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sexta-feira, 30 de maio de 2025

Meditações sobre o “esoterismo bruxo”

 Por Draco Stellamare

Há um assunto sempre muito debatido nos círculos de bruxos tradicionais que me faz refletir e procurar respostas no passado, tanto o meu quanto o dos outros. Esse assunto é a relação íntima e ao mesmo tempo conflituosa e incompleta entre a bruxaria historicamente precedente à Wicca de Gerald Gardner e o esoterismo – em sentido tradicional da palavra. A noção esotérica de tradição é o que faz com que muitos de nós tenhamos aderido ao termo bruxaria tradicional para designar as nossas práticas, pois ele reflete as noções de linhagem iniciática, simbologia coesa e alinhamento com os pressupostos e estruturas dados pela tradição perene (ou qualquer outro nome que se queira dar para esse mesmo conceito). Contudo, maiores detalhes sobre como se deu esse processo de “esoterização” de nossas bruxarias frequentemente fogem ao nosso entendimento.



No pouco tempo livre que me sobra entre o trabalho, a manutenção da vida doméstica e os afazeres pertinentes aos meus grupos de bruxaria, li um texto relevante da autoria de Andrew D. Chumbley – um autor frequentemente mencionado por mim e não por acaso – para a antologia Hands of Apostasy publicada em 2014 pela Three Hands Press. Esse texto se chama The Magic of History e, como o próprio título sugere, aborda as complexidades existentes entre a concepção acadêmica-historiográfica sobre o passado e a concepção interna às tradições bruxas sobre sua própria história. Chumbley elabora nesse texto uma linha de pensamento sobre a evolução das bruxarias inglesas que eu mesmo me valho para compreender as tradições italianas – em específico a minha.

terça-feira, 10 de dezembro de 2024

A Bruxaria dos “Stellamare”

Por Draco Stellamare


A Tradição Stellamare tem suas raízes principais distribuídas entre a região do rio Livenza, que divide o Veneto e o Friuli, e a cidade de Udine, onde podem ser encontrados diversos processos inquisitoriais relativos à bruxaria histórica. Cidades onde nasceram e viveram alguns de nossos antepassados entre 1800 e 1900 incluem Annone Veneto, Motta di Livenza, Pordenone e Fontanafredda. Acreditamos que nossa linhagem retorna às sobrevivências oitocentistas da bruxaria praticada pelos Malandanti friulanos e da magia curativa e apotropaica executada pelos seus rivais Benandanti, ligando assim nosso passado (ainda que de forma indireta) com a “sociedade bruxa” operante na região entre os anos de 1500 e 1700. Dentre os membros importantes dessa rede local de praticantes de magia que tiveram seus nomes gravados na história inquisitorial, podem ser notados Aquino Turra, o bruxo sedutor pordenonês, o benandante Andrea Cattaros e muitas bruxas como Lucrezia Montereale Mantica, Maddalena Locatelli, Elisabetta Grimaldi e Aurora de Rubeis. Sobre alguns destes personagens escrevi dois extensos artigos para a edição de dezembro de 2024 da revista digital A Língua da Serpente.

segunda-feira, 12 de agosto de 2024

LEGAME: Uma explanação sobre linhagem iniciática e hereditariedade na magia

Por Draco Stellamare



Há uma infinidade de assuntos de ordem esotérica em bruxaria tradicional que acabam sendo mal compreendidos pela falta de proximidade das pessoas com o tema. Dois deles, que em realidade se desdobram de uma mesma questão, ficam frequentemente em voga quando surgem as discussões sobre a legitimidade de uma linhagem ou sobre a bruxaria dita “hereditária” – que para muitos mentecaptos não existe (em que pese reconhecerem que existem hereditariedades de diversos outros ofícios e práticas mágico-religiosas). Esses assuntos são a própria compreensão sobre o que vem a ser uma linhagem iniciática, e o que vem a ser uma hereditariedade mágica. Neste texto, pretendo abordar esse assunto de modo direto, explicando como esses conceitos são compreendidos no bojo das tradições que recebi e da mentalidade tradicional como um todo.

quarta-feira, 7 de agosto de 2024

A Voluntária Cegueira dos “Sábios”

 Por Draco Stellamare

Aviso aos leitores: Este texto é uma resposta a diversas falas depreciativas contra nossas tradições, feitas por determinadas pessoas. Ele fala contra um posicionamento específico de alguns indivíduos e não tem a intenção de desmerecer qualquer outra tradição, linhagem ou praticante solitário que não se enquadre como promulgador das ideias “fundamentalistas” e injuriosas lançadas contra nós.

