quinta-feira, 17 de setembro de 2026

F.N.V.E - Nossa Força é a Verdade

Por Draco Stellamare



Tempos atrás eu escrevi um texto sobre bruxaria hereditária intitulado “quando a verdade se torna mentira”, disponível aqui no blog. O intuito era justificar que apesar de muitas nuances complicadas inerentes ao tema, existem sim linhagens de bruxaria dentro de sucessão familiar e (até então) desassociadas do movimento ocultista moderno. Contra a minha vontade, o assunto se repete constantemente em nosso meio, e como eu agora possuo iniciados que levam em boa-fé essa tradição para além da minha pessoa, penso ser justo com os descendentes leais fornecer algum terreno maior para argumento de legitimidade, caso precisem no futuro. Outro aspecto do assunto é permitir que os futuros iniciados tenham como honrar suas raízes, podendo em algum nível falar sobre elas se desejarem. Assim, o motivo desse post é permitir que meus descendentes tenham mecanismos de justificar sua história se necessário e também honrá-la conforme acharem adequado. O que direi a seguir é sobre nós, Stellamare, e não tem relações diretas ou indiretas com quaisquer outras sendas de bruxaria que não a nossa.

sexta-feira, 11 de setembro de 2026

O Deus de meus Pais

Poema de Caio Palù





Oh Deus de meus pais, e dos pais de meus pais

Não me abandone, não se afaste de mim!

Pois eu me lembro de tua face hoje ainda mais

Do que nos idos de tormentos passados, sem fim.

 

Tua face incognoscível, bela e terrível,

Tal qual a face de meus pais, e dos pais destes,

Elo por elo de uma corrente infindável

Que remonta ao barro e aos fogos celestes.

 

Como a junção das raças de Samael e Adão,

Fomos lançados no mundo a manter o girar da roda

Arando a terra e ceifando a erva para obter o pão

Sangrando, gemendo e chorando, tentando alcançar a corda

[da salvação]

 

A corda essa, urdida dos fios dourados acobreados

fiados na roca de prata de Nossa Senhora

Ergue os fortes por sobre a Árvore da Vida, extasiados

Para o Absoluto orgasmo e o mar que tudo devora

 

Clamo ao Senhor, Deus do Universo

Incompreensível aos ouvidos da razão

Vejo-Te com o tato de um toque inverso

Sinto-Te com os olhos do Coração!

 

E minha alma se rasga, de dor e de tristeza

Pois se ainda o vejo no mundo, não mais o encontro em meus irmãos

Raros são os olhos em que se reflete Tua beleza

Mais raras ainda a carne que imite o movimento de Tuas mãos!

 

Oh Deus, não me esqueça, por que eu não me esqueço de Ti

 

Meu corpo é atavismo, minha alma memória,

E meu coração lembrança e amor

Todos os três Submissos a Ti, em glória,

Tal qual a abelha se submete à Flor.


 




05/05/2026

segunda-feira, 7 de setembro de 2026

DIABO: Parte III – Ritos e magia

Por Draco Stellamare

Para finalizar este texto, nesta terceira parte iremos abordar alguns aspectos mais ritualísticos e pragmáticos da presença diabólica nas nossas tradições, fazendo um apanhado sobre pactos, relacionamento quotidiano e métodos feiticeiros ligados ao Diabo. O tema dos “pactos” é um que assombra até mesmo pessoas da comunidade ocultista, então parece um bom ponto para começar.




É necessário alertar que nem tudo que será aqui descrito é praticado exatamente dessa forma em nosso contexto, inclusive porque nem tudo pode ser dito, e também porque várias coisas que foram comuns às bruxarias no passado hoje são inviáveis pela lei ou pelos próprios modos de vida da modernidade. Nada aqui tem o intuito de encorajar práticas perigosas ou possam ter implicações legais para os envolvidos. Portanto, que o leitor receba essas informações apenas como ensinamento teórico a respeito de práticas tradicionais que somente terão sentido se contextualizadas em cada caminho, trajetória e bom senso.

quinta-feira, 20 de agosto de 2026

DIABO: Parte II - Mitos e folclore em nossa tradição

 Por Draco Stellamare

"...da la catena tua xe libero"

Na primeira parte deste texto abordei alguns aspectos gerais sobre quem ou o que pode ser considerado o “Diabo das Bruxas”. Como tudo que se esforça para atingir alguma amplitude, percebemos que há diferentes possibilidades a considerar e eu reconheço que num primeiro momento isso pode dar a impressão de ser uma retórica vaga. Agora, nesta Parte II, irei favorecer o contexto mítico e folclórico do diabo em nossa tradição, fazendo pontuais expansões convenientes para outras áreas.



