terça-feira, 6 de abril de 2021

A Teoria da Blasfêmia

 “A Cruz no peito e o Diabo no feito” – Ditado popular de algumas regiões de Pernambuco, Brasil. 



Fotografia de William Montensen, pertencente a ensaio realizado entre 1926 e 1927, retratando a execução de uma bruxa frente ao escárnio social e a exibição de símbolos cristãos.

 Certa vez um professor do colégio me disse que “o maior ato de liberdade individual é ferir a individualidade do outro”. Não sei em quais filósofos ele se pautou para produzir essa colocação, se é que se pautou em alguém, mas fato é que essa frase, com a qual ainda não decidi se concordo ou não, me acompanhou durante toda a vida na tentativa de entender alguns comportamentos que, vira e mexe, o ser humano vem a repetir.

quarta-feira, 24 de março de 2021

ÉKDYSIS: a Troca de Pele nos Filhos do Dragão



The Tree of Knowledge - de Sebastian Münster, Cosmographia (1544).

 O processo de troca de pele das serpentes é chamado de ecdise, palavra derivada do grego ἔκδυσις. O termo também é utilizado para alguns seres que perdem seu exoesqueleto de tempos em tempos, como crustáceos e insetos. 

 As serpentes, assim como outros animais que perdem a pele ou o exoesqueleto, abandonam essa parte exterior do corpo de tempos em tempos porque ela impede o seu crescimento, graças à sua dureza ou inelasticidade. No decorrer do processo de ecdise, a membrana dos olhos da serpente também resseca para ser abandonada e dar lugar a uma nova membrana, e neste intervalo o animal fica temporariamente cego. Não é à toa que a ecdise, quando interpretada de maneira simbólica, sintetiza de maneira quase literal determinados processos cíclicos que encontramos na vivência espiritual da bruxaria.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2021

Figueira: a Árvore das Bruxas

"A mulher, vendo que o fruto da árvore era bom para comer, de agradável aspecto e mui apropriado para abrir a inteligência, tomou dele, comeu, e o apresentou também ao seu marido, que comeu igualmente. Então os seus olhos abriram-se; e, vendo que estavam nus, tomaram folhas de figueira, ligaram-nas e fizeram cinturas para si." - Gênesis 3: 6-7.

Uma das árvores mais importantes da tradição espiritual do mediterrâneo é sem sombra de dúvidas a Figueira. Sua relevância atravessa culturas e religiosidades diversas, e acumula significados contraditórios que se complementam numa ideia “agridoce” de árvore sagrada, uma ideia que permite acompanhar e refletir a própria transição de perspectivas sobre o sagrado e o profano ao longo da evolução do ocidente.



Pipal des Banians - Pintura da Ficus religiosa por M. Achille Comte (1854).

quarta-feira, 28 de outubro de 2020

Quando a verdade se torna mentira

Texto originalmente publicado via Facebook

Um negócio que me chama atenção – e também me entristece – é a fanfarronice polarizada com relação a essa figura mitológica, quase próxima de uma fábula ou de uma lenda urbana, que é a tal da "bruxaria hereditária".

É uma fanfarronice em duas vias, diga-se de passagem.

quarta-feira, 12 de agosto de 2020

NEMORALIA: O antigo festival de Diana e sua transformação na Festa da Assunção de Maria

 

   O senso comum da bruxaria moderna, infelizmente, acredita numa ruptura total e absoluta das práticas pagãs com o advento da hegemonia do cristianismo romano. Ruptura esta, por sua vez, que culminaria na perda total das práticas mágicas do mundo politeísta, as quais só teriam ressurgimento possível com a Wicca de Gardner e outras vertentes neopagãs que vieram a florescer após o século XIX, entretanto, as tradições folclóricas e ancestrais demonstram – e são amparadas pela pesquisa acadêmica – que este não é o caso. O processo europeu de transição entre o politeísmo e o monoteísmo cristão foi, em muitos locais, um processo carregado de nuances, de readaptações e da ressignificação de práticas que se mantiveram preservadas, se não em magnitude e esplendor, ao menos em pragmatismo e essência, sob uma roupagem cristianizada.

 Um destes exemplos – e que é o meu favorito, tanto por estar intimamente ligado à história de meus antepassados quanto por dizer respeito à minha principal divindade de culto – é o festival de Diana Nemorensis (Diana Trivia) e sua subsequente transformação nas festas católicas de Santo Hipólito e da Assunção da Virgem Maria.


c. 1720, Autor desconhecido.

Diana e seu cão - Autor desconhecido, c.1720.

segunda-feira, 22 de junho de 2020

Sobre Fé e Crença


Fé não é a mesma coisa que crença.

Pode parecer estranho afirmar isso sendo que a maior parte das pessoas utiliza estas duas palavras como sinônimos, mas sob o meu ponto de vista elas representam coisas muito distintas.

A palavra “fé” vem de fides no latim e significa confiança, mesma raiz de “fiducia”. O ato da fé é um ato, portanto, de confiança. Já a palavra “crença” vem de credentia, no sentido de acreditar, dar crédito a alguém ou alguma coisa. E por mais que confiar e dar crédito tenham o mesmo sentido em determinados contextos, entendo que confiar é ligeiramente diferente de acreditar no que tange os mundos invisíveis da espiritualidade.

sábado, 2 de maio de 2020

Comentário sobre o Culto aos Ancestrais


Esta pequena publicação se trata da minha visão sobre o tema, construída com influências da minha linhagem e da tradição que eu faço parte, mas ainda assim é uma visão pessoal.


Muita gente reproduz um discurso de temor àqueles que já se foram. É ensinado em algumas religiões que não é saudável cultuar espíritos de familiares mortos dentro de casa, e há pessoas que assimilam isso sem ser destas religiões, como se fosse uma regra geral da existência.

Pois bem, eu discordo radicalmente dessa visão, e eis o porquê.


Os ancestrais são a matéria que gerou nosso corpo. Somos a continuidade física, mental, e espiritual deles. Esta continuidade é vista em meu caminho como uma árvore de sangue e espírito, crescendo pelo tempo e pelo espaço (ou mesmo um rio de sangue fluindo por ele). O mais lógico é que os indivíduos que formam essa árvore desejem nosso bem estar, nosso crescimento, e a perpetuação do legado deles através de nós. Afinal, quando damos um passo para trás ao encarar os desdobramentos da vida percebemos que somos todos um único ser.


Imagem: Around the Tree - Glenn Brady.

Não existe uma explicação razoável para assumir que depois de mortos, os ancestrais passariam a nos fazer mal, deliberadamente.