 


É amplamente conhecido o ditado que diz que “o pior cego é aquele que não quer ver”. Sempre me ocorreu que essa frase dizia respeito às pessoas que, tendo ciência de uma situação óbvia à sua frente, preferiram viver uma fantasia confortável onde o aspecto incômodo da realidade era ignorado. A mim parece que uma parcela da comunidade bruxa brasileira vive constantemente fazendo uso desse artifício. Em especial algumas lideranças religiosas, seus vassalos e seguidores - muitos ligados à Wicca Tradicional e alguns poucos à sua variante eclética - parecem ávidos em desqualificar as linhagens alheias enquanto bruxaria, isso quando não questionam a própria existência do laço tradicional alheio fazendo as mesmas perguntas que já foram dirigidas às suas próprias origens, sem serem satisfatoriamente respondidas por eles mesmos (às vezes por desconhecimento e outras vezes por deliberada má-fé).

sexta-feira, 12 de julho de 2024

As Aganis e seus Filhos

 Por Draco Stellamare



A Water Baby - Herbert James Draper (1895)

No extremo nordeste italiano, uma das figuras mágicas mais famosas são os espíritos das águas conhecidos como anguane na língua veneta e como aganis ou agane na língua friulana. Elas são tidas como ninfas ou sereias, espíritos em sua maioria femininos que estão ligados às fontes de água e exercem um poderoso fascínio sobre os seres humanos. Em algumas localidades elas são vistas como benéficas, em outras como maléficas e em muitos lugares são compreendidas como seres ambivalentes, capazes de fazer tanto o bem quanto o mal – muito provavelmente tais variações acompanhando o “humor” dos rios e lagoas das proximidades.

domingo, 21 de abril de 2024

MARIA E AS BRUXAS: Um mito tradicional da stregoneria friulana

 Por Draco Stellamare




A região italiana chamada Friuli Venezia Giulia é um local muito único, o que torna suas tradições mágicas também especialmente singulares. Os diversos encontros e desencontros que ocorreram no Friûl histórico entre os vênetos, os germânicos e os eslavos terminaram por gerar ali uma cultura rica e de muitas formas distinta daquela de outras partes da Itália. Nas tradições de bruxaria da região friulana, destaca-se a figura da Virgem Maria como uma rainha e protetora das bruxas. Apesar de a devoção mariana neste e em outros locais suceder o culto de deusas precedentes (como eu abordei nesse texto sobre Diana Trivia), a presença de Maria como senhora das bruxas não se dá tradicionalmente através da redução de sua imagem a uma simples “máscara”, arbitrariamente utilizada para esconder alguma entidade não-cristã por meio de um sincretismo superficial, mas sim através de uma cosmologia e mitologia próprias ao universo da bruxaria, que constituem – senão por escrito ao menos oralmente – uma espécie de pequeno evangelho bruxo. Esse “evangelho”, mais bem comprovado pela pesquisa histórica do que o de Charles Leland, está vivo – de forma plural e ao mesmo tempo harmoniosamente coesa – nas linhagens que carregam os mitos da bruxaria friulana ainda hoje, na Itália, no Brasil e possivelmente em outros países onde os poucos imigrantes friulanos da história aportaram.