Muito do que será aqui tratado foi abordado em meu ensaio O Verdadeiro Evangelho das Bruxas, na antologia A Arte Inominada, publicada pelo selo Tria Sabbatica. Nele, tratei de destrinchar uma parcela significativa da importância do Gênesis bíblico em algumas bruxarias e o caráter tanto primordial quanto opositor e ctônico de Lucifero em nossa cosmovisão. Nesta Parte II irei revisitar alguns destes conceitos em alguns momentos, porém de modo mais restrito e não atrelado às outras sendas de mitologia que formam a cosmovisão da bruxaria tradicional – para quem desejar conhecer essa abordagem, recomendo fortemente o ensaio indicado.

quarta-feira, 15 de julho de 2026

DIABO: Parte I - Quem ou o que é o “Diabo das Bruxas”

 Por Draco Stellamare

É impossível desassociar totalmente o imaginário da bruxaria europeia da figura do Diabo. Seja como sujeitos de um pacto no qual se vende a própria alma ou como combatentes exorcistas, as bruxas sempre estiveram em contato com essa figura. Isso é atestado por evidências históricas que ultrapassam a tese da “distorção inquisitorial” e adentram o que se sabe sobre o imaginário popular de séculos passados. Ao confrontar este fato, muitos adeptos da bruxaria moderna preferem interpretar o Diabo como uma divindade pagã, pura e simplesmente, atribuindo-lhe contornos mais suaves. Por sua vez, os buscadores de uma bruxaria mais tradicional ou mais alinhada às raízes antigas desta senda enfrentam um outro problema: a infinidade de interpretações possíveis sobre a figura diabólica, e as confusões e desconhecimentos que se camuflam no meio delas.



Já colaborei com a produção de um vídeo sobre o assunto – hoje não mais disponível publicamente por decisões pessoais – mas sinto que minha fala na ocasião foi mais aberta e superficial do que deveria. Talvez ela tenha sido adequada na época para as pessoas que nos seguem, muitas das quais estavam tomando ali um primeiro contato com visões tradicionais de bruxaria. Contudo, a questão diabólica está longe de ser um assunto feito para grandes públicos, e pode ser explorada de formas mais específicas e talvez mais úteis aos buscadores realmente vocacionados para um caminho tradicional. Portanto, decidi escrever este texto onde abordarei de uma forma mais concisa essa questão, dando mais espaço ao que pode ser dito de uma perspectiva propriamente bruxa e listando fontes de estudo ao final de cada parte para quem deseja se aprofundar em algum dos aspectos abordados. Como sempre, é bom começar lembrando que essa é a minha visão, baseada em minha história e estudos, e ela (assim como nenhuma outra) jamais esgotará o assunto.

segunda-feira, 22 de junho de 2026

O Perfume

A história abaixo foi inspirada nas visões de um sonho-ritual.
E eu a considero um renascimento hodierno de algo que foi ouvido, muito tempo atrás.



    Havia um príncipe, num certo país, que se deleitava todas as noites com uma jovem diferente.

    Para garantir que sempre houvesse uma moça jovem e atraente em sua cama, justas somas de dinheiro eram pagas às famílias que oferecessem a virgindade de suas donzelas para o insaciável príncipe.

terça-feira, 5 de maio de 2026

O Arregaço Cognitivo de nossos Tempos

 Por Draco Stellamare



Vanitas contemporânea, propositalmente feita por IA.

Sou uma pessoa com dois grandes polos de vida pública. O primeiro é o trabalho de autor de artigos e livros – aliado à ponderada visibilidade que meu posto de Magister exige – que me faz em algum nível ser conhecido pelos leitores e membros mais atentos da comunidade ocultista. O segundo, por sua vez, é a minha atuação profissional no meio corporativo, onde encontro e dialogo com material escrito de diversos departamentos de grandes empresas. Em ambos os polos, venho enfrentando um assunto nauseante, incômodo, e verdadeiramente necessário de ser debatido. Trata-se de um fenômeno ocasionado pela acessibilidade crescente das tecnologias de Inteligência Artificial, e que resolvi chamar conforme o título desse texto de um verdadeiro arregaço cognitivo.

sexta-feira, 3 de abril de 2026

STRIX: A figura tradicional das bruxas primordiais e porque elas são perigosas

 Por Draco Stellamare



Il Barbagianni - Valentine Cameron Prinsep (1838-1904)

Começo a escrita deste texto proclamando o meu mais absoluto respeito e temor reverencial àquelas que são a primeira corporificação manifesta do útero do qual tudo surgiu, Senhoras dos pássaros e da noite, que se assentam sobre a copa da Figueira e assistem aos encontros e desencontros da vida terrena. Que minhas palavras escritas sejam condizentes com a dignidade daquelas que são proferidas pela minha boca, e daquelas que ecoam nos meus pensamentos, oriundas de meu coração.

