a esquerda com a bruxaria diabolista, sem prejuízos.

Como se diz, a balança do Arcanjo Miguel tem dois lados e é um ditado da capital da terra dos antepassados: Impie une cjandele al Diaul e une altre a San Michêl (Acenda uma vela ao Diabo e uma outra a São Miguel)!


Continua na Parte III...

 

 




Recomendações para estudos conexos ao tema deste texto:

Andarilhos do Bem – Carlo Ginzburg

História Noturna: Decifrando o Sabá – Carlo Ginzburg

Le Streghe nella Bassa Friulana - Vanni Facchin

Stregoneria Malocchio e Jettatura nelle Tradizioni Friulane - Lea D'Orlandi

Streghe, Eretici e Benandanti del Friuli Venezia Giulia – Monia Montechiarini

Os Mortos Poderosos da Bruxaria – Artigo meu publicado originalmente na revista A Língua da Serpente.

Um Benandante entre as Bruxas – Artigo meu publicado originalmente na revista A Língua da Serpente.

Teologia Bruxa, Parte 1 – Helio Stellamare, material interno para os membros da Congrega Stella Maris.

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