quinta-feira, 14 de dezembro de 2023

Stregoneria Liventina in Terra Brasilis: Um olhar sobre a minha tradição

 Por Draco Stellamare

              Tenho escrito muitas coisas desde que comecei este blog, da a bruxaria alemã nos Estados Unidos até diversas nuances da stregoneria italiana, que como já devem saber é mais plural do que se possa imaginar. Contudo, não escrevi até hoje sobre a minha própria tradição e como ela funciona, e percebo que isso gera expectativas em alguns dos meus leitores. Vocês têm culto aos deuses pagãos? Você tem um coven? Como posso me iniciar na sua tradição? Entre outras, são perguntas que aparecem de vez em quando por meio das redes sociais sempre que eu mostro alguma coisa que pertença a nossas práticas. Essa postagem é uma tardia explicação sobre a tradição que mantenho, suas origens, como ela chegou até aqui e para onde eu acredito que ela esteja caminhando. Não vou revelar coisas que considero íntimas, excessivamente polêmicas ou secretas, e nem vou me alongar demais nas explicações. Mas espero que gostem mesmo assim e que algumas ansiedades sejam diminuídas através desse vislumbre da minha história que eu vos ofereço.



              Minha tradição – assim como a maior parte das tradições semelhantes que já tive o prazer de conhecer – é no todo um conjunto orgânico de diversos laços tradicionais. O que quero dizer com isso é que existem diversas práticas mágicas, conhecimentos, mitos e ancestralidades que se cruzaram no decorrer das suas transmissões de uma geração à outra. A sabedoria para lançar ou exorcizar o malocchio é um laço que é transmitido de uma pessoa à outra de forma linear, tal como a sabedoria para conjurar os mortos, a sabedoria para curar o “mau-jeito” etc. São diferentes linhagens, que ora convergem, ora se separam, e que têm origens que podem ser até mesmo longínquas umas das outras, considerando os ramos de nossa árvore ancestral. Algumas provêm dos meus antepassados que vieram do sul da Itália, outras estão fortemente enraizadas no nordeste italiano, e outras ainda foram adquiridas aqui, em solo brasileiro. Mas existe um fio condutor que eu compreendo como a principal de todas essas transmissões ancestrais, ao redor do qual todas as demais práticas se acomodam, e é esse o legame (laço) que eu pretendo abordar como a fonte e o denominador comum de nossa stregoneria.

segunda-feira, 11 de dezembro de 2023

CULTO ANCESTRAL - Parte 2: Prática

Por Draco Stellamare


Memento Mori - Edwaert Collier (1640-1707)


Na primeira parte deste texto abordei conceitos e entendimentos que são necessários para uma abordagem mais profunda do culto ancestral sob a ótica de minha tradição. Agora, tendo assimilado uma ideia mais orgânica da ancestralidade, vamos discutir como se estrutura uma prática de culto ancestral. Não é minha intenção fornecer um esquema pronto e imutável, mas sim uma estrutura compreensível para que cada leitor possa compreender o que é adequado fazer – dentro de uma miríade de possibilidades de como fazer – e, tão importante quanto isso, o porquê fazer.

Portanto, eu partirei do princípio, tomando por exemplo um leitor leigo que não esteja familiarizado com nenhuma forma de devoção ancestral equivalente ao que será aqui discutido. Mais adiante, a complexidade do culto pode aumentar à medida que os primeiros passos forem dados com sucesso. Espero que gostem!

quinta-feira, 2 de novembro de 2023

CULTO ANCESTRAL – Parte 1: Teoria

Por Draco Stellamare



Vanitas Still Life (ca 1665-1670) - Jan Van Kessel


Uma árvore separada de suas raízes seca e morre. Ela se tornará matéria orgânica para enriquecer o solo onde outras árvores podem um dia surgir, mas aquilo que ela foi um dia será esquecido neste mundo. Não é por acaso que pensamos em linhagem familiar como uma árvore. Tendemos a organizar a genealogia dessa forma, mas frequentemente o fazemos como se o indivíduo no tempo presente fosse o “tronco”, do qual seus antepassados brotam como ramos, e na realidade é justamente o oposto: eles são nossas raízes, adentrando o mundo ctônico dos seres que estão mortos, enquanto a nossa descendência sanguínea e espiritual são os ramos que se erguem a partir de nós. Um não pode existir sem o outro: raízes, tronco e ramos superiores formam uma árvore completa. Por sua vez, as árvores interagem umas com as outras, tanto acima da terra quanto embaixo, formando uma rede de trocas e amálgamas da qual conhecemos muito pouco a respeito.

quinta-feira, 20 de julho de 2023

SANGUE BRUXO: Comentários sobre sangue, marca e a bruxaria como condição pessoal

O texto a seguir é a expansão de um pequeno ensaio que escrevi em 2020 sobre os conceitos mais tradicionais que conheço sobre sangue e marca na bruxaria. Ele integra uma parte do meu livro sobre stregoneria que está em processo de escrita, especificamente no capítulo dedicado a delinear o conceito de bruxaria segundo nosso entendimento.