Muito se fala sobre a palavra strix como a raiz mais provável da própria terminologia strega (bruxa, em italiano), e variantes como strie (friulana centro-oriental) e striga (em dialeto liventino). Contudo, noto que há pouca clareza sobre o significado dessa palavra e o que ela veio a designar a partir de sua evolução em diferentes tradições mediterrâneas. Parte dessa falta de clareza, partilhada por outras vertentes, induz os piores problemas que as pessoas conseguem para si mesmas quando cruzam o caminho da bruxaria e agem com despreparo, intencional ou acidental. A razão deste texto, escrito após eu ter de lidar mais vezes do que gostaria com a pacificação das “avós da criação” visando a saúde comunitária, é permitir que informações seguras e responsáveis cheguem a quem não deseja ser parte do problema.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Koščej, Qáyin, Quaresma e outros pensamentos

Por Draco Stellamare



Vanitas

Embora os mortos possam eventualmente ter uma clara ideia de como foi sua transição para o além-túmulo, eu cheguei à conclusão de que só é capaz de entender a morte aquele que é imortal. Pode parecer contraditório, e da maioria dos pontos de vista certamente é, mas tenho boas razões para concluir isso, e deixarei a cargo do leitor pensar o que quiser a esse respeito. Ao contrário do que pode parecer quando falamos de alguém que tem o péssimo hábito de debater suas convicções, eu não desejo colonizar o pensamento alheio.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

A ROSA E A ESTRELA: A relação do movimento Rosa-Cruz com a Tradição Stellamare

 Por Draco Stellamare

Este texto foi escrito originalmente como uma introdução a uma das seções de leituras passadas aos iniciados da CSM.

Esta versão pública foi devidamente editada com a retirada dos conteúdos internos.

 

Desenho de uma pessoa

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1. Virgem Maria no Hortus Conclusus – Atribuído a Matthias Grünewald (1480-1528)

 

O rosacrucianismo foi um movimento esotérico, místico e filosófico originado no início do século XVII na atual Alemanha, em um contexto social de tensões relacionadas à Reforma Protestante e a progressão das tendências que se condensariam no Iluminismo do século XVIII em diante. Muitas e diferentes vertentes desse movimento se desdobraram – na maioria das vezes sem relação direta com suas origens – nos séculos que se seguiram à sua exposição ao público, impactando outras organizações esotéricas do Ocidente, o ocultismo moderno e até mesmo algumas vertentes de bruxaria, como é o caso da nossa Tradição Stellamare que assimilou elementos do rosacrucianismo germano-austríaco e a própria Wicca Gardneriana, que foi forjada a partir das iniciações e vivências possibilitadas a Gerald Gardner no interior de uma irmandade rosa-cruz inglesa: a Crotona Fellowship. O presente texto tem a intenção de abordar o início desse movimento, sua essência e – mais especificamente – a cadeia de desdobramentos que leva esse esoterismo a se cruzar com a história da Tradição Stellamare e sua reorganização contemporânea.

terça-feira, 16 de dezembro de 2025

Os Significados Ocultos do Presépio nas Tradições Italianas

 Por Draco Stellamare



Presépio de minha casa neste ano, com as peças principais pintadas à mão.
Além deste participo da montagem de um que pertenceu à minha bisavó.

O presépio é uma das maiores representações religiosas da época de Natal, difundido no mundo todo. Levado como decoração por alguns, e por outros como um ato religioso, a ideia do presépio surgiu com São Francisco de Assis, que desejava elaborar uma reencenação do nascimento de Jesus. Com a ideia posta em prática, a encenação com atores reais em breve deu origem às reproduções em imagens esculpidas, primeiro nas casas dos nobres e mais abastados, e depois nas casas do povo em geral. Na cultura italiana e ítalo-diaspórica o presépio se mantém como um símbolo persistente de sazonalidade e devoção – um símbolo que, como outros símbolos religiosos, adquire significados subliminares nas tradições de bruxaria e magia folclórica da península e dos locais de diáspora. Neste texto vou discorrer brevemente sobre alguns desses significados dentro de meu conhecimento.

terça-feira, 14 de outubro de 2025

ALQUIMIA E INICIAÇÃO

Por Draco Stellamare

Este texto foi escrito originalmente para os membros da Congrega Stella Maris, e integra o conteúdo de estudos obrigatórios dos aprendizes.

