sexta-feira, 30 de maio de 2025

Meditações sobre o “esoterismo bruxo”

 Por Draco Stellamare

Há um assunto sempre muito debatido nos círculos de bruxos tradicionais que me faz refletir e procurar respostas no passado, tanto o meu quanto o dos outros. Esse assunto é a relação íntima e ao mesmo tempo conflituosa e incompleta entre a bruxaria historicamente precedente à Wicca de Gerald Gardner e o esoterismo – em sentido tradicional da palavra. A noção esotérica de tradição é o que faz com que muitos de nós tenhamos aderido ao termo bruxaria tradicional para designar as nossas práticas, pois ele reflete as noções de linhagem iniciática, simbologia coesa e alinhamento com os pressupostos e estruturas dados pela tradição perene (ou qualquer outro nome que se queira dar para esse mesmo conceito). Contudo, maiores detalhes sobre como se deu esse processo de “esoterização” de nossas bruxarias frequentemente fogem ao nosso entendimento.



No pouco tempo livre que me sobra entre o trabalho, a manutenção da vida doméstica e os afazeres pertinentes aos meus grupos de bruxaria, li um texto relevante da autoria de Andrew D. Chumbley – um autor frequentemente mencionado por mim e não por acaso – para a antologia Hands of Apostasy publicada em 2014 pela Three Hands Press. Esse texto se chama The Magic of History e, como o próprio título sugere, aborda as complexidades existentes entre a concepção acadêmica-historiográfica sobre o passado e a concepção interna às tradições bruxas sobre sua própria história. Chumbley elabora nesse texto uma linha de pensamento sobre a evolução das bruxarias inglesas que eu mesmo me valho para compreender as tradições italianas – em específico a minha.

sexta-feira, 25 de abril de 2025

E-book “A Chave da Crosara”

Por Draco Stellamare

O primeiro lançamento do selo editorial Tria Sabbatica – pertencente à Editora A Língua da Serpente – vem na contramão daquilo que tenderá a ser o padrão das futuras publicações. Trata-se do e-book A Chave da Crosara, escrito por mim e disponível ad eternum para aquisição pelo Instagram do nosso selo editorial.




“Crosara” é um termo arcaico e regional do Friuli de séculos passados que designava a encruzilhada de quatro caminhos, na qual o Diabo podia ser invocado. O título, portanto, significa “a chave da encruzilhada”, porque este é o objetivo da obra: ser um fator de abertura de caminhos para os buscadores de uma vivência mais tradicional de bruxaria.

TRIA SABBATICA: Como nasceu o selo editorial sobre bruxaria tradicional

Por Draco Stellamare





Algo que considero uma grande bênção em minha vida é o fato de que meu caminho espiritual me possibilitou conhecer grandes pessoas, algumas das quais me permitiram estabelecer vínculos com elas que transcendem as relações comuns e expandem e muito o meu próprio potencial. Algumas dessas conexões, fruto da amizade e da parceria de anos, foram o solo fértil do qual nasceu essa iniciativa chamada Tria Sabbatica.

terça-feira, 10 de dezembro de 2024

A Bruxaria dos “Stellamare”

Por Draco Stellamare


A Tradição Stellamare tem suas raízes principais distribuídas entre a região do rio Livenza, que divide o Veneto e o Friuli, e a cidade de Udine, onde podem ser encontrados diversos processos inquisitoriais relativos à bruxaria histórica. Cidades onde nasceram e viveram alguns de nossos antepassados entre 1800 e 1900 incluem Annone Veneto, Motta di Livenza, Pordenone e Fontanafredda. Acreditamos que nossa linhagem retorna às sobrevivências oitocentistas da bruxaria praticada pelos Malandanti friulanos e da magia curativa e apotropaica executada pelos seus rivais Benandanti, ligando assim nosso passado (ainda que de forma indireta) com a “sociedade bruxa” operante na região entre os anos de 1500 e 1700. Dentre os membros importantes dessa rede local de praticantes de magia que tiveram seus nomes gravados na história inquisitorial, podem ser notados Aquino Turra, o bruxo sedutor pordenonês, o benandante Andrea Cattaros e muitas bruxas como Lucrezia Montereale Mantica, Maddalena Locatelli, Elisabetta Grimaldi e Aurora de Rubeis. Sobre alguns destes personagens escrevi dois extensos artigos para a edição de dezembro de 2024 da revista digital A Língua da Serpente.