Satã marca a fronte de uma aprendiz de bruxaria - Francesco Guazzo (c. 1626).

Algumas das fantasias mais comercializadas na bruxaria contemporânea são os conceitos de marca de bruxa e do sangue bruxo, mas ambos são conceitos muito mais complexos do que se supõe e que infelizmente vem sendo usados há muito tempo como desculpa para um elitismo espiritual, bem como justificativa arbitrária para aceitar ou rejeitar pessoas em grupos destinados ao tema. Longe de serem originalmente justificativas para que um grupo de pessoas se sinta especial perante o resto da humanidade, como se pertencesse a uma raça superior, a marca bruxa e o sangue bruxo são respectivamente símbolo e característica do pertencimento de um indivíduo a uma linhagem espiritual.

sexta-feira, 17 de março de 2023

Comentário sobre a esquerda e a direita na bruxaria



              Tornou-se comum ao esoterismo ocidental moderno dividir a si mesmo e as demais práticas mágico-religiosas entre caminhos da “mão-direita” e caminhos da “mão-esquerda”, recorrendo a interpretação ocidental do Tantra e dos pilares da Cabala como explicações para a existência desses dois caminhos. Enquanto o caminho da mão direita traria uma busca pelo alinhamento à vontade divina e uma harmonia com o cosmos, o caminho da mão esquerda traria para muitos praticantes as ideias da auto-superação e da revolta contra as instituições, normas culturais e religiosas da sociedade hegemônica, por vezes, permeadas de um propósito “anticósmico” mais ou menos evidente conforme a narrativa em questão.

quarta-feira, 9 de novembro de 2022

LAR: Breve comentário sobre uma das dimensões da ancestralidade


Interior with woman cooking over open fire - Julius Schrag.
  

Texto originalmente publicado por Draco Stellamare e Lucas Omíwálé na antiga página do Facebook em 01 de março de 2021.

Já mencionamos que a Ancestralidade existe em mais dimensões do que o culto aos antepassados propriamente dito, constituindo um conglomerado de forças ancestrais que atravessa gerações e inclui, junto aos mortos, os seres não-humanos e algumas forças divinizadas. Vamos então falar um pouquinho de uma dessas perspectivas?

quinta-feira, 27 de janeiro de 2022

Sobre o processo de aprender com os espíritos (Parte 1): um confronto entre o passado e o presente, entre o real e o ilusório.

 


Arnold Boecklin - Autorretrato, 1872.

Falar da magia folclórica de origem europeia no Brasil às vezes parece ser uma frequente cirurgia para remover corpos estranhos de um paciente que respira por aparelhos.

quarta-feira, 24 de março de 2021

ÉKDYSIS: a Troca de Pele nos Filhos do Dragão



The Tree of Knowledge - de Sebastian Münster, Cosmographia (1544).

 O processo de troca de pele das serpentes é chamado de ecdise, palavra derivada do grego ἔκδυσις. O termo também é utilizado para alguns seres que perdem seu exoesqueleto de tempos em tempos, como crustáceos e insetos. 

 As serpentes, assim como outros animais que perdem a pele ou o exoesqueleto, abandonam essa parte exterior do corpo de tempos em tempos porque ela impede o seu crescimento, graças à sua dureza ou inelasticidade. No decorrer do processo de ecdise, a membrana dos olhos da serpente também resseca para ser abandonada e dar lugar a uma nova membrana, e neste intervalo o animal fica temporariamente cego. Não é à toa que a ecdise, quando interpretada de maneira simbólica, sintetiza de maneira quase literal determinados processos cíclicos que encontramos na vivência espiritual da bruxaria.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2021

Figueira: a Árvore das Bruxas

"A mulher, vendo que o fruto da árvore era bom para comer, de agradável aspecto e mui apropriado para abrir a inteligência, tomou dele, comeu, e o apresentou também ao seu marido, que comeu igualmente. Então os seus olhos abriram-se; e, vendo que estavam nus, tomaram folhas de figueira, ligaram-nas e fizeram cinturas para si." - Gênesis 3: 6-7.