Esta versão pública foi devidamente editada com a retirada dos conteúdos internos.

 

Desenho de um livro

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A alquimia é definida por muitos autores – sobretudo em âmbito historiográfico – como uma “proto-química”, em partes representando as ideias basilares que evoluíram para o entendimento da química moderna e em partes composta de teorias que hoje são consideradas ultrapassadas do ponto de vista científico. No entanto, falta ao olhar moderno – para além da compreensão de que toda arte se circunscreve às possibilidades de seu tempo – o entendimento de que muito além da parte materialista e laboratorial a alquimia é uma arte metafísica, psíquica e espiritual, num sentido iniciático. Os principais objetivos da alquimia eram a transformação do chumbo (e outros metais) em ouro, a criação do homunculus (o homem artificial) e a preparação da Pedra Filosofal, um insumo que possibilitaria o usuário a adquirir vida eterna, poder e cura para todas as mazelas. Tais objetivos considerados pelo cientista moderno como fantasias sobrepujadas possuem uma dimensão mistérica que continua muito relevante para os adeptos do esoterismo tradicional. Em nossa arte bruxa, os princípios alquímicos se relacionam estreitamente a diversas de nossas simbologias, ritos e mistérios. Sobretudo no curso do processo iniciático, considerando as influências e amálgamas do rosacrucianismo antigo e outros mistérios obscuros em nossa tradição, a sabedoria alquímica nos é relevante para compreender as fases pelas quais somos conduzidos no curso da trajetória espiritual que objetiva a deificação. Esse texto busca elucidar essa perspectiva.

sexta-feira, 25 de julho de 2025

CHRISTOPHORUS: De Lupercus e Hermanúbis ao santo cinocéfalo

Por Draco Stellamare, a.k.a Hercle Lupino

A narrativa mítica das tradições não nasce a partir do nada. Ela é o resultado de um longo processo de trocas, amálgamas, transliterações e traduções que ocorrem com os simbolismos mágico-religiosos ao longo da história. Um perfeito exemplo disso é a figura de São Cristóvão em sua representação cinocéfala (com cabeça de cão), amplamente perseguida nos últimos séculos, mas ainda sobrevivente no folclore e nas tradições de bruxaria europeias e diaspóricas. Essa figura, que corrobora diversos e complementares mistérios, relaciona-se a representações caninas, lupinas e cinocefálicas anteriores ao cristianismo, como as figuras do deus lobo italiota que originou o romano Lupercus – ora representado com cabeça de lobo, ora como fauno –, os cães da horda de Hécate ou Diana Trivia, e o sincrético Hermanúbis do Egito helenizado.



Os cultos do cão e do lobo na península itálica são muito antigos, e já eram praticados por vários dos povos que habitaram o local antes da expansão política romana, como os lígures e os sabinos. Inicialmente, a divindade loba (ancestral do cão) não era muito diferente da Mãe-Ursa dos povos do sul: caracterizava-se pelo totemismo e por sintetizar uma deidade clânica, cosmologicamente central na visão de mundo do povo que a cultuava, e dotada de características tanto primordiais quanto apotropaicas. Com as movimentações entre esses diferentes povos e a assunção de um modelo religioso politeísta curvado aos centros de poder político e social que surgiam, tais divindades clânicas e locais passam a ser inseridas numa cosmologia onde adquirem um papel secundário ou derivativo em relação aos deuses principais dos dominadores políticos. É assim, resumidamente, que a figura primordial e primitiva do deus lobo – tanto em aspecto masculino quanto feminino – se desdobra em Lupercus (um deus que passa a ser considerado filho de Marte em alguns contextos, ou uma face de Sabazios, Dis Pater, Februo ou Fauno em outros) e as figuras lupínicas matriarcais como a heroína Valeria Luperca e a própria Lupa Capitolina, que nutriu Romulo e Remo.