domingo, 1 de setembro de 2024

SUB SPECIE INTERIORITATIS (Do ponto de vista interior)

 Por Pietro Negri (Arturo Reghini)
Traduzido por Draco Stellamare

Coelum . . . nihil aliud est quam spiritualis interioritas. (Céu... Não é mais do que a interioridade espiritual.) - Guibertus, De Pignoribus Sanctorum, IV, 8

Aquila volans per aerem et Bufo gradiens per terram est Magisterium. (A águia voando no céu, e o sapo rastejando na terra é o Magistério) - M. Maier, Symbola Aureae Mensae duodecim Nationum, Frankfurt, 1617, p. 192



Muitos anos se passaram desde que eu tive minha primeira experiência de imaterialidade. Mas apesar do passar do tempo, a impressão que eu mantive dela foi tão vívida e poderosa que ela ainda permanece em minha memória, tanto quanto é possível transfundir e reter certas experiências transcendentes. Eu vou tentar agora transmitir essa impressão humanis verbis (em termos humanos), evocando-a novamente dos recantos mais internos de minha consciência.

segunda-feira, 12 de agosto de 2024

LEGAME: Uma explanação sobre linhagem iniciática e hereditariedade na magia

Por Draco Stellamare



Há uma infinidade de assuntos de ordem esotérica em bruxaria tradicional que acabam sendo mal compreendidos pela falta de proximidade das pessoas com o tema. Dois deles, que em realidade se desdobram de uma mesma questão, ficam frequentemente em voga quando surgem as discussões sobre a legitimidade de uma linhagem ou sobre a bruxaria dita “hereditária” – que para muitos mentecaptos não existe (em que pese reconhecerem que existem hereditariedades de diversos outros ofícios e práticas mágico-religiosas). Esses assuntos são a própria compreensão sobre o que vem a ser uma linhagem iniciática, e o que vem a ser uma hereditariedade mágica. Neste texto, pretendo abordar esse assunto de modo direto, explicando como esses conceitos são compreendidos no bojo das tradições que recebi e da mentalidade tradicional como um todo.

quarta-feira, 7 de agosto de 2024

A Voluntária Cegueira dos “Sábios”

 Por Draco Stellamare

Aviso aos leitores: Este texto é uma resposta a diversas falas depreciativas contra nossas tradições, feitas por determinadas pessoas. Ele fala contra um posicionamento específico de alguns indivíduos e não tem a intenção de desmerecer qualquer outra tradição, linhagem ou praticante solitário que não se enquadre como promulgador das ideias “fundamentalistas” e injuriosas lançadas contra nós.

 


É amplamente conhecido o ditado que diz que “o pior cego é aquele que não quer ver”. Sempre me ocorreu que essa frase dizia respeito às pessoas que, tendo ciência de uma situação óbvia à sua frente, preferiram viver uma fantasia confortável onde o aspecto incômodo da realidade era ignorado. A mim parece que uma parcela da comunidade bruxa brasileira vive constantemente fazendo uso desse artifício. Em especial algumas lideranças religiosas, seus vassalos e seguidores - muitos ligados à Wicca Tradicional e alguns poucos à sua variante eclética - parecem ávidos em desqualificar as linhagens alheias enquanto bruxaria, isso quando não questionam a própria existência do laço tradicional alheio fazendo as mesmas perguntas que já foram dirigidas às suas próprias origens, sem serem satisfatoriamente respondidas por eles mesmos (às vezes por desconhecimento e outras vezes por deliberada má-fé).