Uma das árvores mais importantes da tradição espiritual do mediterrâneo é sem sombra de dúvidas a Figueira. Sua relevância atravessa culturas e religiosidades diversas, e acumula significados contraditórios que se complementam numa ideia “agridoce” de árvore sagrada, uma ideia que permite acompanhar e refletir a própria transição de perspectivas sobre o sagrado e o profano ao longo da evolução do ocidente.



Pipal des Banians - Pintura da Ficus religiosa por M. Achille Comte (1854).

quarta-feira, 28 de outubro de 2020

Quando a verdade se torna mentira

Texto originalmente publicado via Facebook

Um negócio que me chama atenção – e também me entristece – é a fanfarronice polarizada com relação a essa figura mitológica, quase próxima de uma fábula ou de uma lenda urbana, que é a tal da "bruxaria hereditária".

É uma fanfarronice em duas vias, diga-se de passagem.

quarta-feira, 12 de agosto de 2020

NEMORALIA: O antigo festival de Diana e sua transformação na Festa da Assunção de Maria

 

   O senso comum da bruxaria moderna, infelizmente, acredita numa ruptura total e absoluta das práticas pagãs com o advento da hegemonia do cristianismo romano. Ruptura esta, por sua vez, que culminaria na perda total das práticas mágicas do mundo politeísta, as quais só teriam ressurgimento possível com a Wicca de Gardner e outras vertentes neopagãs que vieram a florescer após o século XIX, entretanto, as tradições folclóricas e ancestrais demonstram – e são amparadas pela pesquisa acadêmica – que este não é o caso. O processo europeu de transição entre o politeísmo e o monoteísmo cristão foi, em muitos locais, um processo carregado de nuances, de readaptações e da ressignificação de práticas que se mantiveram preservadas, se não em magnitude e esplendor, ao menos em pragmatismo e essência, sob uma roupagem cristianizada.

 Um destes exemplos – e que é o meu favorito, tanto por estar intimamente ligado à história de meus antepassados quanto por dizer respeito à minha principal divindade de culto – é o festival de Diana Nemorensis (Diana Trivia) e sua subsequente transformação nas festas católicas de Santo Hipólito e da Assunção da Virgem Maria.


c. 1720, Autor desconhecido.

Diana e seu cão - Autor desconhecido, c.1720.

sábado, 2 de maio de 2020

Comentário sobre o Culto aos Ancestrais


Esta pequena publicação se trata da minha visão sobre o tema, construída com influências da minha linhagem e da tradição que eu faço parte, mas ainda assim é uma visão pessoal.


Muita gente reproduz um discurso de temor àqueles que já se foram. É ensinado em algumas religiões que não é saudável cultuar espíritos de familiares mortos dentro de casa, e há pessoas que assimilam isso sem ser destas religiões, como se fosse uma regra geral da existência.

Pois bem, eu discordo radicalmente dessa visão, e eis o porquê.


Os ancestrais são a matéria que gerou nosso corpo. Somos a continuidade física, mental, e espiritual deles. Esta continuidade é vista em meu caminho como uma árvore de sangue e espírito, crescendo pelo tempo e pelo espaço (ou mesmo um rio de sangue fluindo por ele). O mais lógico é que os indivíduos que formam essa árvore desejem nosso bem estar, nosso crescimento, e a perpetuação do legado deles através de nós. Afinal, quando damos um passo para trás ao encarar os desdobramentos da vida percebemos que somos todos um único ser.


Imagem: Around the Tree - Glenn Brady.

Não existe uma explicação razoável para assumir que depois de mortos, os ancestrais passariam a nos fazer mal, deliberadamente.