quarta-feira, 16 de julho de 2025

A Sinergia e seu valor na Bruxaria Tradicional

 Por Draco Stellamare

A leitura de algumas passagens do livro Della Medicina, de Lisa Fazio, me trouxe um insight interessante sobre o papel que o coletivo desempenha no desenvolvimento dos saberes tradicionais e como até mesmo a sua estruturação prática depende das relações entre o praticante e o outro – sendo esse outro tanto o alvo da prática, quanto o auxiliar dela, um elemento humano ou não humano presente no mesmo contexto e todo o restante da teia de complexidades que os envolvem. A autora do livro menciona que a medicina folclórica italiana nasceu – como diversos saberes tradicionais de diferentes etnias – através de uma emergência de conhecimento propiciada pela sinergia de diversos seres: humanos (dentre os quais a relação entre muitas gerações que legaram conhecimento de múltiplas formas às gerações posteriores, e a relação entre membros de uma mesma comunidade que interferem e trocam entre si no mesmo espaço), não-humanos (como as plantas, animais e demais fatores naturais com os quais o humano se relaciona de forma muito profunda) e supernaturais (como espíritos, deidades, e outras presenças de cunho transcendental à matéria nua e crua, que fazem parte daquele complexo de relações).



La Danza - Guglielmo Zocchi (1874)

O uso da palavra sinergia é muito propício, pois ela vem de συνεργία que traduz o alinhamento entre duas partes que permite a manifestação de algo que ultrapassa suas individualidades. Ou seja, a união harmônica, sinérgica, dos seres que coabitam um mesmo espaço é superior à soma de suas partes individualmente consideradas. É com base nesse mesmo princípio que podemos entender a importância do coletivo tanto nas práticas da magia folclórica – de qualquer etnia e contexto – quanto nas bruxarias tradicionais.

sexta-feira, 30 de maio de 2025

Meditações sobre o “esoterismo bruxo”

 Por Draco Stellamare

Há um assunto sempre muito debatido nos círculos de bruxos tradicionais que me faz refletir e procurar respostas no passado, tanto o meu quanto o dos outros. Esse assunto é a relação íntima e ao mesmo tempo conflituosa e incompleta entre a bruxaria historicamente precedente à Wicca de Gerald Gardner e o esoterismo – em sentido tradicional da palavra. A noção esotérica de tradição é o que faz com que muitos de nós tenhamos aderido ao termo bruxaria tradicional para designar as nossas práticas, pois ele reflete as noções de linhagem iniciática, simbologia coesa e alinhamento com os pressupostos e estruturas dados pela tradição perene (ou qualquer outro nome que se queira dar para esse mesmo conceito). Contudo, maiores detalhes sobre como se deu esse processo de “esoterização” de nossas bruxarias frequentemente fogem ao nosso entendimento.



No pouco tempo livre que me sobra entre o trabalho, a manutenção da vida doméstica e os afazeres pertinentes aos meus grupos de bruxaria, li um texto relevante da autoria de Andrew D. Chumbley – um autor frequentemente mencionado por mim e não por acaso – para a antologia Hands of Apostasy publicada em 2014 pela Three Hands Press. Esse texto se chama The Magic of History e, como o próprio título sugere, aborda as complexidades existentes entre a concepção acadêmica-historiográfica sobre o passado e a concepção interna às tradições bruxas sobre sua própria história. Chumbley elabora nesse texto uma linha de pensamento sobre a evolução das bruxarias inglesas que eu mesmo me valho para compreender as tradições italianas – em específico a minha.

terça-feira, 10 de dezembro de 2024

A Bruxaria dos “Stellamare”

Por Draco Stellamare


A Tradição Stellamare tem suas raízes principais distribuídas entre a região do rio Livenza, que divide o Veneto e o Friuli, e a cidade de Udine, onde podem ser encontrados diversos processos inquisitoriais relativos à bruxaria histórica. Cidades onde nasceram e viveram alguns de nossos antepassados entre 1800 e 1900 incluem Annone Veneto, Motta di Livenza, Pordenone e Fontanafredda. Acreditamos que nossa linhagem retorna às sobrevivências oitocentistas da bruxaria praticada pelos Malandanti friulanos e da magia curativa e apotropaica executada pelos seus rivais Benandanti, ligando assim nosso passado (ainda que de forma indireta) com a “sociedade bruxa” operante na região entre os anos de 1500 e 1700. Dentre os membros importantes dessa rede local de praticantes de magia que tiveram seus nomes gravados na história inquisitorial, podem ser notados Aquino Turra, o bruxo sedutor pordenonês, o benandante Andrea Cattaros e muitas bruxas como Lucrezia Montereale Mantica, Maddalena Locatelli, Elisabetta Grimaldi e Aurora de Rubeis. Sobre alguns destes personagens escrevi dois extensos artigos para a edição de dezembro de 2024 da revista digital A Língua da Serpente.

domingo, 1 de setembro de 2024

SUB SPECIE INTERIORITATIS (Do ponto de vista interior)

 Por Pietro Negri (Arturo Reghini)
Traduzido por Draco Stellamare

Coelum . . . nihil aliud est quam spiritualis interioritas. (Céu... Não é mais do que a interioridade espiritual.) - Guibertus, De Pignoribus Sanctorum, IV, 8

Aquila volans per aerem et Bufo gradiens per terram est Magisterium. (A águia voando no céu, e o sapo rastejando na terra é o Magistério) - M. Maier, Symbola Aureae Mensae duodecim Nationum, Frankfurt, 1617, p. 192



Muitos anos se passaram desde que eu tive minha primeira experiência de imaterialidade. Mas apesar do passar do tempo, a impressão que eu mantive dela foi tão vívida e poderosa que ela ainda permanece em minha memória, tanto quanto é possível transfundir e reter certas experiências transcendentes. Eu vou tentar agora transmitir essa impressão humanis verbis (em termos humanos), evocando-a novamente dos recantos mais internos de minha consciência.

segunda-feira, 12 de agosto de 2024

LEGAME: Uma explanação sobre linhagem iniciática e hereditariedade na magia

Por Draco Stellamare



Há uma infinidade de assuntos de ordem esotérica em bruxaria tradicional que acabam sendo mal compreendidos pela falta de proximidade das pessoas com o tema. Dois deles, que em realidade se desdobram de uma mesma questão, ficam frequentemente em voga quando surgem as discussões sobre a legitimidade de uma linhagem ou sobre a bruxaria dita “hereditária” – que para muitos mentecaptos não existe (em que pese reconhecerem que existem hereditariedades de diversos outros ofícios e práticas mágico-religiosas). Esses assuntos são a própria compreensão sobre o que vem a ser uma linhagem iniciática, e o que vem a ser uma hereditariedade mágica. Neste texto, pretendo abordar esse assunto de modo direto, explicando como esses conceitos são compreendidos no bojo das tradições que recebi e da mentalidade tradicional como um todo.

quarta-feira, 7 de agosto de 2024

A Voluntária Cegueira dos “Sábios”

 Por Draco Stellamare

Aviso aos leitores: Este texto é uma resposta a diversas falas depreciativas contra nossas tradições, feitas por determinadas pessoas. Ele fala contra um posicionamento específico de alguns indivíduos e não tem a intenção de desmerecer qualquer outra tradição, linhagem ou praticante solitário que não se enquadre como promulgador das ideias “fundamentalistas” e injuriosas lançadas contra nós.

 


É amplamente conhecido o ditado que diz que “o pior cego é aquele que não quer ver”. Sempre me ocorreu que essa frase dizia respeito às pessoas que, tendo ciência de uma situação óbvia à sua frente, preferiram viver uma fantasia confortável onde o aspecto incômodo da realidade era ignorado. A mim parece que uma parcela da comunidade bruxa brasileira vive constantemente fazendo uso desse artifício. Em especial algumas lideranças religiosas, seus vassalos e seguidores - muitos ligados à Wicca Tradicional e alguns poucos à sua variante eclética - parecem ávidos em desqualificar as linhagens alheias enquanto bruxaria, isso quando não questionam a própria existência do laço tradicional alheio fazendo as mesmas perguntas que já foram dirigidas às suas próprias origens, sem serem satisfatoriamente respondidas por eles mesmos (às vezes por desconhecimento e outras vezes por deliberada má-fé).

sexta-feira, 19 de julho de 2024

Deificação e a Descida do Fogo de Aster

 Por Draco Stellamare




A bruxaria considera a si mesma como um caminho sinuoso entre a esquerda e a direita, mas para onde este caminho leva é uma questão pouco dimensionada na maioria das vezes. As respostas podem ser tantas quanto são os caminhos a serem trilhados, mas de uma maneira geral um objetivo se destaca dentre as sendas que se pautam na mitologia sabática da bruxaria: esse objetivo é a deificação, chamada ainda divinização ou apoteose, para a linguagem católica “herética” a coroa da vida eterna.